O Norte

19:43 P.H. Dalboni 0 Comentarios




Ilustração por: Bárbara Alves

A barba ensopada de sal e água enrugava o rosto do velho. As dobras escondiam pequenos cristais de areia e cortes feitos. O estalar da madeira do navio de expedição sempre lhe agradou os ouvidos e remetia a sonhos infantis. “Engraçado...”, dizia a si em pensamento enquanto murmurava canções que não sabia cantar, “... sempre sonhei em navegar, e agora, que sou rei do mar-cor-de-vinho, continuo a me prender em sonhos antigos. É... Engraçado, ou Triste.”. O cheiro do mar afastava-o da lembrança de sua mãe – ela odiava-o; e de seu pai não se tinha lembranças.

                     -Içar velas!
                -Mas as velas já estão içadas, capitão! – Com a voz trêmula, respondia temeroso o pobre marinheiro.

Sempre gritava uma ordem a alguém quando se lembrava da ausência de memórias do pai.

                -Não falava com vocês, apenas com o Galeão Dourado.

Poucos entendiam por que o rei do Mar do Oeste navegava nos menores barcos. Do contrário, para o rei, era uma obviedade não navegar nos maiores. Eram os primeiros a serem vistos. As velas do Galeão se erguiam majestosamente, tal como o sol que as acompanhou. O dia estava claro e o Rei lambeu a barba para matar a fome. A sede vinha e ele jamais entendia por que as águas do mar-cor-de-vinho não podiam ser bebidas: um dia ficaria tão bêbado a ponto de beber qualquer coisa, e se o mar coubesse numa garrafa, ficaria seco em menos de um minuto. Desistiu de beber o mar e pegou o cantil. Nunca se importou com o que tinha, apenas bebeu – não era o mar, afinal.

Sabia de muitos marinheiros caídos que se boiassem sobreviveriam, mas acabaram por engolir a água e sufocados morreram no próprio prazer de bebê-la. Um dia prenderia o mar-cor-de-vinho numa garrafa, ah se prenderia! Andava cambaleando enquanto assistia seus homens, todos remando em dança cantando canções que o Capitão conhecia. E cantava junto.

Pararam quando o sol estava a pino, e deixaram as ondas fazerem o trabalho duro. Foi ordenado aos homens que parassem de remar, e apenas descansassem ao sol. Do barco menor, sentia-se o maior dos homens: subjugava até o galeão dourado dali. Se fazia do pequenino a fim de se parecer imenso ao dominar o gigante; e realmente o podia, se quisesse. Fechou um olho, pegou a luneta e pôs-se a olhar para trás, para o leste. Nunca ousara navegar para lá, e nem pensaria em tal coisa: havia outros reis e seus sentimentos não o enganavam. Tinha sua fé.

Deuses, ajudem-nos a não precisarmos de vocês, dizia para si em pensamento, enquanto murmurava canções.

Tentara ser cristão, mas os corvos lhe mostravam Odin; os trovões lhe lembravam de Zeus; os mares Netuno e Poseidon; e por fim via que tudo vinha de um Único, mas este, para ele, não fazia parte e não era nascido da natureza, não podia ajudá-lo. No entanto não acreditava realmente em nenhum deles. Tinha sensações que chamava de fé.
Tornou a murmurar as canções.

Saudades da família que tanto odiava o mar. Ele amava não sabia por quê. Quase se afogou diversas vezes quando criança e sempre era engolido pelas ondas. Amava ser engolido e sentir como a vida voltava a seus pulmões toda vez que desacordava ao nadar. Agora não, não nadava mais, nem desacordava pelo mar: sempre estava acordado, em busca de conhecer o seu grande amigo que sempre fizera a questão de lhe trazer a vida. Não desgostava por ter quase morrido, mas gostava por saber que vivia. Das diversas vezes que quase morreu, muitas diversas mais a mãe orou por ele. Ajudado ou não, o Capitão sempre tentou agradecer ao pai dos deuses, já que não tinha o seu.

