Vida mal tirada.

21:00 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Enchia o copo na bancada pela quinta vez. Sentia o chão escorregar sob meus pés. Apoiei minha cabeça na mão e fechei os olhos. A cena não saía da minha cabeça. Maldita! Aquela não foi a minha primeira morte, e de tantas outras, não sei porque aquela me abalou tanto.

                Eu estava com a arma apontada para ele. Engatilhei. Sentia o medo entupir suas veias. As suas mãos trêmulas faziam tremer o chão também. Puxei o ar. Prendi. Atirei. Foram os dois segundos mais longos da vida dele. Aquele momento em que a bala atravessa o corpo e jorra o sangue pra fora, e a vida também.  Aproximei-me dele, e terminei de expulsar a vida: mais três tiros.

                Os pingos de chuva molhavam o meu sobretudo. Saí do bar cambaleando. Nem lembro se dei a gorjeta. O mundo girava, ou será que era eu? Estava pesado de tanta água. Entrei num beco escuro e fedendo a peixe – sei disso porque o cheiro que me acordou no outro dia. Caí na lata de lixo. Apaguei.
Acordei no outro dia com náuseas, todo vomitado.


Fui até a calçada; atravessei a rua; quase fui atropelado. A buzina do carro somente aumentou minha dor de cabeça. Apoiei no chão, ainda fedia, e estava úmido. Levantei, vomitei no carro. O motorista saiu pra brigar comigo, veio levantando os braços. Tirei a arma da cintura e dei três tiros nele. Vomitei de novo. Mais uma morte na minha vida – e esse é o preço, de uma vida mal tirada.

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