Vida mal tirada.

21:00 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Enchia o copo na bancada pela quinta vez. Sentia o chão escorregar sob meus pés. Apoiei minha cabeça na mão e fechei os olhos. A cena não saía da minha cabeça. Maldita! Aquela não foi a minha primeira morte, e de tantas outras, não sei porque aquela me abalou tanto.

                Eu estava com a arma apontada para ele. Engatilhei. Sentia o medo entupir suas veias. As suas mãos trêmulas faziam tremer o chão também. Puxei o ar. Prendi. Atirei. Foram os dois segundos mais longos da vida dele. Aquele momento em que a bala atravessa o corpo e jorra o sangue pra fora, e a vida também.  Aproximei-me dele, e terminei de expulsar a vida: mais três tiros.

                Os pingos de chuva molhavam o meu sobretudo. Saí do bar cambaleando. Nem lembro se dei a gorjeta. O mundo girava, ou será que era eu? Estava pesado de tanta água. Entrei num beco escuro e fedendo a peixe – sei disso porque o cheiro que me acordou no outro dia. Caí na lata de lixo. Apaguei.
Acordei no outro dia com náuseas, todo vomitado.


Fui até a calçada; atravessei a rua; quase fui atropelado. A buzina do carro somente aumentou minha dor de cabeça. Apoiei no chão, ainda fedia, e estava úmido. Levantei, vomitei no carro. O motorista saiu pra brigar comigo, veio levantando os braços. Tirei a arma da cintura e dei três tiros nele. Vomitei de novo. Mais uma morte na minha vida – e esse é o preço, de uma vida mal tirada.

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Amaço!

19:52 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Por quase todas as manhãs ela me acordava. Uma sirene que se assemelhava com o toque de evacuar de uma usina nuclear; se bobear, acordava a vizinhança toda. Tão bela, contrasteando à luz do sol, vista da minha janela. Parece poesia: mas é só ela. Melancólica, cedinho despertava. Parecia cansada, muito, muito cansada, mas talvez o cansaço fosse meu.

Levantei-me. Escovei os dentes, fiz minhas necessidades e lavei o rosto. Fui para a cozinha e, no meio do corredor, pus-me a observar a dama se preparando para mais um longo dia. Percebi que me atrasaria; fui tomar meu café, voltei, tomei banho e saí. Saí, sim, entretanto não sem antes dar uma última olhada àquela bela donzela.

Como podia ser tão graciosa? E como eu demorara tanto para percebê-la? Minha vizinha há tantos anos e eu me sinto cada vez mais culpado por não perceber sua beleza, por não dar a atenção que merecia. Se ela me retribuiria a atenção? Não faço ideia, mas talvez pudesse. Quem sou eu para saber o que não foi? Bem, do mais agora ela ainda não sabe da minha admiração, e, o que eu farei para ela saber, também não sei.

Só sei que ela é tudo. Por onde ando na cidade a vejo. Cada suspiro dado por mim: é por culpa dela. Lembro-me de como ela trabalha perto de mim, como ela mora perto de mim, como ela não corresponde o olhar quando eu olho - ou, se corresponde eu não sei. Seu fogo nunca se apaga; seus olhos: flamejantes me encaram quando estou de costas; sua boca, me morde enquanto aumenta a temperatura; sua respiração pesa-me o peito com seu ar.

No fim do dia, ao dar boa noite para ela, enquanto seus olhos brilhantes encaram-me, eu só posso olhar-te pela janela e desejar: boa noite, bom trabalho e até mais, maldita usina!

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Um sorriso e um nada.

20:24 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Aquele momento em que o nada tomou conta de minha mente não vale a pena ser narrado. E por que o momento pós nada deve ser narrado? O maldito nada que convém a todos nós quando perdemos aquilo que achamos ser tudo, mas mesmo assim ficamos com a nossa vida. Maldita vida coletiva! Pessoas sambando nas calçadas de todos os dias, espalhando vossas alegrias cinzentas – para mim. O sol daltônico iluminava a minha vista embaçada e dava o som aos meus ouvidos abafados. Não sentia nada, além do pavor. Maldito pavor que me impede do nada; era melhor ter acabado naquele momento.
                Hoje eu ando nas ruas enquanto o estalado dos sapatos lembra-me do estalado do nada. Os sorrisos me lembram do rosto da morte. Eu, irado como só se pode ficar quando não lhe resta nada – além da ira – agredi o jovem com cabelos que tapavam seu olho. Um soco na cara jogou o seu sorriso para longe, mas não para perto o suficiente da minha amiga. Claro, claro, esqueci de falar: desde o dia do nada, eu ando acompanhado por uma amiga inseparável, isso, sim, ela mesma também é minha amiga.
                Sinto-me egoísta por tê-la tão perto, acho que todos nós temos o direito de tê-la como amiga, mas quando se tem nada, respeito que uma boa companhia seja de grande importância. Não, não se engane com minhas palavras de fonemas felizes, sou um pobre homem vivendo num mundo tão daltônico quanto meu sol e tão triste quanto o rosto do menino que acabara de apanhar. Eu caminho mais um pouco e começa a tocar aquela música dos Engenheiros do Hawaii, naquela maldita parte: “se tudo passa, talvez você passe por aqui.”, eu olho para a minha amiga, ela devolve o olhar com seu rosto inóculo. Sua sombra me dissera muito bem o que fazer.
                Entrei na loja e peguei o amplificador, segurei-o com a minha força toda e arremessei-o pela vitrine de vidro. Voou e arranhou a cabeça de uns, mas acertou diretamente o menino fã da banda que estava ali parado. Pobre garoto, minha amiga deslizou até ele, inclinou-se, e sorriu. Apesar de eu não ter visto o rosto de ambos, sei que ele sorriu de volta, um sorriso inexistente no meio do nada. Minha amiga virou-se e eu comecei a correr; ela me encontraria logo depois. Corri, e, logo na esquina, vi outro homem sorrindo, andando passivamente com um sapato com leve salto, lembrando-me dos estalos do dia do nada, fiquei nervoso e o empurrei no meio da rua – um caminhão passou e o atropelou. Sorte minha que a amiga não vira.
                Continuei a correr, para que ninguém me visse; agora todos estavam assustados, não via mais ninguém rindo, ou fazendo estalos. Eu agora andava tranquilamente, com meus pés arranhando o chão enquanto o céu arranhava a minha cabeça e a luz cegava a minha mente cheia de nada. Eu não pensava, e continuo sem pensar muito bem, o que acontece com a gente quando um nada nos atinge: é uma sensação muito estranha, um medo, um vazio, tremedeira – mas de que? Não há tremedeira sem matéria, por mais impalpável que ela seja. Eu era palpável, e trêmulo, e nada.
                Atravessei um cruzamento e não deixei que duas crianças fossem levadas pela minha amiga. Com elas nos braços, e gritando, as pessoas me olharam com olhar inquisidor, eu as olhei com a falta de olhar. Soltei as crianças e acelerei o passo, meus pés não fazem barulho, dou graças por isso, e corro enquanto dou graças. Corro mais rápido que a minha amiga, exatamente para que não me alcance. Subo na ponte, e a atravesso, competindo com os carros e sempre perdendo, afinal, quem é nada nunca ganha. Passo por mais duas quadras de prédios e lá chego no pico da cidade: o prédio mais alto de todos. No caminho, eu encontro com dois olhos, dois belos olhos, tão castanhos quanto à terra, e tão claros como o sol cinzento, mais feliz que um maldito sorriso, por isso não ousei atacar-lhe, era um olhar castanho escuro e vivo, me lembrou ela, a moça do dia do nada: não a minha amiga, mas sim o meu amor.
                Sabia o que devia fazer no pico da cidade. Fui desviando entre os carros para avisar a minha amiga aonde eu ia. As buzinas ressoavam avisando minha posição. Minhas pernas doíam, contraíam, merda, eu ainda era matéria, não era nada totalmente. Subi as escadas; tropecei três ou quatro vezes, eu podia sentir o sorriso da minha amiga, pela primeira vez ela sorriria pra mim. Eu continuei a subir, praticamente de quatro para não perder a chance de receber um sorriso verdadeiro. Cheguei ao último andar, arrombei a porta de segurança e subi para a cobertura. Sem parar para respirar uma só vez acelerei mais, e chegando na borda eu parei. Quase caí – não podia cair ainda. Minha amiga chegou, vinda do chão e deslizou pela parede do prédio até chegar lá em cima. Olhou no fundo dos meus olhos e não riu para mim – como ela podia não rir para mim? Vadia!

