Asas do tamanho do mundo - Pt. III

16:31 P.H. Dalboni 0 Comentarios




-Levantem homens! Vamos matar esse monstro! – Gritaram em uníssono.

                Recuperaram-se, levantaram, e correram para a montanha.

                “Cheguei, finalmente, à colônia. A luz tomou conta de minha mente e eu não sabia o que fazer quando chegar. Abri os braços e senti tamanha felicidade vir até mim. Eu e meu novo grupo fomos acolhidos com comida e repouso e agora me sinto melhor do que nunca. No momento me encontro na cama descansando. Respondi um questionário rápido sobre quem eu era e no que eu poderia colaborar. Respondi sem pensar duas vezes: matar o maldito dragão. Deem-me as armas, e eu vou com vocês para matá-lo. O atual sargento me achou presunçoso, até descobrir as minhas marcas e ver de onde eu vim e a qual unidade eu pertencia. As notícias já tinham chegado até lá. Ainda bem.”

                Chegaram muito perto da montanha em muito pouco tempo. A nobre criatura percebeu a presença de seus inimigos, ergueu as longas asas e mergulhou no vento: seu tamanho era tão grande que demorou para desenrolar seu corpo da montanha e chegar até eles. Subiu, ganhou velocidade e desceu. O grupo se separou – Formação meia lua... de sangue! Gritou Diana. E eles a fizeram, miraram seus arpéus, e quando o monstro se aproximou, atiraram. De todos os tiros, apenas o de Patrício acertou. Patrício, o pobre coitado que se recuperava da perna manca, não teve nem tempo de aproveitá-la. O monstro alçou voo assim que percebeu que era uma emboscada e levou Patrício junto. Este, por sua vez, não conseguira soltar a tempo, e quando soltou, já era alto demais. Caiu tão lentamente quanto o monstro demorou para sair da montanha  e fora a primeira baixa da noite.

                A criatura virou-se e começou a fazer um movimento circular. Os soldados sacaram suas armas e brandiram tiros. Raras foram as balas que acertaram, porém as que acertaram foram de utilidade: descobriram que a armadura da criatura era falha em suas dobras; se lá acertassem, podiam reduzir, ou até impedir, a movimentação dele. Atiraram sem piedade e o monstro deu outro rasante iracundo. O vendaval feito derrubou novamente os soldados que restavam. Marcos se irritou com a morte do amigo, pegou comunicador-acionador agarrado na mochila de Diana, esperou o monstro fazer a curva e apertou o botão. Em seguida, a serpente contorceu-se e começou a cair atordoado, sem direção. Diana gritou - Formação Quadrado! - e eles ficaram em três vértices de um quadrado. –Homens!, atirar arpéus! – e todos atiraram – acertaram nas juntas da casca do inimigo. Ele caía lentamente, suave como uma pena. Os segundos se passaram e os pobres guerreiros sentiam as pernas fraquejarem em saber qual seria a consequência disso. Atiraram o arpéu reverso, para se segurarem no chão no momento da queda. A terra se levantou e afundou, uma onda atingiu a todos. O dragão tinha caído.

                Luiz levantou-se coberto do que pensara ser um teto de ouro. Nos primeiros segundos acreditava estar no céu, mas não estava – não havia lugar pior para se encontrar -, ele estava debaixo da asa do dragão. O brilho áureo e azul quase o cegava e tomava sua cabeça em dor. Não perdeu tempo, levantou-se e caiu. Sua perna estava machucada, felizmente nada grave. Forçou-se e mancando foi ver os seus amigos. Vira Thomas caído ao seu lado. Correu o mais rápido que pôde, não que adiantasse algo, e não adiantou. Thomas estava sem pulsação. O pior veio a sua mente; foi verificar a área próxima de onde os amigos estavam. Andou, andou, andou, e embaixo da cabeça da criatura, o corpo de Marcos, iracundo ainda jazia. Ele gemia baixo e engasgava com o próprio sangue. Luiz correu para socorrê-lo mas era tarde, morrera também. Não podia acreditar no que via, e só podia pensar no sorriso de Diana. Não podia acreditar que era verdade. Não, não, não podia. Correu, cambaleando. Caiu, levantou, correu. Caiu novamente.

                Em alguns minutos tudo que se passou em sua mente foi o nada. Diana estava lá, deitada, espremida por uma pedra. Um filete de sangue escorria na sua boca. Luiz ajoelhou-se perante o corpo, e entre lágrimas viu um caderninho apertado no peito dela. Os olhos dela estavam quase sem luz e ele pegou o caderno. Diana teve um espasmo.