O sol escorreu pelas paredes do céu e desceu sob o chão do mundo. A lua dançava no mar e as estrelas bussolavam o caminho. Agora iria contra os deuses da natureza: iria para leste. Abandonou as sensações e buscou atingir o máximo Oriente. Não se importava com o rei do mar leste, pois sabia de sua sensatez, e, pela sua barba, não agrediria um velho homem explorador, e, ainda mais, um igual. Deslizou pela água até atingir a fronteira Leste-Oeste. Se divertia com a marcação: do seu lado o mar era vinho, e agitado - a espuma quase sempre existia e levava areia e cortes para a pele do velho rei -; do outro lado, a água era branca como o leite e lisa como um pano de seda, o Rei do Leste tentava parecer mais velho do que se era, e saber mais do que sabia. Porém, no meio, lá havia a verdadeira graça para se navegar.

A fronteira era transparente, tão transparente e nítida que se podia ver o chão há quilômetros de distância. Todos os peixes, animais e plantas, em um pequeno filete de água que divisava o lado leste do oeste. Um pequeno filete de mais que alguns metros, que mostrava a imensidão. Podia quase ver a chama-que-move-o-mundo. Ignorando sua cabeça gritando para que voltasse aos sentimentos de resguardo, queria agora avançar: ceder aos novos sentimentos. Descoberta e vitória sobre os que não se subjugaram perante a ti parecia formidável. Ergueu a cabeça, lambeu mais uma vez a face para matar a fome de sal e a sede de água-cor-de-vinho.

                -Avancem à fronteira!

E ele, no seu barco menor, e o Galeão Dourado, invadiram a fronteira leste.
Sim, o Galeão Dourado era o menor barco, de menos ouro, e menos poder bélico.
Por ser tão prudente quanto ouvia falar o Rei do Oeste, o Rei do Leste não pensou mais que uma vez – por já ter pensado tantas e tantas vezes antes -, e deu a ordem de atirar. Tão despreparados estavam os homens do oeste que, quando os balaços vieram, o tempo de fazer qualquer prece escoou junto com a água que saía pelos buracos na carcaça do navio. Sem terem os navios muito danificados, os homens voaram e caíram ao mar. Afundaram lentamente e agora, o rei, com seu sonho de menino afundava juntamente de seus companheiros. Deslizava como o sol para a planície do mundo.

Curiosamente, ao ser atingido, ele caíra na fronteira de mares e agora podia ver toda a pureza e limpidez daquelas águas. Em sua mente o pensamento batia na cabeça, como um martelo: “Morte estúpida. Caí no conto de descobrir o mar livremente, enquanto sabia que o mar era minha prisão – tal como os meus pulmões o aprisionaram um dia. Mas, na água clara e doce, eu vejo: o homem livre escolhe a quem servir, e é isso que sou agora. Homem livre.”. Renunciou aos deuses da natureza. Abriu a boca, e deixou a água entrar. Em pouco tempo, o rei do oeste não era mais rei, nem mesmo era homem do oeste.

Afundou.

Afundou.

E muito abaixo,

encontrou a chama que move o mundo.

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A Chave das Mentes

10:11 P.H. Dalboni 0 Comentarios




Ilustração por: Bárbara Alves

Os jornais gritavam em letras garrafais o que aconteceu no final de semana.  O ocorrido nem foi o que mais surpreendeu, mas sim o fato de ser com o jovem Lírio. Um rapaz alto, de pele alva e cabelo branco, tinha pouco mais de dias que tinha alcançado os dezessete. A barba ruiva no queixo fazia antítese com seu cabelo velho e surrado. Mas era jovem. E para a maioria um bom rapaz, que não faria mal a ninguém. Lembro-me de vê-lo passar pelas bancas de jornais cumprimentando a todos; pelo rapaz da barraquinha de cachorro quente e de doces, mesmo nos dias mais quentes.

Suado seguia, com a barba respingando o pouco que de água que lhe tomava conta. Na faculdade com sua pastinha em mãos, iniciando o primeiro período passava pelos monumentos clássicos, obras e esculturas em gesso e bronze que o faziam tremer. Na volta, passava pela linha do metrô, nas pequenas pontes e passarelas dava boa noite aos mendigos e operários que faziam manutenção. Parava por minutos e observava as pichações e grafites, não eram como as grandes obras, mas se colocassem uma moldura de bronze, talvez ali... O farol do trem sempre o atrapalhava a fazer a crítica final. Pulava de linha para outra e retomava seu caminho a sons estranhos.