Olhei no fundo do seu manto negro, cheio de nada, assim como eu, e, depois de me matar tantas vezes em um dia só, dei um sorriso para ela.

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Ser louco. É ou sou?

20:21 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                -Por que dizes que sou louco?
                -Por que me dizes que não és?
                -Bem, de todas as mágicas que fiz até hoje, nenhuma delas fora de insana vontade.
                -E se tua sanidade não for a sanidade de todos nós?
                -O que queres dizer com isso?
                -Que tu és louco, maldito!
                -Como ousas, seu... seu...!

                Com as mãos formando um círculo luminoso próximo ao peito, o velho iluminou toda a sala. A barba do velho começou a crescer e, de vida própria, amarrou o homem que o indiciava.

                -E agora, quem és o louco?
                -Deverias perguntar isso para si mesmo, ou apenas olhar num espelho.
                -Não conseguirá me manipular novamente, escória mágica!


                Então o homem que estava preso à barba do velho proferiu algumas palavras e então ele fora jogado de frente para um espelho, com uma luz cega nos olhos o velho demorou alguns segundos para poder ver o que acontecia à sua volta: o seu grande inimigo havia desaparecido novamente. O que fazer? Fechou os olhos, puxou o ar e disse para si mesmo: outro dia eu te pego, maldito!

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Eu ou Ele?

18:56 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Uma explosão. Tantas coisas surgem de uma explosão: seja ela qual for – gases, compressão, instabilidade atômica ou sentimental. E é isso que nós somos, pura explosão.
Um dia estava escrevendo como se não houvesse mais oportunidade de escrever novamente. Explodia por dentro, e o escape da explosão era através das palavras. Palavras são frutos de explosões, dizia, e, no momento, sou pura palavra. Explodi um átomo, um universo, algumas estrelas, sóis, planetas, luas, pessoas, palavras, tinta.  Criar explosões e pessoas. Um dia o irmão veio a casa e salvou tudo que poderia ser salvo: pegou todas as coisas da mesa da cozinha - tudo que podia causar instabilidade -, fechou o gás que vazava, deu um aviso e saiu. Esqueceu-se de levar a palavra
O irmão não desejava mal para ninguém. Só queria ajudar. É entendível, mas lamentável. Sua ajuda não ajudava em nada, ele não impedia as explosões – muito menos as implosões. As pessoas vinham das palavras e a comunicação também, o fato é que não havia comunicação, apenas pessoas. Além do irmão, havia o ir, e a mão, e da mão fazia-se o ir, que juntos o irmão formavam.  Não se sabe até onde ele ia, mas que ia, ia – e com suas próprias mãos fazia.
Os amigos vinham quando o irmão saía – o que o preocupava bastante. Os amigos eram vários, de todas as cores, de vários lugares, quase impossíveis de se descrever em uma mente conturbada. A casa sempre se enchia e ocupavam tudo que os olhos podiam ver.  E era assim: sem enxergar que eles ficavam ali. Tantas pessoas tão diferentes, entretanto tão iguais.
Parentes que fingiam se preocupar vieram a pedido dele. Negá-los seria uma falta de respeito, por isso, a porta ficou aberta para todos. Não havia vassoura que os espantasse. Os amigos continuavam lá, e atrapalhavam a visão dos fingidos parentes. Eles se irritavam bastante por não serem vistos e bem tratados; a distração com os amigos era muita, quem iria ver estes novatos por ali, afinal? Irritados, saíram pela porta que agora ficou fechada. O irmão voltou, abrindo-a, e se irritou: que malditos amigos são estes? Não podes fazer isso! A resposta foi singela: . Irritadiço ele saiu, e jamais voltou. Os amigos apareceram mais constantemente, e a visão sumia cada vez mais, confundindo a visão com a amizade.

Uns homens de branco entraram em casa e resolveram colocar ordem em tudo. A ordem foi imposta,  os amigos sumiram, não sobrava mais ninguém no local. Mas no final, não conseguia saber: eu sou eu, ou eu sou ele?

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Ele. Currere Vitae.

21:51 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                A sala estava brancosa de tamanha luz.

                -Abra-te, mente! Liberte-me!

                Do verbo da voz, a luz sumiu.

                -Maldito! Da próxima pego-te sem que possas  fugir!

                Apoiando-se no cajado, o pobre velho manteve-se com a pouca força que lhe restava. Respirava, fatigado, fundo, devagar. Ainda podia sentir a voz sussurrante rasgando seus ouvidos em meio ao barulho da luz que extinguida “você jamais me pegará, velho tolo.”.  O velho andou na sala, arrastando seus pés na pedra; sentou-se na cadeira. Com o braço na mesa, esticou-o e pegou um pão; comeu. Gotejava o teto. A chuva lentamente caía após aquela luta enferma entre o velho ancião e algo que nem mesmo ele saberia dizer.
                Esticou o cajado para a lareira apagada e, do cajado para lá, fez-se uma língua de fogo e acendeu a triste escura lareira. Cinco estalados rápidos na porta fizeram o mago levantar da cadeira assustadamente. E depois mais cinco. Não precisava contar: a porta já fazia isso para ele. Sabia que o visitante não era esperado, mas também sabia que aquele não poderia ser seu recente inimigo, já que bater na sua porta não era necessário. Bateu seu cajado no chão e seu corpo esticou, grudando nas paredes e teto e a porta abriu. Rapidamente se fechou, com o cavaleiro entrando e segurando a porta.