                -Não!
                -Oh! Diana, você!... você!... Eu não acredito! Vamos, não morra!
                -Não há mais... não há... eu matei a criatura! Levei... a criatura que... – cuspiu sangue sujando o rosto de Luiz – levou tudo de mim! Eu... levei... ela... embora... – e a luz abandonou os seus olhos.

                O único sobrevivente agora chorava com lágrimas e sangue umedecendo seu rosto. Sentia vontade de morrer também. Sentia-se injustiçado por estar vivo, até sentir um suspiro da criatura. Luiz sacou a metralhadora da pobre moça e começou a atirar na fenda do corpo do monstro. Foi o suficiente para acordá-lo. Com um rugido que ensurdeceu um ouvido de Luiz, a criatura bateu um pedaço da cauda no chão, fazendo um enorme buraco e alçou voo. Seu bater de asas jogou Luiz longe. Caiu no enorme buraco. Entretanto a queda não foi o suficiente para matá-lo. Em alguns segundos ele acordou. “Maldita causa dos terremotos, e agora de minhas tempestades!”, gritava em sua mente. Passou a mão no chão suavemente para analisar o terreno e viu um aparelho piscando em vermelho. Era o comunicador. Ligou para seu chefe e disse:

                -Acho que encontrei senhor. Um enorme buraco, uma enorme toca. Acho que me leva para uma dessas colônias.
                -Ótimo. Já rastreamos a sua posição. À noroeste daí há uma colônia amiga. Acredito que por este túnel seja possível chegar lá. Onde está o resto do grupo, senhor? E o dragão? Onde está Diana?
                -Estão todos mortos. – disse como se fosse a resposta que o seu superior gostaria de ouvir – Mortos pelo dragão.
                -Meus pêsames, soldado... – disse como se fizesse não mais que uma obrigação. – Novas ordens para o senhor, siga para a colônia amiga e lá você irá se recuperar e receberá novas ordens.
                -Câmbio. – desligou Luiz. – Filho da puta.
                O jovem soldado com a sua barba rala ensopada de lágrimas e sangue entrou no túnel. Desligou o comunicador e ligou o GPS. Fechou os olhos, apertou a caderneta, pegou uma caneta que achou no bolso e, enquanto entrava no túnel começou a escrever...

                “Hoje eu provavelmente pararei de escrever. Houve uma reunião com os grandes líderes e haverá investida tão grande quanto eles. Fui convocado como líder de um batalhão. Vou para minha última missão, minha missão mais da morte que da vida. Peço perdão por não ter obedecido a minha amiga, os meus amigos. Peço perdão por não ter sido bom suficiente, mas agora posso retribuir. O dragão comerá sua própria cauda. Vamos embora! Vamos matar um dragão!”


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Asas do tamanho do mundo - Pt. II

19:34 P.H. Dalboni 0 Comentarios





                
Luiz levantou-se mais cedo que os outros. Uma vasta neblina tomava conta dos céus e da terra e mal via à distância. Ele foi lentamente recolhendo e ajeitando o pequeno acampamento. Aos poucos os outros levantaram-se também, e colaboravam com o arrumar das coisas.  Na verdade queriam arrumar apenas uma coisa: o mundo; e claro, era grande demais para que eles o fizessem. Não desistiram de feitos maiores e puseram-se a caminhar. Diana ainda estava quieta e só dava ordens quando necessário. Caminhavam com pés rastejantes e mochilas pesadas, mas aceleravam o passo para alcançar a criatura, onde quer que ela estivesse.

                E a sorte correu ao lado deles. Poucos minutos após iniciarem a caminhada o rádio comunicador começou a chiar. Suavemente uma voz grave saía de lá. Chamava o esquadrão; agora, gritava-os. A mensagem foi respondida.

                -Diana falando aqui, responda. O que houve?
                -A criatura atacou nossa cidade! Fugimos pelos túneis recém descobertos...
                -Túneis? Que túneis, senhor? Como está a cidade?
                -...Não me interrompa mais, por favor. Fugimos pelos túneis, e não temos muito tempo. Antes do ataque, recebemos mensagens sobre eles:  formam estradas por dentro de todo nosso país. Encontramos parte da obra desse maldito dragão! São muito fundos e o sinal é pouco aqui, então me deixe falar logo: prendemos um localizador embaixo da asa dele, e bombas elétricas que irão explodir dentro de alguns dias – a menos que vocês as detonem antes. Vou te passar os dados do localizador e quero que vocês cacem-no, matem-no. São a nossa única esperança. – bufava o homem.
                -Mas senhor, como vamos mata-lo, isto é, se o acharmos? A cidade fica muito longe? Como ele teria passado por nós? Isso, sem nós termos visto!
                -Soldado!, não acredito que aches só existir um caminho até aqui, mas pelo que verifiquei, vocês são o esquadrão mais próximo da localização do monstro. Achem-no, detonem as cargas e, assim que ele estiver no chão, prendam-no e matem-no. Quero a carcaça dele em minha casa. Desligando.

