Asas do tamanho do mundo - Pt. III
Recuperaram-se,
levantaram, e correram para a montanha.
“Cheguei, finalmente, à colônia. A luz tomou
conta de minha mente e eu não sabia o que fazer quando chegar. Abri os braços e
senti tamanha felicidade vir até mim. Eu e meu novo grupo fomos acolhidos com
comida e repouso e agora me sinto melhor do que nunca. No momento me encontro
na cama descansando. Respondi um questionário rápido sobre quem eu era e no que
eu poderia colaborar. Respondi sem pensar duas vezes: matar o maldito dragão.
Deem-me as armas, e eu vou com vocês para matá-lo. O atual sargento me achou
presunçoso, até descobrir as minhas marcas e ver de onde eu vim e a qual
unidade eu pertencia. As notícias já tinham chegado até lá. Ainda bem.”
Chegaram
muito perto da montanha em muito pouco tempo. A nobre criatura percebeu a
presença de seus inimigos, ergueu as longas asas e mergulhou no vento: seu
tamanho era tão grande que demorou para desenrolar seu corpo da montanha e
chegar até eles. Subiu, ganhou velocidade e desceu. O grupo se separou –
Formação meia lua... de sangue! Gritou Diana. E eles a fizeram, miraram seus
arpéus, e quando o monstro se aproximou, atiraram. De todos os tiros, apenas o
de Patrício acertou. Patrício, o pobre coitado que se recuperava da perna
manca, não teve nem tempo de aproveitá-la. O monstro alçou voo assim que
percebeu que era uma emboscada e levou Patrício junto. Este, por sua vez, não
conseguira soltar a tempo, e quando soltou, já era alto demais. Caiu tão
lentamente quanto o monstro demorou para sair da montanha e fora a primeira baixa da noite.
A
criatura virou-se e começou a fazer um movimento circular. Os soldados sacaram
suas armas e brandiram tiros. Raras foram as balas que acertaram, porém as que
acertaram foram de utilidade: descobriram que a armadura da criatura era falha
em suas dobras; se lá acertassem, podiam reduzir, ou até impedir, a
movimentação dele. Atiraram sem piedade e o monstro deu outro rasante iracundo.
O vendaval feito derrubou novamente os soldados que restavam. Marcos se irritou
com a morte do amigo, pegou comunicador-acionador agarrado na mochila de Diana,
esperou o monstro fazer a curva e apertou o botão. Em seguida, a serpente contorceu-se
e começou a cair atordoado, sem direção. Diana gritou - Formação Quadrado! - e
eles ficaram em três vértices de um quadrado. –Homens!, atirar arpéus! – e
todos atiraram – acertaram nas juntas da casca do inimigo. Ele caía lentamente,
suave como uma pena. Os segundos se passaram e os pobres guerreiros sentiam as
pernas fraquejarem em saber qual seria a consequência disso. Atiraram o arpéu
reverso, para se segurarem no chão no momento da queda. A terra se levantou e
afundou, uma onda atingiu a todos. O dragão tinha caído.
Luiz
levantou-se coberto do que pensara ser um teto de ouro. Nos primeiros segundos
acreditava estar no céu, mas não estava – não havia lugar pior para se
encontrar -, ele estava debaixo da asa do dragão. O brilho áureo e azul quase o
cegava e tomava sua cabeça em dor. Não perdeu tempo, levantou-se e caiu. Sua
perna estava machucada, felizmente nada grave. Forçou-se e mancando foi ver os
seus amigos. Vira Thomas caído ao seu lado. Correu o mais rápido que pôde, não
que adiantasse algo, e não adiantou. Thomas estava sem pulsação. O pior veio a
sua mente; foi verificar a área próxima de onde os amigos estavam. Andou,
andou, andou, e embaixo da cabeça da criatura, o corpo de Marcos, iracundo
ainda jazia. Ele gemia baixo e engasgava com o próprio sangue. Luiz correu para
socorrê-lo mas era tarde, morrera também. Não podia acreditar no que via, e só
podia pensar no sorriso de Diana. Não podia acreditar que era verdade. Não,
não, não podia. Correu, cambaleando. Caiu, levantou, correu. Caiu novamente.