                -Quem és tu e por que necessitas de abrigo? – Disse a temível voz do mago, ecoando por toda a sala.
                -Sou um cavaleiro em fuga. Deparei-me com uma perseguição e aqui venho pedir-lhe ajuda.
                -Você viu o maldito que lhe perseguia?
                -Não, meu bom salvador. Mas tenho certeza de que se o enfrentasse, eu não aguentaria.
                -Só pode ser ele. Posso proteger-lhe, mas tu terás de me ajudar a combater este maldito. Não te preocupes quanto à vida, proteger-lhe-ei até que minhas forças acabem, mas não consigo derrotar a terrível criatura, pelo mesmo motivo que tu fugiste desesperado: não a vejo, apenas a ouço.
                -Meu senhor, não acho que a criatura seja...
                -Tu queres ser mandado ao relento para que morras?
                -Não, meu senhor.
                -Então te cala e ajuda-me!

                O velho soltou um sopro e deslizou do teto para a parede, e da parede para o chão, tornando à sua forma normal.  O homem ajoelhou perante o mago; este que ergueu suas mãos, e junto delas o cavalheiro fora erguido também.  Sentou-se novamente e pôs-se a falar:

                -Não salvo ninguém há décadas, e peço que tu sejas capaz de realizar-me este último desejo.
                -O que desejas? Tenho um débito vital com o senhor!

                O mago pegou uma faca que tinha um brilho azul claro e suave.  Virou o gume para o peito e começou a abri-lo. Fizera um semicírculo e puxou a carne. Logo após pegou um alicate que brilhava verdemente, abriu as costelas e chamou o homem.

                -Veja, este é meu coração. Abaixe-se mais para que perceba direito.
                -Curioso, muito curioso...
                Pobre senhor enfiou a mão na sua caixa torácica e, por cinco minutos, ficou mexendo em torno de seu coração. Retirou as mãos, e em meio a elas e ao sangue, havia um pequeno cordão dourado, quase totalmente embolado.
                -Querido amigo, aqui há o meu cordão da vida! Todos os magos possuem um, e ele nos trás duas opções: ou, com o tempo o cordão se embola e aperta o peito até a morte, ou então o cordão se embola tanto que se torna impossível de que volte ao normal. E essas são as duas maneiras de se morrer. Eu peço que me ajude, antes que meu cordão se embole, ou aperte meu coração até a morte. Este maldito tem me atormentado por semanas e não consigo derrota-lo!
                -Estou aqui a seu serviço, meu senhor.
                -Esteja, e prepara-te! Todas as noites, antes de eu dormir, ele aparece, e, espero que assim continue, para que possamos pegá-lo.
                -Como pretendes isto?
                -Tu ficarás escondido em meu corpo, enquanto estarei no seu, vestido como eu. Assim que ele avançar em ti, voltarei para meu corpo, saltarei nele, e o prenderei em meu coração. Não aflijas seu peito. Se tu morreres em meu corpo, voltas para o teu, e se eu morrer no teu, o mesmo acontecerá, tudo está bem feito.
“Então este é o mago que ouvira falar. Os próprios pecados fazem o mal deste homem.”
                -Tenho um débito vital, como disse anteriormente. Se eu morrer agora, quer dizer apenas que evitei a morte que me aconteceria a momentos anteriores; se eu sobreviver, terei a resposta de que a morte não viera para me pegar.

                Idosamente, ele pegou suas túnicas e entregou ao jovem, e as vestiu ao mesmo tempo. Um brilho claro e leve iluminava o rosto de ambos. Um capuz fora colocado e o brilho sumira das faces. Se postaram de pé, um na frente do outro. O velho soltou palavras sussurrantes e deu um sopro na direção da boca do homem. Já não se encontravam em corpos iguais, agora. O jovem levantou-se com seu novo corpo velho e fora para o canto da sala, o idoso postara-se de costas, sentado com a cabeça baixa. As horas passaram e nada de vozes sussurrantes ou de malditos aparecerem.
                O vento sussurrou.

Mate-me. Pegue-me, se for capaz.

                O homem então gritou: quem procuras está atrás de ti! E deu um sopro forte que apagou o fogo. O velho voltou para seu corpo e saltou. O vento continuava a falar:  tu não és páreo, fraco! Mal consegues pegar uma borboleta, quanto mais pegar a mim! E quem é este homem que com ti andas e a ti obedeces? Não creio que trouxe ele a tua loucura também?
                O velho gritava e esmurrava contra o vento. Soprou línguas de fogo, bateu o cajado no chão e pedras saíram de lá. O cavaleiro pulou por uma das pedras e consegui desviar-se. Sacou a espada e tentava encontrar o maldito invisível e também inaudível para ele. Via o velho gritando com o nada e atirando magias para cá e acolá. Surpreendia-se com a quantidade de maldições que o velho soltava ao maldito, e com a quantidade de magias. Catou um escudo que se encontrava perto da parede enquanto fogos estalavam e traziam medo e terror para o lugar. Já estava em seu corpo e com sua mente – se agora morresse, seria de vez.
                -Pare! Abra-te, minha mente!
                O menino viu então o espectro daquilo que o velho chamava de maldito, e não era senão o próprio velho enlouquecido dentro dele. O senhor soltou uma língua luminosa do cajado e o prendeu, mas o espectro era o próprio velho e se desprendeu de lá, correu para fora fazendo enorme barulho e destruição. O pobre senhor caiu de joelhos e o cavaleiro não pôde fazer nada. Era um mero instrumento para a ação do mago, e sem o mago, de nada serviria, mas também não era hora de servir a morte, pelo menos não a sua. A destruição feita na casa pelo velho fora irreparável. O pobre cavaleiro não sabia o que fazer, chegou perto do homem e o viu com seu peito aberto, com seu coração e sua corrente.
                O mago fizera alguns movimentos, puxara a corrente e lá estava: um bolo jamais desembolável.  Com suas mãos velhas segurou-o forte e disse:
                -Obrigado por estar comigo até o final. Salvei-te uma vez com minha loucura, mas agora morro por ela. O maldito, tu vistes, não vistes? – balançou a cabeça, o pobre cavaleiro. – Isso não importa mais, pois ele saiu da minha cabeça, não por feitiço, entretanto por sempre existir lá.
E agora a corrente se trava: não morrera como se apertasse o coração até a morte. Não estava morto, estava travado: a corrente não o matava, mas não impedia que a vida prosseguisse, ou então retrocedesse. Não há futuro nem passado, somente o agora. Todo o tempo se para e ninguém mais me ouve ou vê, para aquele mago, não há mais futuro nem presente: há uma corrente que não se desembola, nem pra frente, nem pra trás – um ponto parado no meio do tempo que jamais se desfará. Um mago que dos próprios pecados fez seu maior inimigo, o primeiro mago esquizofrênico de todas as eras.