                Um ruído fino calou o rádio comunicador. Após alguns segundos, os dados começaram a ser baixados em uma tela, e uma pequena luz piscava a noroeste nela. Por sorte o monstro não destruiu todos os satélites.

-Vamos indo! – gritou Diana. E todos a seguiram.
-Você acredita que com tantas bombas atômicas, um choquezinho vai atordoar esse bichano? – disse Luiz, baixinho para Thomas.
-Achávamos que a radiação ia matá-lo e não aumentá-lo assim; não temos muitas opções. Ele já era enorme antes; agora, é de um tamanho que sequer a Terra pode contar, ou conter.

                Luiz riu triste e comentou:

 -Boa sorte pra nós.

 E Patrício respondeu igualmente.

                Diana continuou a andar quieta e calada. Não sabia, mas ela dava confiança a todo o grupo: parecia ser frágil, mas demonstrava que sua armadura feminina era mais forte que qualquer colete de soldado. Caminhava sozinha, mas sabendo de toda a companhia, e toda companhia sabia que ela era a líder. Há anos, quando tomou a frente do esquadrão, os outros nem tiveram tempo de chacotear com ela. Era Diana, era guerreira, e era líder. E seguindo os bips do comunicador, ela guiou o grupo.
                Patrício cantarolava alguma música antiga; Marcos rezava a cada cinco segundos e Thomas cochichava piadas com Luiz. Este, que por sua vez tentava adivinhar o que se passava na mente de Diana. Diana apenas guiava - tentava não pensar muito; em momentos assim pensar pode não trazer solução alguma. Pelo resto do dia, os diálogos foram cessados. A neblina não dissipou e todo som ouvido faria a diferença. Prosseguiram por trilhas até o início do crepúsculo, trilhas que dividiam o bosque da planície, ambos esverdeados ainda. 

Por fim começaram a dar a volta na montanha. Seguiam sorrateiros, encontrando aberturas onde se esconder. Quando a noite caiu, não acenderam fogueira, nem montaram barracas. Deitaram em seus sacos de dormir, um próximo ao outro para esquentarem. A caverna não era lá o mais confortável dos lugares, mas, com certeza, era mais protegida que muitos outros.

 Enquanto a noite caía, o sinal do comunicador subia: o monstro se aproximava mais e mais. Nenhum deles tinha visto sinal da criatura durante todo o dia, quanto mais à noite. As horas passaram e eles tiveram a terrível surpresa pela manhã. Um estrondo estremeceu toda a montanha e acordou-os abruptamente. Lá estava ele: dourado pela luz da manhã e imenso, com asas do tamanho dos dois hemisférios, pensava Luiz, parecia que o sol estava ali, na frente deles. Sem notar o esquadrão inimigo ele devorava a montanha, enquanto a abraçava. Arrancava grandes rochas e as devorava, depois jogava grandes pedaços longe, destruindo tudo que havia em volta.

Por sorte não vira os soldados ali escondidos, desesperados. Com as mãos trêmulas Diana tentava ligar a carga elétrica para imobilizá-lo, mas o nível parecia demorar um século a cada segundo. Faltava a coragem, faltava a força para aparecer e distrair a criatura. O suor escorria pelo rosto de todos e o som abafado das vozes dos companheiros ecoava na cabeça da bela guerreira: “Vamos, Diana! Aperte! Clique! Vamos!”. O nivelador não chegava ao máximo e, mesmo se chegasse, Diana não conseguiria apertar. Sentia o medo passando pelas suas entranhas e tornando seu corpo como rocha. Ela parou. Tudo em sua volta também.

O escuro tomou conta dos olhos dela.

