O Norte
Ilustração por: Bárbara Alves
A barba ensopada de sal e água
enrugava o rosto do velho. As dobras escondiam pequenos cristais de areia e
cortes feitos. O estalar da madeira do navio de expedição sempre lhe
agradou os ouvidos e remetia a sonhos infantis. “Engraçado...”, dizia a si em
pensamento enquanto murmurava canções que não sabia cantar, “... sempre sonhei
em navegar, e agora, que sou rei do mar-cor-de-vinho, continuo a me prender em
sonhos antigos. É... Engraçado, ou Triste.”. O cheiro do mar afastava-o da
lembrança de sua mãe – ela odiava-o; e de seu pai não se tinha lembranças.
-Içar
velas!
-Mas as velas já estão içadas, capitão! – Com a voz trêmula, respondia temeroso o pobre marinheiro.
-Mas as velas já estão içadas, capitão! – Com a voz trêmula, respondia temeroso o pobre marinheiro.
Sempre gritava uma ordem a alguém
quando se lembrava da ausência de memórias do pai.
-Não falava com vocês, apenas com o Galeão Dourado.
Poucos entendiam por que o rei do
Mar do Oeste navegava nos menores barcos. Do contrário, para o rei, era uma obviedade não
navegar nos maiores. Eram os primeiros a serem vistos. As velas do Galeão se erguiam majestosamente, tal como
o sol que as acompanhou. O dia estava claro e o Rei lambeu a barba para matar a
fome. A sede vinha e ele jamais entendia por que as águas do mar-cor-de-vinho
não podiam ser bebidas: um dia ficaria tão bêbado a ponto de beber qualquer
coisa, e se o mar coubesse numa garrafa, ficaria seco em menos de um minuto.
Desistiu de beber o mar e pegou o cantil. Nunca se importou com o que tinha,
apenas bebeu – não era o mar, afinal.
Sabia de muitos marinheiros
caídos que se boiassem sobreviveriam, mas acabaram por engolir a água e
sufocados morreram no próprio prazer de bebê-la. Um dia prenderia o mar-cor-de-vinho
numa garrafa, ah se prenderia! Andava cambaleando enquanto assistia seus
homens, todos remando em dança cantando canções que o Capitão conhecia. E cantava junto.
Pararam quando o sol estava a pino,
e deixaram as ondas fazerem o trabalho duro. Foi ordenado aos homens que
parassem de remar, e apenas descansassem ao sol. Do barco menor, sentia-se o
maior dos homens: subjugava até o galeão dourado dali. Se fazia do pequenino a
fim de se parecer imenso ao dominar o gigante; e realmente o podia, se quisesse.
Fechou um olho, pegou a luneta e pôs-se a olhar para trás, para o leste. Nunca
ousara navegar para lá, e nem pensaria em tal coisa: havia outros reis e seus
sentimentos não o enganavam. Tinha sua fé.
Deuses, ajudem-nos a não
precisarmos de vocês, dizia para si em pensamento, enquanto murmurava canções.
Tentara ser cristão, mas os
corvos lhe mostravam Odin; os trovões lhe lembravam de Zeus; os mares Netuno e
Poseidon; e por fim via que tudo vinha de um Único, mas este, para ele, não
fazia parte e não era nascido da natureza, não podia ajudá-lo. No entanto não
acreditava realmente em nenhum deles. Tinha sensações que chamava de fé.
Tornou a murmurar as canções.
Saudades da família que tanto
odiava o mar. Ele amava não sabia por quê. Quase se afogou diversas vezes
quando criança e sempre era engolido pelas ondas. Amava ser engolido e sentir
como a vida voltava a seus pulmões toda vez que desacordava ao nadar. Agora
não, não nadava mais, nem desacordava pelo mar: sempre estava acordado, em
busca de conhecer o seu grande amigo que sempre fizera a questão de lhe trazer
a vida. Não desgostava por ter quase morrido, mas gostava por saber que vivia.
Das diversas vezes que quase morreu, muitas diversas mais a mãe orou por ele.
Ajudado ou não, o Capitão sempre tentou agradecer ao pai dos deuses, já que não
tinha o seu.
O sol escorreu pelas paredes do
céu e desceu sob o chão do mundo. A lua dançava no mar e as estrelas bussolavam
o caminho. Agora iria contra os deuses da natureza: iria para leste. Abandonou
as sensações e buscou atingir o máximo Oriente. Não se importava com o rei do mar
leste, pois sabia de sua sensatez, e, pela sua barba, não agrediria um velho
homem explorador, e, ainda mais, um igual. Deslizou pela água até atingir a
fronteira Leste-Oeste. Se divertia com a marcação: do seu lado o mar era vinho,
e agitado - a espuma quase sempre existia e levava areia e cortes para a pele
do velho rei -; do outro lado, a água era branca como o leite e lisa como um
pano de seda, o Rei do Leste tentava parecer mais velho do que se era, e saber
mais do que sabia. Porém, no meio, lá havia a verdadeira graça para se navegar.
A fronteira era transparente, tão
transparente e nítida que se podia ver o chão há quilômetros de distância.
Todos os peixes, animais e plantas, em um pequeno filete de água que divisava o
lado leste do oeste. Um pequeno filete de mais que alguns metros, que mostrava
a imensidão. Podia quase ver a chama-que-move-o-mundo. Ignorando sua cabeça
gritando para que voltasse aos sentimentos de resguardo, queria agora avançar:
ceder aos novos sentimentos. Descoberta e vitória sobre os que não se
subjugaram perante a ti parecia formidável. Ergueu a cabeça, lambeu mais uma
vez a face para matar a fome de sal e a sede de água-cor-de-vinho.
-Avancem
à fronteira!
E ele, no seu barco menor, e o
Galeão Dourado, invadiram a fronteira leste.
Sim, o Galeão Dourado era o menor
barco, de menos ouro, e menos poder bélico.
Por ser tão prudente quanto ouvia
falar o Rei do Oeste, o Rei do Leste não pensou mais que uma vez – por já ter
pensado tantas e tantas vezes antes -, e deu a ordem de atirar. Tão
despreparados estavam os homens do oeste que, quando os balaços vieram, o tempo
de fazer qualquer prece escoou junto com a água que saía pelos buracos na
carcaça do navio. Sem terem os navios muito danificados, os homens voaram e
caíram ao mar. Afundaram lentamente e agora, o rei, com seu sonho de menino
afundava juntamente de seus companheiros. Deslizava como o sol para a planície
do mundo.
Curiosamente, ao ser atingido,
ele caíra na fronteira de mares e agora podia ver toda a pureza e limpidez
daquelas águas. Em sua mente o pensamento batia na cabeça, como um martelo:
“Morte estúpida. Caí no conto de descobrir o mar livremente, enquanto sabia que
o mar era minha prisão – tal como os meus pulmões o aprisionaram um dia. Mas,
na água clara e doce, eu vejo: o homem livre escolhe a quem servir, e é isso
que sou agora. Homem livre.”. Renunciou aos deuses da natureza. Abriu a boca, e
deixou a água entrar. Em pouco tempo, o rei do oeste não era mais rei, nem
mesmo era homem do oeste.
Afundou.
Afundou.
E muito abaixo,
encontrou a chama que move o
mundo.




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