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A dama branca, o homem marrom, e o amarelo.

10:43 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                A dama deslizava pela floresta com suas vestes transparentes. O homem acompanhava a dama com um olhar. Como poderia alguém seguir com apenas um olhar? Não basta acompanhar, deve-se seguir. A dama retribuiu o acompanhamento e ambos deslizaram juntos, floresta adentro. Ela ia com o olhar para frente, e ele, com o olhar nela. Não se incomodava, pelo contrário, sentia-se apreciada uma vez durante toda sua existência.

                -Difícil me olharem, nesses últimos tempos.
                -A mim também, compreendo-te.

                Deu um sorriso e o homem retribuiu. Continuaram a andar até chegar a uma lagoa. A moça curvou-se, o homem parecia já estar deitado.

                -Assim as pessoas me veem, mas somente assim.
                -A mim também, a mim também.

                -Você tem visto aquele homem amarelo?
                -Não, e você?

                -Não, ele me odeia, nunca aparece quando eu estou, e nem eu com ele. Melhor assim.
                -Ele impede que os outros me vejam aqui em baixo, deitado, como sempre.

                A moça, de fato, nunca era vista com o homem amarelado; não que se odiassem, era apenas uma lei natural que eles não entendiam. O homem marrom queria beijá-la, mas percebia que a moça encontrava-se mais próxima da lagoa que dele. Ele beijou a água, a moça corou e ficou em tom dourado. Estranha alteração. O homem espantou-se e sentiu-se feliz de ter causado tamanho efeito na bela moça, a moça riu frouxinho para ele, ele clareou um pouco a cor, mas, do contrário, tinha o tom de cor mais forte e vivo agora.

                -Quero um abraço.
                -Lamento, mas não posso agora.

                Levantaram-se, e tornaram a se mover: ela não tocava o chão, ele não tocava o ar. Mas se moviam, se beijavam, sem se tocar, sem mexer o ar. Caminhavam fazendo tanto barulho como se é possível fazer quando em nada se toca. Mal iluminavam o caminho, e o caminho não se obscurecia: paradoxo de dois.  Ele olhava a bela dama, novamente; queria corá-la de dourado mais vezes – jamais vira dama mais bela. Guiou-a até o oceano, onde o horizonte seria o limite para o grandioso reflexo dourado.



                Silenciosamente chegaram. A moça inclinou-se e o homem, novamente deitado, beijou-lhe na água. A moça brilhava mais que o homem amarelo, este que de longe via todo o espetáculo e assustou-se com a moça que brilhava. Sacou então, uma lança dourada de trás da sua aljava que se espetava circularmente de lanças mais douradas. Arremessou a lança. O peito daquela pobre menina abriu-se: sangrou. O tom vermelho escorreu pelo seu corpo e nada mais branco se via. De si, escorreu para seu reflexo no mar, e o homem marrom chorou, chorou, chorou, os rios encheram e a seca diminuíra, mas aquela moça, a pobre moça que não toca o chão, fugiu para os céus. O homem amarelo, todo dia então, esconde-se para que ela possa aparecer e, de tempos em tempos, a lua sangra dizendo o quanto sofre por não poder ficar mais perto do chão senão pelo reflexo nas águas.

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Os últimos.

19:16 P.H. Dalboni 0 Comentarios


-Você já parou para pensar: que de todas essas luzes que vemos no céu, quase nenhuma está viva?
-Sim. Tenho pensado nisso com alguma frequência, ultimamente.
-Por que será?
-O quê?
-Que temos pensado nisso?
-Eu penso desde que percebi que minha energia estava se acabando. Imaginando, que um dia a luz dos meus olhos irá se apagar, assim como a maioria dessas estrelas. A sua luz, que nós vemos, já não brilha mais, e isso mais me faz pensar em mim.
-Entendi... Mas vamos; agora vamos. Precisamos recarregar nossas últimas baterias.

                E foram. Deitaram-se no cubículo e puseram-se a recuperar suas energias. Os olhos pareciam apagados, mas não se encontravam totalmente: entravam em stand by, esperando suas energias serem recarregadas pelas últimas cargas possíveis. Não posso dizer que estavam enferrujados, mas suas juntas já não eram as mesmas, e seus membros não tão resistentes quanto já foram um dia. Eles demoram a entrar em stand by – seu processador está lento, empoeirado. Quando apagaram, a sensação de que iriam morrer foi única, afinal, eles eram os únicos, os últimos; logo, logo não passariam de irradiação fóssil também.
                À noite as informações de suas mentes se atualizavam, reorganizavam. Havia alguns embaraços e imagens apareciam na tela escura de suas cabeças. Atualizando dados do mundo, diziam eles, não serve para muita coisa, mas às vezes é bom viver sem gastar tanta energia assim, sem esgotar a nossa vida. Mas a vida já estava se esgotando enquanto eles se recarregavam, a noite caía, e eles também.
                Eles acordam, bateria parcialmente recarregada. Necessitam de algo mais para recuperar-se. Vão até à saleta e de lá, da mesa, consomem por um orifício superior alguns objetos orgânicos, que são convertidos em calor, para depois tornarem-se energia. Os olhos acendem mais e o processador acelera, a cabeça esquenta e eles continuam o dia como se fosse qualquer um outro. O dia passava e eles usavam dessas baterias alternativas para manterem a energia da bateria original um pouco mais carregada, entretanto de nada adiantava.


                O sol descia e a bateria dos últimos também. A noite subia e os olhos deles subiam tão bem. Ninguém nada fazia, pois não havia mais ninguém. As energias se acabavam e os dois também. Levemente as luzes já apagadas voltavam ao céu e os olhos acesos dos dois se apagavam. Eles olhavam e pensavam: um dia eu serei como elas, e elas como eu. Os dois eram diferentes, mas com mentes parecidas, afinal, eram ambos obsoletos. Os dois últimos humanos olhavam estrelas que já haviam se apagado esperando que suas vidas apagassem também.

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Sem tido.