Quando acordou, todos os seus amigos estavam em sua volta. Fazendo uma proteção. Algumas rochas desabaram e eles ficaram presos. Não passou mais que cinco minutos do momento em que a realidade da líder estagnou, e tudo já havia mudado. A criatura saíra para longe e não havia mais como estourar as bombas de choque. Com vários esforços os companheiros tiraram todas as pedras. Diana se arrependia de não ter cabelos mais curtos. Luiz e os outros se arrependiam de não serem mais fortes. Mas tinham vida, e era isso o que precisavam para se ter esperança de matá-lo – ou o contrário.

Com pequenas frestas de luz eles viam o lado de fora, e, de certo modo, sentiam alívio por não verem o monstro, mas o esforço para encontrá-lo seria maior ainda. A ficha demorara a cair, e só agora entendiam que quando o chefe dissera que o dragão tinha atacado a cidade, ele tinha destruído toda ela. E que, se o ataque fosse minimamente parecido com isso, o número de sobreviventes seria quase zero.  Uma lágrima escorreu no rosto de Diana. Pensava naquilo que ela chamava de família, e como o terror que sentiu podia ter como consequência a morte de mais famílias. Os outros se comoveram com a lágrima e perceberam a sua impotência perante a força da terra. Entraram em estado de choque, e, por momentos, só conseguiam ficar sentados nas pedras pensando em como estavam sendo infelizes.

“Infelizes são os dias em que eu não vejo a luz. Arranjei algumas coisas para ler e distrair. Falta pouco para chegar à colônia de sobreviventes. Recebi notícias que fortaleciam minhas suspeitas: eles têm uma forma de destruir este dragão escroto. Não aguento mais ficar aqui. Sinto falta de lá de fora, sinto falta do mundo, sinto falta de mim. Tantas coisas que eu nem possuía e digo que perdi; tudo por causa dele. Dessa vez eu irei matá-lo, dessa vez eu irei. Espere só eu conseguir retornar a mim, voltar a ser o que eu era. Você não perde por esperar.”

Pegaram o comunicador, limparam a tela, e olharam o bip vermelho, que tocava ainda a nordeste, não muito distante.  Diana se afastou, pegou o pequeno caderno e fez uma anotação, e chamou a atenção deles.

-Preparem-se homens, vamos matar um dragão.

                E com as armas em mão, caminharam sem descanso. As armas faziam um barulho que chamava a morte. Leves estalidos contando o tempo restante de vida de cada um deles. O caminho da montanha pra lá era de chão batido, quase sem plantas. Iam rastejando e deixavam poeira para trás. O caminho ia passando e a força e coragem deles também, mas tinham raiva, e esperança. Aceleraram o passo. Se a criatura parasse por lá, na próxima tarde eles chegariam nela e poderiam descontar tudo o que sentiam. Passaram a tarde toda caminhando, sem falar um com o outro. Não conversavam pois sabiam exatamente o que o outro diria, e falar seria trazer a superfície da boca todo o fardo e peso dessa jornada.

                A noite chegou e eles não pararam uma hora sequer do dia. Agora se encontravam num ponto equidistante da localidade do dragão e da montanha. Fizeram um pequeno círculo no meio da enorme planície, acenderam uma fogueira e comeram. Olhavam uns para os outros; uma lágrima escorreu dos olhos de Patrício, e outra nos de Marcos, Luiz, Thomas, e por fim, Diana rendeu-se. Eles se aproximaram, abraçaram, e, antes de dormirem, Luiz soltou tristes palavras: “Independente do que somos agora, eu amo vocês.”.

                Quando os olhos se fecharam, os minutos se passaram sem ver e, por conseguinte, as horas também. Tão rápidas que mal tiveram tempo de perceber o grande vendaval que os jogou para longe. Rolaram tão descontrolados no chão e tanto se atordoaram que demoraram tanto quanto para se levantarem. Felizmente ele não percebeu os soldados e a fogueira: odiava tudo que vinha do ser humano. No alto da montanha, a cobra alimentava-se das pedras. Irado com a situação jogava as maiores rochas para cima, tentando matar qualquer ser vivo nas proximidades.

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Asas do tamanho do mundo - Pt. I

11:36 P.H. Dalboni 0 Comentarios




                Distante no céu, quase além das nuvens, via-se a delicada imagem: deslizava nos céus; sua liberdade era invejável. Ela voava em círculos, balançando como uma onda - nadava no ar.  Os céus embaçados não permitiam que contemplassem todos os seus detalhes, mas todos os detalhes se tornavam irrelevantes quando viam sua grandeza – o monstro pousou, enroscou-se na montanha. Parecia enforcá-la. Soltou um grave rugido que balançou o capacete de todos os soldados que se encontravam a cinco quilômetros dali.

