Vida mal tirada.
Enchia
o copo na bancada pela quinta vez. Sentia o chão escorregar sob meus pés.
Apoiei minha cabeça na mão e fechei os olhos. A cena não saía da minha cabeça.
Maldita! Aquela não foi a minha primeira morte, e de tantas outras, não sei
porque aquela me abalou tanto.
Eu
estava com a arma apontada para ele. Engatilhei. Sentia o medo entupir suas
veias. As suas mãos trêmulas faziam tremer o chão também. Puxei o ar. Prendi.
Atirei. Foram os dois segundos mais longos da vida dele. Aquele momento em que
a bala atravessa o corpo e jorra o sangue pra fora, e a vida também. Aproximei-me dele, e terminei de expulsar a
vida: mais três tiros.
Os
pingos de chuva molhavam o meu sobretudo. Saí do bar cambaleando. Nem lembro se
dei a gorjeta. O mundo girava, ou será que era eu? Estava pesado de tanta água.
Entrei num beco escuro e fedendo a peixe – sei disso porque o cheiro que me
acordou no outro dia. Caí na lata de lixo. Apaguei.
Acordei no outro dia com náuseas, todo vomitado.
Fui até a calçada; atravessei a
rua; quase fui atropelado. A buzina do carro somente aumentou minha dor de
cabeça. Apoiei no chão, ainda fedia, e estava úmido. Levantei, vomitei no
carro. O motorista saiu pra brigar comigo, veio levantando os braços. Tirei a
arma da cintura e dei três tiros nele. Vomitei de novo. Mais uma morte na minha
vida – e esse é o preço, de uma vida mal tirada.


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