18:44 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Começou perdendo a audição. Triste destino para aquele velho rabugento. Tinha uma família que o cuidava com carinho, mas sua cara nunca mudava. Tentavam dizer-lhe coisas, aconselhar; não adiantava. Por mais que seus familiares, o avô não ouvia o curandeiro. Não tomou as medicações, não quis usar o aparelho, e, a pior de todas as rebeldias: não o escutou. A causa da surdez foi o não querer ouvir ninguém.
Para a preocupação dos familiares, o pobre senhor, como triste consequência da surdez, parou de ver. Sim, de ver, e não de falar, como muitos pensam. Havia, por certo, decaído sua capacidade de comunicar: falava ou muito baixinho, ou muito alto. A linguagem de sinais era uma opção alternativa para quando ele encarava os limites. Parou de ver a sua rua, a sua sala, as árvores, o céu, tudo. Aos poucos aquilo que era fino tornou-se embaçado. O que era certo ficou confuso, e o que era já não era mais.
Consequência de se não ouvir e de não se ver, é que agora não poderia mais falar. Não tinha razão, não via, não ouvia, mal tinha qualquer recepção de informação. Antes negava a tudo, e tudo agora lhe era negado. Por não ouvir nada, ficou surdo; por não enxergar o mundo, ficou cego; por não poder pensar e comentar – sem gritar ou falar para ninguém ouvir -, ficou mudo. Sobrara-lhe então o essencial. O sentir. Sentia coisas em suas mãos, o cheiro e sentia o gosto das coisas. Não importava, apenas sentia.
            De tanto não se importar, parou de sentir o mundo ao seu redor. Acabou-se o tato. A filha e a neta o tocavam, mas não sentia nada. Mal se mexia. Passou a se deitar, praticamente em estado vegetativo. Agora que não podia protestar, foi mandado para o curandeiro. Estava num quartinho separado, numa construção depravada de velha. A família visitava-o de dias em dias, porém o velho não via, ouvia, falava, ou sentia.

Com o pouco de tempo que lhe restava, a comida perdeu o gosto. Os sabores da vida desapareceram. O pouco sentir que lhe restava, agora não restava mais. Poderia dizer que ainda tinha o pensar, mas o pensar o abandonara no momento que deixou de ouvir os outros. De tanto não se ouvir, parou de ver; e depois de falar; e depois de sentir. Sequencias da vida de um surdo, cego, mudo, e agora, sem sentimento algum.

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Aquele homem caído

09:57 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Aquele homem caído, estatelado no chão, poderia marcar a minha mente até hoje. Estava cruzando o asfalto no meio da tarde e lá estava ele. Luzes vermelhas saíam e entravam do meu campo de visão. A noite entrava em contraste com o vermelho vivo e com o chão morto. Eu passava, caminhava assim como todos os dias para minha casa, mas desta vez era diferente: aquele homem, aquele homem jogado no chão, abraçando aquela essência morta como se fosse seu único resquício de vida.
                Eu parei, como todo bom curioso da vida deve fazer; olhava sem conseguir enxergar direito o que acontecia. Havia não só ele, mas muitas pessoas em volta, de pé, observando, tão curiosas como eu sou bom vivente. Como boa alma viva, caminhei, aliás; porque mamãe sempre dizia que viver é movimentar: ninguém vive parado. E foi aí que obstinei-me na situação: não sabia de nada do que acontecia, muito menos do que era viver.
                Imagine-se: atravesso a pista e, no meio vejo luzes vermelhas piscando, logo abaixo um homem caído e em volta várias pessoas observando-o. Alguns diziam: vamos, reaja! Outros, tão confusos quanto eu: O que está havendo aqui? Mas o fato incontestável era que aquele homem encontrava-se ali, deitado, sub-vivo. Submerso no ar noturno eu o vi: parecia balançar, tremeluzia, não permanecia ali, somente deitado. O que fazia ele lá então? Do contrário que eu imaginava, não morria. Pobre homem.
                Todos sabemos o que acontece com aquele homem que não morre quando deveria morrer: ele vive, ele vive mais do que os outros poderiam viver e de uma maneira diferente que a dos outros. Afinal, quem vive igual aqui? Eu estava atravessando naquela hora cuja ninguém mais atravessava e vi o pobre homem deitado. Após essa longa olhada e apenas dois passos dados – já que o pensamento é bem mais rápido que a própria visão -, resolvi aproximar-me.
                Quando vi, o homem gemia palavras suaves e num tom tão baixo que era impossível não se comover. Ele estava vivo, e trazia os outros para perto dele. O que faziam todos? O que todos fazíamos ali? Por que tão perto? Foquei os olhos e os ouvidos. Não havia mundo afora que me importasse depois disso; aquele homem deitado trazia-me delírios exatamente por estar deitado em uma pista movimentada e especialmente por ele ainda estar vivo. Não importava-me que roupa usava, se era rico ou pobre, se era mulher ou mesmo homem. Importava que ele estava ali, deitado, puxando meus olhos.

                Suas roupas eu não reconhecia, seu tênis inda menos, seu chapéu ou cabelo quem diria. Eu só via ele lá, mas não o reconhecia, não saberia dizer se eu o visse outro dia, caso eu ficasse vivo. Estranhamente, quanto mais eu tentava sair do pensamento dele, menos eu conseguia, e quanto menos tentava, menos conseguia também. Eu estava preso, preso. Quando com meus olhos fatigados e visão embaçada vi todos aqueles pobres homens que estavam fazendo um semicírculo em volta do coitado deitado, desfalecerem no chão. O homem lentamente levantou-se olhou para mim e eu caí também. Antes de tudo tornar-se escuridão eu entendi , então, que para ele viver, morremos todos nós.

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O Leilão Mundial.