                “Já faz dois meses desde o primeiro ataque. Aqui embaixo não parece ser muito mais confiável que a superfície. Não encontrei outros moradores, mas fiquei sabendo de uma colônia de sobreviventes com suprimentos e armas a nordeste da casa de pedra. Espero que consigamos chegar lá.”

                As mãos trêmulas dos poucos soldados trataram de pôr rapidamente os capacetes.  Com a força hesitante, as pernas se puseram a marchar; ali eles não tinham escolha: eram apenas soldados. A sargento Diana soltou um riso rasgado e chamou a atenção para si:


-Vocês não deixarão que um gritinho daqueles atormente vocês, não é? Aquele verme acha que pode ser dono do nosso mundo? Não, não pode! Vamos!, avante, homens! Avante! Não parem agora.

                E então o cabo Luiz chegou e sussurrou para a líder:


-Não penso que ele ache alguma coisa. Para mim ele já tem é certeza.


                A enorme mulher olhou de soslaio e respondeu:


                -Não ouse dizer repetir isso. – Afirmou, ríspida. “É melhor morrerem achando que estão sendo honrados a morrer sem esperança alguma.” Pensava, solitária. - Agora ande! E de boca fechada! – Tornou a gritar.


                “Há algum tempo tenho forçado uma breve esperança em ver a luz. Os dias aqui são tão escuros. Tenho medo. Muito medo. Toda insegurança aqui é pouca. Não consigo acreditar que este monstro que hoje domina os céus veio daqui debaixo da terra, não consigo. E se ele resolver voltar? Todos nós estaremos perdidos. Sinto falta do dia, sinto falta da luz, sinto falta de ar.”




                Os cinco soldados andavam lentamente enquanto observavam a embaçada criatura fazendo a montanha de berço. Era tão maior que a montanha em comprimento que quase fazia dela uma bobina, repousando, guardando energia. A cada passo mais próximo à montanha, Luiz sentia um passo mais longe da vida. Não abriu a boca para falar em nenhum momento. O dia ia subindo e a hora do almoço chegava. O estômago deles tremia tanto quanto os braços e as pernas. Os pés vociferavam descanso, e, de tanto gritarem, conseguiram o desejado. Sentaram-se para almoçar, todos os soldados.


                Diana ficou distante por um bom tempo; Luiz estava contando piadas para esquecer os passos cansados. Os demais sorriam um sorriso tristonho, mas ainda assim, um sorriso.


-Ei, Marcos, qual o animal que já passou o prazo de validade?
-Não sei. Acho que todos aqui somos animais que passamos da validade. – disse soltando um riso caído. – Só espero causar uma bela indigestão nesse merda! – e um riso geral tomou conta do círculo em volta da panela do almoço. - Espero que sejamos iguais a esse rango que o Thomas fez!
- Que não comesse então, Marcos. – retrucou indignado – e, aliás, quem não se achar dragão o suficiente para digerir a comida, que não coma também. Acho que ossos fazem mais mal do que carne.
-Ei, Thomas, acalme-se! Não somos ingratos, não é pessoal? – todos concordaram, em murmúrios, e Luiz deu-lhe tapinhas nas costas – Não se estresse!
-Vamos nos divertir, não é, Doutor Patrício?
-Vamos nos calar! – gritou Diana guardando um pequeno bloco de papel no bolso e jogando o prato dentro do balde cheio de água.
                Todos lá silenciaram e abaixaram a cabeça. Entendiam aquela ordem - o dia chegava agora em sua metade: a hora dos primeiros ataques e respectivos lutos. O silêncio abafou tudo em volta, o vento cessou, as plantas escureceram, os pássaros calaram, as borboletas pousaram. Aquele momento acontecia todos os dias, e sempre parecia que o ar tombava em cima de todos lembrando o pesado fardo que ali carregavam. Uma leve brisa passou por eles, a chama embaixo da panela dançou e com a dança o momento estava terminado. Para fim de espetáculo a serpente enroscada na montanha soltou outro grito que fizera tremer os caules das árvores a leste do bando. Começou então a se desenroscar da montanha. Os soldados correram, apagaram o fogo, pegaram as armas e com pés valentes foram à frente.


           “Maldito dragão! Queria ter uma última chance de enfrentá-lo! Fico imaginando o dia em que quase o pegamos. Se ele não tivesse matado a... Não consigo respirar aqui embaixo e isso me lembra de cada momento que passei sem respirar lá em cima. Lembro-me da cena: a temível criatura alçando voo, e vindo para cima de nós. Levantamos armas, usamos o arpéu automático, mas fora inútil. Sua carcaça era dura demais. Dura demais! Como eu sinto falta de um colchão!”