Em
alguns minutos tudo que se passou em sua mente foi o nada. Diana estava lá,
deitada, espremida por uma pedra. Um filete de sangue escorria na sua boca.
Luiz ajoelhou-se perante o corpo, e entre lágrimas viu um caderninho apertado
no peito dela. Os olhos dela estavam quase sem luz e ele pegou o caderno. Diana
teve um espasmo.
-Não!
-Oh! Diana, você!... você!... Eu não acredito! Vamos, não morra!
-Não há mais... não há... eu matei a criatura! Levei... a criatura que... – cuspiu sangue sujando o rosto de Luiz – levou tudo de mim! Eu... levei... ela... embora... – e a luz abandonou os seus olhos.
-Oh! Diana, você!... você!... Eu não acredito! Vamos, não morra!
-Não há mais... não há... eu matei a criatura! Levei... a criatura que... – cuspiu sangue sujando o rosto de Luiz – levou tudo de mim! Eu... levei... ela... embora... – e a luz abandonou os seus olhos.
O único
sobrevivente agora chorava com lágrimas e sangue umedecendo seu rosto. Sentia
vontade de morrer também. Sentia-se injustiçado por estar vivo, até sentir um
suspiro da criatura. Luiz sacou a metralhadora da pobre moça e começou a atirar
na fenda do corpo do monstro. Foi o suficiente para acordá-lo. Com um rugido
que ensurdeceu um ouvido de Luiz, a criatura bateu um pedaço da cauda no chão,
fazendo um enorme buraco e alçou voo. Seu bater de asas jogou Luiz longe. Caiu
no enorme buraco. Entretanto a queda não foi o suficiente para matá-lo. Em
alguns segundos ele acordou. “Maldita causa dos terremotos, e agora de minhas
tempestades!”, gritava em sua mente. Passou a mão no chão suavemente para
analisar o terreno e viu um aparelho piscando em vermelho. Era o comunicador.
Ligou para seu chefe e disse:
-Acho
que encontrei senhor. Um enorme buraco, uma enorme toca. Acho que me leva para
uma dessas colônias.
-Ótimo. Já rastreamos a sua posição. À noroeste daí há uma colônia amiga. Acredito que por este túnel seja possível chegar lá. Onde está o resto do grupo, senhor? E o dragão? Onde está Diana?
-Estão todos mortos. – disse como se fosse a resposta que o seu superior gostaria de ouvir – Mortos pelo dragão.
-Meus pêsames, soldado... – disse como se fizesse não mais que uma obrigação. – Novas ordens para o senhor, siga para a colônia amiga e lá você irá se recuperar e receberá novas ordens.
-Câmbio. – desligou Luiz. – Filho da puta.
-Ótimo. Já rastreamos a sua posição. À noroeste daí há uma colônia amiga. Acredito que por este túnel seja possível chegar lá. Onde está o resto do grupo, senhor? E o dragão? Onde está Diana?
-Estão todos mortos. – disse como se fosse a resposta que o seu superior gostaria de ouvir – Mortos pelo dragão.
-Meus pêsames, soldado... – disse como se fizesse não mais que uma obrigação. – Novas ordens para o senhor, siga para a colônia amiga e lá você irá se recuperar e receberá novas ordens.
-Câmbio. – desligou Luiz. – Filho da puta.
O jovem
soldado com a sua barba rala ensopada de lágrimas e sangue entrou no túnel.
Desligou o comunicador e ligou o GPS. Fechou os olhos, apertou a caderneta,
pegou uma caneta que achou no bolso e, enquanto entrava no túnel começou a
escrever...
“Hoje eu provavelmente pararei
de escrever. Houve uma reunião com os grandes líderes e haverá investida tão
grande quanto eles. Fui convocado como líder de um batalhão. Vou para minha última
missão, minha missão mais da morte que da vida. Peço perdão por não ter
obedecido a minha amiga, os meus amigos. Peço perdão por não ter sido bom
suficiente, mas agora posso retribuir. O dragão comerá sua própria cauda. Vamos
embora! Vamos matar um dragão!”




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