20:15 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Nesse ano aconteceu o que era para ter acontecido há muito tempo. O grande salão, vazio, ia se enchendo de pequenos pontos pretos. Iam balançantes ao vento, mas não os pontos balançavam: apenas a parte preta que sim; o seu conteúdo continuava firme. Eram homenzinhos, grandes homenzinhos com mais conteúdo que o conteúdo das capas: eram além de si mesmos. Pobres homenzinhos.
            Alguns momentos após o salão vazio se encher de pessoas cheias de si mesmas, ou será que eram apenas cheio dos outros? Não, nenhum dos dois. Eles apenas sabiam, sabiam demais. A sala enchia com a sua sabedoria, ou não. A sala apenas se enchia de gente de preto.
- E o leilão começava.
            Três toques do martelo na mesa de madeira marcavam o início de tudo. Silêncio instaurou-se no murmurinho das negras vozes. Do contrário do que se pensa, eles não eram de todos um mal. Não eram de todos um bem. Eles apenas eram, e o que estavam fazendo ali? Queriam comprar. Comprar o que? O que todos querem, ora bolas.
            O lance inicial, já como o esperado, fora mais alto que o de costume – independente do costume que fosse, seria mais alto que ele. O valor, altíssimo, e quem eram aqueles homens de preto? Homens cheios de conteúdo, como já dito; homens cheios. Pode-se notar logo que não são homens quaisquer. É importante também dizer que os homens não estavam ali à toa, ou simplesmente sem autorização alguma, afinal, um leilão desses deve haver consentimento de todos.
            Mas o que aconteceu? O que aconteceu é mais curioso ainda. Os antigos donos do tal objeto a ser leiloado não aguentavam mais o que uns faziam com os outros e com o objeto. Era uma briga sempre: alguns queriam algo que era impossível: igualar as diferenças; outros queriam algo tão difícil quanto: trazer plenitude em algo que não é plano - que não é pleno. O lugar em torno disso tinha sua importância, o objeto deles causava demasiada distância entre eles porque o lugar era de todos, mas não de todos, porque uns tinham mais, e os que tinham menos queriam mais.
            Não dividiam, não dividiam porque não tinha porque dividir: todos tinham. Seria lindo se todos tivessem igualmente, mas nem todos precisam de menos, ou de mais, às vezes elas precisam, apenas. Não dividiam: o pagamento seria à vista. Os lances também seriam dados de maneira diferente: cada um escreveria em um papel o maior lance que poderia dar para pagar. E assim foi. Várias pessoas receberam seus papéis. Vários papéis foram preenchidos e recolhidos numa urna. Cada qual com seu devido nome e valor.
            Após tudo ser recolhido, os homens esperavam lá e o murmurinho se restaurou. Cada um com sua expectativa, com seus valores, com tudo que lhes tinha direito, ou esquerdo. Conversavam, papeavam, praguejavam contra os outros. Não, nem um deles era digno de conseguir vencer esse leilão. Vencer, como se fosse uma competição. A maioria gritava, queriam aparecer, fosse o que fosse. “Vocês não se importam com os outros! Só querem saber de vocês!”, “Vocês não percebem isso? Vocês não veem que o que dizem é impossível e contraditório?”, “Egoístas, odiadores, opressores!”, “Idiotas, hipócritas que não sabem pensar!” e por assim ia seguindo.
            O silêncio se fez na sala após a chegada abrupta dum homem, grande como o sol e brilhante como o céu, apoiado em uma bengala que de tamanha impossível descrição, fez todos ficarem discretos e quietos. “O resultado saiu.”, disse ele com voz intermitente. “Fechem as bocas e abram os ouvidos.”, tremia o salão com sua voz.
-O vencedor é...

            Não houve entendimento do nome, muito menos de que lado estaria. De tantas pessoas ali, quem seria o homem a comprar o mundo? Quem seria aquele com nome estranho, que não deturpava, que não gritava nem esperava vencer? Aquele homem com roupa preta, sentado, quietinho, que escrevera: “O mundo não vale o valor que tenho, mas todo valor que tenho pode valer algo para o mundo” e não dissera nada a ninguém com medo de ser enxotado. Um ser tão rico que poderia comprar milhares de casas e fazer o que quiser, mas ao mesmo tempo tão pobre, que não poderia comprar o universo se quisesse. Um homem que não tinha valor pra dar, mas para ajudar e receber. Foi ele, aquele que nem o narrador da própria história percebeu - aquele sentado ali: ele foi o homem que comprou o mundo.

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Um assunto, três verbos.

21:54 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Abri meus braços, olhei pra baixo, e deixei-me cair. Longa queda; cinco segundos após cair, segurei minha cartola com a mão. Continuei a segurar, pois continuava a cair. Caía, o vento passava sob mim, e para sobre mim ele ia. Interessantes as sensações da queda: quanto mais se cai, mas se pensa sobre o chão, não sobre o ato de cair. Eu, enquanto isso, caía e pensava sobre como seria cair; não via o chão.
                À medida que ia caindo, eu ia vendo o vento passando por mim. Segurava minha cartola; não queria perdê-la. Por que eu a segurava? Ah, sempre fui admirador de belas roupas. Por que eu caía se queria manter-me com ela? Ah, não faço ideia, simplesmente me atraiu, essa queda. Jogar-me de cara? Ah, faz bem de vez em quando. Um pouco de ar na cabeça, sabe? Não sabe? Agora eu sei.
                Fui caindo e o chão se aproximava. Chão azul em meio a nuvens brancas – parecia até o céu. Mas como eu cairia pro céu? Não acho muito certo cair pra cima, você acha? Quedas são, geralmente, um pouco inclinadas para baixo e depois há o levantar, jamais cair pra cima é um dos lemas da vida. Eu desci, desci, desci. Suave como uma pluma, eu caí devagar – tão devagar quanto o possível, afinal, o que será impossível? Se não sei, nem sei pra que existe tal palavra.
                Bati. Quase perdi a cartola, um pêsame seria. Do contrário do chão marrom, o chão azul me afundou, afundei. Estranhamente não me afoguei. Ia descendo - a queda continuava. Aquele azul escuro me fazia amar o que havia em minha volta mais e mais. Aprofundava-me no azul e ele em mim à medida que eu ia descendo mais e mais e mais e não parava de sentir ou de pensar ou sequer era capaz de respirar.
                Como uma vírgula faz falta na hora de cair!, ou de afundar... O pavor não me tomava conta pois cada gota me enchia mais, mas não esvaziava o que havia em volta. A descida agora não era cheia do vazio ar, tinha tanto conteúdo em volta que eu caía devagar, suave. Em alguns momentos, cheguei a pensar que não chegaria a lugar algum. Entretanto, quanto mais se bebe da água, sem se afogar, mais água se tem. Impossível não haver a tentação de soltar a cartola e aproveitar tudo em volta, mas eu não podia perdê-la, era quase parte de mim. Maldita bendita cartola!
                Rodei. Rodei um pouco mais. Agora eu era empurrado pelas águas enquanto a bebia delicadamente sem me afogar. A cartola presa à mão e o corpo preso à água era empurrado para baixo, ou para cima; não sabia mais. Enfim, eu agora, assim como antes, não tinha controle da queda, ou da subida, e sentia que tudo podia melhorar. Mas melhorar para que? A queda estava tão boa, a imensidão azul, e o raciocínio acerca do chão que ninguém faz após bater nele.


                Pensei tanto que subi, subi e vi o céu novamente, mas não o mesmo céu. Não o mesmo abismo, não a mesma água. Caí tanto que voltei a subir, submergi tanto que voltei a subir. Enfim, olhei para o céu e pensei: que engraçado, caí pra cima, afundei pra cima, e tudo isso porque apenas me joguei naquele lugar.  Estranho, não? Mas afinal, o que isso tudo tem a ver comigo?