                O dragão levantou voo. “Sua extensão era maior que o mundo.” pensou Thomas. A grandiosidade alada deu voltas e voltas na montanha, ondulando no céu e com suas asas que pareciam abraçar os dois hemisférios,  jogando o vento contra o pequeno grupo de sobreviventes. Diana gritava para avançarem, mas tudo que fizeram foi: paralisarem-se olhando a realização do medo. Após longos voos e ondas, o dragão virou na direção contrária dos soldados.


 -Merda! – gritou Diana. – Por que vocês não me escutam? Olha só quanto tempo vai demorar pra gente chegar lá, isso se a gente descobrir onde é lá! Bando de inúteis!


                Com a cabeça baixa, novamente, eles seguiram. Thomas cochichando para Marcos sobre como Diana e Patrício eram inconvenientes – ambos opostamente inconvenientes; Sobre como Luiz demonstrava a falsa esperança e havia sussurrado provocações à Diana. Ele ia sozinho, assim como Diana. Marcos ouvia Thomas, e Patrício ia atrás, sempre cansado. A gama de suprimentos era grande e, portanto, pesada. Quando os pés começaram a vociferar de novo, Patrício foi, inconvenientemente, o primeiro a cair. Sua cabeça não aguentava mais as reclamações. Os outros se sentaram em volta dele e descansaram também. Pegaram água e beberam. A tarde já estava acabando e nada do dragão voltar para abraçar a montanha.


-Como os antigos derrotavam dragões? Não conseguimos matar um! Imagine se tivessem vários? – refletiu Patrício. – Só espero que meus pés estejam descansados para o dia em que o alcançarmos. Aí sim, ele verá de quem a terra é.
-Se for assim, a terra é dele. Foi lá debaixo que ele veio, seu idiota.
-Francamente, Thomas, você tem se tornado um insuportável nos últimos dias. Até Marcos está cansado de você, olhe só pra ele!         


                Thomas, vermelho de cólera olhou para Marcos.

-Desculpe, amigo. Não é nada contra você, pessoalmente, mas nesses últimos dias você só tem feito reclamações e falado mal do resto do gru...
                Thomas ameaçou sacar a arma, mas em seguida parou. Olhou para Diana que o encarava , com a mão na sua Magnum 45. Abaixou o braço e descorou. Pediu desculpas malditas e sentou-se. Tornaram a andar. Andaram longos períodos com Patrício mancando, Thomas corando e descorando, Luiz tentando sorrir e Marcos pensando. Diana apenas observava, e o silêncio novamente tomava conta deles – chegava a ser entediante ficar ali. A noite chegou, e eles chegaram bem próximo do pé da montanha. Fizeram uma nova roda em volta da fogueira baixa e tentaram conversar para esquecer a tristeza da noite.
-Ei, Thomas. Me desculpe por hoje, e por sempre. – Disse Patrício cabisbaixo.
-Tudo bem. E Marcos, desculpe também. Ou todos vocês. Ultimamente tem sido difícil pra mim, sabe? Eles nos tratam como soldados, nos mandam pra campo, mas eu não sou soldado, nem vocês. Mal tivemos treinamento e querem que a gente seja forte e certeiro sempre... Ah! Quanto ódio! Só me desculpem.
                Diana deu um sorriso, guardou o caderninho em que estava escrevendo, virou as costas e foi se deitar. Luiz viu o sorriso e sorriu também, mas não para Diana, e sim para ele mesmo. Tentava imaginar por que aquela moça grande de cabelos loiros longos somente sorria às vezes e era tão dura. Seu corpo grande ia de encontro com a delicadeza que Luiz sentia haver dentro dela. O coração de Luiz palpitava, e sempre que reparava nela sentia-o batendo de novo. Os ânimos voltavam. Levantou da roda, virou-se, desejou boa noite e também foi dormir.
                “Sinto falta dela. A cada dia que passa fica mais difícil ter ela tão perto de mim, e lembrar que ela está tão perto de mim por consequências tão tristes. Sinto falta do silêncio dela, do seu jeito antissocial, de mandar sem falar; sinto falta do nervoso quando saía de perto do grupo pra ficar só. Hoje ela está aqui comigo, sempre, na minha cabeça. Preferia antes. Sinto falta de sentir falta dela.”

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