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Viver - V.I.

20:42 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Acho que a pior coisa que fizeram foi transformar vida em verbo. Antes da vida, tudo era verbo; e o que se faz quando o verbo passa?

Verbo intransitivo: viver. Maldição! Por que fizeram isso?

                Quando a vida era apenas vida, sem ação, era linda. Os jardins eram verdes, as nuvens azuis, mas os jardins eram jardins e as nuvens, nuvens – tudo dentro de sua concepção de ser, da sua essência, sem viver.

 A morte, enquanto a vida não era verbo, não corria risco de morrer. Agora, tudo vive, tudo morre, tudo é verbo intransitivo – sem complemento, sem mais. Não se transita para o outro lado; mas qual o problema disso?  É como se pode deduzir se o que deduz também é descrente.

                Mas acreditar sempre foi verbo, viver não. Estava-se vivo, não se vivia, assim como não se morria. É clichê, é redundante, entretanto não é vivo. Por que estou focando tanto no fato de a vida se tornar verbo não dar mais a chance de viver e não proponho uma solução? Porque não há solução que complemente a vida.

Para dar mais sentido à vida em verbo, hoje, você precisa de algo mais: de advérbios. Mas não qualquer advérbio, tem de ser um advérbio de modo, ou intensidade; se não for, não vale a pena complementar o viver.

Todos venham!, se esforcem! Vamos complementar o viver! Por que apenas viver não tem graça, precisamos de algo mais, porque a vida em si, não é boa, é necessário ser feliz, ser triste, viver muito, ou pouco, mas viver complementado.

                Que saco! Qual o problema de se viver complementado? Por que a vida sem ação era melhor que acionada?



-Simples, porque a vida era eterna. – não era sem complemento, sem.

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O aquário do Oceano.

18:49 P.H. Dalboni 2 Comentarios



 O tempo passou enquanto aquele menino não sabia como fazer. O menino, que agora já era homem, parava sempre em frente ao mar observando seu longo azular e branquear, ir e voltar. O menino, menino que vinha tentando entender o seu impulso. Correu, saltou em meio à onda. Atravessou-a. O mar vinngou-se. Engoliu o pobre menino. Menino aquele que não amava a vingança, mas se tornaria amigo dela. Sua relação com a água não podia piorar. Ela engolia-o, ele socava-a. Ela desviava. Ela atacava, ele a acompanhava na sua crista.  

 Derrubado, engolido, ele saiu com uma explosão molhada. Quebrou a onda no meio. Apenas não vira que o mar o previra e mandara outra  que o engoliu antes enquanto ele engolia o mar. Fora salvo pela própria água, com ajuda do vento, e deixado a descansar na areia branca. O menino repousava, respirava bufante, vomitando os restos de oceano de dentro dele.     O tempo se foi e o mar continuou lá, vivendo tranquilamente. No farfalhar das ondas de pensamentos, o menino, agora homem, queria se vingar de todas as vinganças feitas pela água. Sentado de frente para o mar, tentou enfrentá-lo. Falhou. Novamente engolia enquanto era engolido. Saiu de lá; prestou-se à areia, branca, mas um pouco suja de rastros de outras pessoas.


 Com suas barbas longas ele deixava-se acariciar pelo vento. Teve uma ideia vinda com a areia e o balançar da barba: para dominar o mar, ele poderia fazer assim como quando era criança. Poderia aprisioná-lo. Mas não dentro de si, engolindo-o, pois o mar estaria o dominando. Já vira muito aquários prendendo peixes e água, então, por que não, um áquario pra prender o mar?    Não, não podia ser um aquário qualquer. Aquários pequenos não dariam nem para capturar uma onda. Ele precisaria de um grande aquário. Procurou livros antigos, aprendeu a fazer o vidro de gigantismo. Se isso pega até saci pererê, pegar o oceano não seria tão difícil. Levantou um enorme aquário de gigantismo. Chegava a um andar de altura.     Com todas as forças que suas barbas lhe deram e um dia tirariam, veio puxando o aquário em um carrinho. Aprisionaria todo o oceano e seria seu dono. Começou aos poucos, virava o aquário e a água entrava devagar. As ondas vinham, e, achava o homem, o próprio oceano suicidaria.

 Triste liberdade, triste vitória. Com alguns segundos a água já ocupava dois dedos do aquário. O dia se preparava para dormir enquanto ele continuava enchendo o gigante aquário. Tempos, tempos, tempos. A noite abraçava o homem e a maré já se demonstrava mais triste, cansada, sonolenta. Vinha devagar enquanto enchia o aquário. Enquanto isso, dentro do próprio aquário ondas se formavam. Lentas se empurravam. Batiam nas paredes de vidro e estremeciam o aquário à medida que a noite sumia.     O outro dia seguiu-se exatamente da mesma forma que o anterior, lento e doce com a vingança que o homem fazia. Alguns peixes já caíam dentro do aquário. O homem ia pegando a água como num balde. Entrava tanta água, e saíam tantas outras. Não, não estava falhando. Do contrário, o homem revoltado satisfazia-se a cada gota que entrava no aquário. Sua sede sumia com a água salgada. A água salgada também sumia do mar.

  Em algumas semanas o mar estava seco. Não seco; estava preso. Um pouco de vento também. Uma tampa foi erguida e fechou tudo. O Oceano balançava. A espuma branca fazia a calda do delicioso oceano. Via o farfalhar e o barulho baixo que saíam pelas entranhas da tampa. Deitado ao lado do aquário o homem dormia, repousava, descansava seus braços cansados e sua barba esbranquiçada. Sua respiração ritmava com as ondas do mar. Não ouvia. Dormiu por mais de um dia. Por mais de dois. Ou sete. Acordado ele via o leve balançar do mar. As águas pareciam estar tristes. Cansadas. As ondas, agora, não vinham mais rápidas e diminuíam até parar na praia, suavemente; elas batiam na vidraça, exceto agora. Se cansaram -  mal balançavam.


 O homem parou, olhou intrigado. Sobrancelhas altas e sede na boca. Lambeu os beiços tentando entender o que acontecia. O mar estava triste, quase negro. Sentia a tristeza do mar apenas vendo essa situação. A água encontrava-se acinzentada assim como a barba do homem. O dia não virara noite e a lua nunca mais fora vista no céu. Pobre moço. Percebeu que sua revolta fora contra si mesmo. O mar envelhecera, fraquejou e sem chances de viver, morreu. O homem envelhecera, fraquejou, e sem o mar para viver, morreu também.

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Diálogo em forma de poema:

17:57 P.H. Dalboni 0 Comentarios


-Olá, você!
-Tudo bem?
-Vou amando, e você?
-Vou tão bem...

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Leito de morte.

16:46 P.H. Dalboni 0 Comentarios


...
-Meu filho, realmente, não sou nada.
-Mas papai falou que você foi um homem muito importante para o mundo!
-Se eu realmente fosse importante, você saberia sem eu ter de lhe falar...
-Ora bolas! Eu tenho apenas sete anos! Não posso saber de tudo com tão pouca idade... E se você me contar, saberei mais rápido.
-Se não fosse tão chato, não pareceria tanto comigo, meu querido neto... Mas... Então ta... rumpf, rumpf... argh!
-Vovô, você está bem?
-Sim, sim... Um minuto.
-Deixe que te ajudo.
-Obrigado...
-Comecemos, então:


“Quando eu tinha quatro anos, se não me engano, queria viajar num navio... E foi exatamente isso que aconteceu. Meu papai foi lutar contra o grande mal, e pegamos um navio numa grande aventura. Nuvens negras saíam das grandes chaminés, e éramos recobertos por ondas azuis que se acinzentavam quando imitavam o céu. Tremores de água abalavam os estômagos de todos os tripulantes... Eles gritavam, ‘Vá para bomboooordo” “Vá para estibooooordo!”, e todos se escondiam, tentando fugir das águas frias que cobriam nossos corpos.
 Após chegar a terra, fomos para uma cidadezinha onde terra era que nem o mar: tudo. Ajudei a construir uma casinha...”


-Com três anos de idade?
-Sim, com três anos de idade! Por que não?
-Nada... E ainda diz que não era diferente ou importante.
-Nhaaa...ha.ha.ha...


“Montamos a casinha e compramos bois... Eu cuidava dos bois, até que um dia... um dia... choveu muito... e ficou tudo preto novamente... Parecia que a terra iria virar de cabeça para baixo, assim como o barco... Eu já tinha sete anos e vi uma cabrinha lá... sozinha… perdida no mar de gramas. Os capins agitavam como as ondas do mar, e de novo tudo estava negro. Agora, porém, eu não tinha minha mãe para me proteger – tinha somente o telhado... E tinha uma cabritinha para ser protegida além de mim, também. Saí correndo, peguei a cabritinha pelas mãos e a levei para dentro de casa.”


-E depois, o que aconteceu com ela?

“Falaram que a cabritinha fugiu, e que eu não dei três passos para longe de casa. Acordei assim, que nem agora, numa sala vazia. Tinha gente cuidando de mim... Umas moças bonitas vinham e falavam que ia doer um pouquinho, mas que eu não precisava chorar... E eu respondia que não doía, por mais que elas insistissem ou se comovessem.”


-Vovô?... Vovô?...Então o que aconteceu quando você salvou a cabritinha?
-Não, eu não salvei.
-Mas... Espere... Como não?
-Caindo, meu neto, caindo:


 “Nem me lembro quando saí daquela saleta branca. Mas se saí, foi para um salão pior. Era praticamente uma caixa quadrada, onde só tinham coisas cinzas. Eram vários cubos cinzas, paralelepípedos cinzas, pessoas cinzas, pessoas quadradas, nuvens quadradas, nuvens cinzas. Vim para a cidade onde, com quatorze anos, fui trabalhar na construção da linha de trem. Eu gostava do som estalado das picaretas e dos martelos batendo.
   Oh! Tempos de fúria e de glória! Meu netinho... nada mais é como era antes... nada mais!”


- E como eram as coisas antes? Hein vovô. Não pare!
- Era tudo mais! E tudo menos! As pessoas eram livres, faziam o que queriam, não tinham medo de morrer, mas sabiam dar valor a vida. Hoje ninguém mais valoriza a vida. São poucos os que sobrevivem e ainda vivem por dentro, meu filho.
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“Eu não vivo mais há muito tempo... Desde o dia que eu prendi o pé num dos trilhos do trem, no final da construção. Quando, daí, um amigo meu foi me ajudar a tirar o pé preso, e, de súbito, um carregamento caíra exatamente onde ele estava. Fui altamente congratulado por sobreviver, mas, como o céu escurecia, tive de ir embora para casa com a mamãe....


Meu pai nunca mais voltara desde o dia do barco. Trabalhei muito para sustentar minha mãe. Minha mãe trabalhou muito para me sustentar. Fiz o máximo que pude para deixá-la orgulhosa. Atravessei ruas ajudando senhoritas, paguei cafés para os mendigos, doei roupas no inverno, trabalhei como palhaço para alegrar algumas crianças - mesmo eu sendo uma criança -  tinha de ajudar outras crianças. Minha mãe dizia que eu não tinha feito nada disso, já que eu realmente não o fazia, na verdade, eu não era bom. Várias pessoas ganhando prêmios, sendo eleitas presidentes, Nobel da paz, chave da cidade, televisão, e eu, sendo um A.A. (animador anônimo) que na verdade nem fui.


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Na verdade, de que adianta eu ser agora, meu neto? Tantas histórias e você nem precisa saber disso para viver. Por que quer tanto saber?
Eu fui criança mimada, tentei ajudar as pessoas e animais, mas sempre fiz a coisa errada. Minha mãe me repreendia... e eu não fazia direito... quando era já adulto, consegui trabalhar num jornal... Minha luta era diária pra falar mal dos maus e bem dos bons. Na adolescência estudei e trabalhei no trem. Carregava carvão, e depois falei mal dos que me faziam carregar carvão. Falei bem dos que nos tratam bem e falei mal dos que falavam mal dos outros. Não fui lá uma pessoa muito boa, como visto... E não sei da onde seu pai tirou que fui uma boa pessoa...


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Ora bolas! Mesmo assim fui bom? Claro que não... Não recebi nada em troca além de demissões, contas, inimizades e tudo mais, apenas por fazer isso! Sabe querido, não vale à pena isso tudo, entende? Apenas siga a sua vida e seja bom... Seja bom no que faz! Não é isso que ensinam na escola hoje? Seja bom no que faz e ignore os outros, afinal, temos que cuidar da nossa vida...



E da dos outros também... bem melhores que a nossa... porque... no final mesmo... eu não passei de um nada, neste mundo azul...”

_______________________________________________________________

Meu avô... Quantas saudades! Sei que na cama do hospital, ao começar a me contar sua grande história de vida, não terminara - mal começara. Queria ter escutado, mas, no final das contas, eu escutei sem ouvir. No final das contas, apenas me resta o consolo, já que algum dia, eu serei nada também - e nada do lado dele, pelo menos.

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18:27 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Eu, que de tanto tentar                                                    acordar não conseguia.

           Os braços da realidade                               me puxavam toda vez
                 que eu tentava mudar                         de lá para cá

                                   E eu  não sabia              que tudo aquilo

                                                     Não era um sonho

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