Incrivelmente me lembro também de como ele, sempre tentando sorrir, buscava convencer a todos nós: “Cara, é só o bronze. Tudo o bronze faz, ou o gesso. As pinturas renascentistas se pareciam com gesso, e com bronze. Se você não permite que sua mente veja a beleza no cinza do concreto, tua mente é cega para o hoje, parceiro.”, e seguia seu caminho, coluna arqueada, touca no cabelo e blusa de frio preta. Suave, com as mãos no bolso, seguia. E não é, meu amigo, que nem você pode acreditar que ele, nosso grande parceiro, faria algo como as manchetes do jornal anunciariam. Ia para casa de um amigo que terminava o Ensino-Médio, infelizmente repetira o último ano, e de lá partiam para uma estação abandonada. Pegavam um dois três baseados e fumavam. Puxavam, prendiam, passavam, como diziam as músicas e os experientes. Tocavam um violão desafinado que ficava lá e, ou ia para faculdade ou para casa, mas nunca deixava de passar pela linha.

Os grafites pareciam dançar e nem mais molduras de bronze conseguiriam segurar aquela obra. Arquitetura moderna uma ova!, arte moderna uma ova!, isso sim é belo. Os anjos da faculdade podem saltar, as pinturas podem parecer vivas, mas isso aqui é o que realmente acontece.

- E aí, parceiro, que que ‘cê acha? Melhor que Monet, não é? – E ria-se.
- Não conheço nem um, nem outro, “parceiro”... - O operário respondia de bom grado, mas claramente estava incomodado, precisava terminar logo o trabalho e não via a hora de ver a esposa e o chuveiro. -... Mas acho que hoje em dia a arte tá perdida.
- Que isso, irmão, ‘cê tem que abrir tua mente, cara!

Voltava o caminho para casa. A mãe, solteira; o pai sumido; o filho, perdido. Sempre que chegava na casa nova demorava a encontrar os cômodos certos e confundia banheiro com cozinha, cozinha com quarto e quarto com sala.  Observava sua irmã pequenina andando no velocípede com a boca e canela sujas. Com uma mão dava tchauzinho e com a outra fazia a curva quando bateu na parede e tombou. Prontamente correu para ajudá-la e ela afastou-o com os braços, gritava, queria a mãe.

- Mãe, tem uma chave lá na faculdade de bronze, muito linda, lembrei da senhora! Imaginei você todo dia indo para lá e para cá, fazendo compras e atendendo clientes, abrindo sua maletinha de esmaltes com aquela chave. Vou ver se consigo fazer uma dessas para você!
- Ah, que bonito da tua parte! Você é meu moleque mesmo! Mas nada de coisa ilegal, peça pra usar um molde ou coisa assim e fale com teu professor antes, hum! – Deu uma olhadela e piscou os olhos, enquanto abraçava e acudia a mãe.

No outro dia a mesma rotina. Casa do amigo. Casa abandonada. Drogas leves. Mas dessa vez mostrou uma chave que pegara do catálogo de peças da faculdade. Era dourada e a viagem do dia foi entorno da chave. Que portas e que baús poderiam abrir? Que males poderia evitar, que tesouros ela poderia guardar? Pois é, meu amigo, nosso querido Lírio roubou uma peça de antiguidade. O amigo reclamava que esqueceu uma palheta para tocar o violão quebrado. O som metálico com a madeira quebrada dava uma nova luz ao sol poente.

- É disso que falo quando digo para abrirem as mentes, parceiro! – Ria, e só ria. – Céus, se não tivéssemos a chave, não teríamos aberto essa nova porta pro mundo musical...

E ia para a aula, mochila nas costas e chave no bolso. Talvez devolveria, talvez gravaria uma música no celular usando-a de palheta e depois devolveria. Depois devolveria. Foi para casa fechando a chave em mão branca até que ficasse vermelha de força. Viu a irmã colidir e cair, apaziguou a situação e pediu para que ela deixasse sentir a mente abrir e o coração acolher o irmão. Era deveras fechada e tinha que ter uma visão paterna de mundo também. Negado e aos choros ela saiu de perto.

- Daqui a pouco, moleque, a sua mente vai cair pra fora se continuar assim. Vá estudar, ande, e deixe que da tua irmã cuido eu!

E quem dirá, amigo, que Lírio não sentiu raiva da mãe? Aquele que dava bom dia para o moço da carrocinha e boa noite para os mendigos agora sentia raiva. Mas não o suficiente para ir para os jornais, acredito eu, a não ser que você more em cidade pequena demais para conhecer o suficiente da família ao lado tanto quanto sabe da tua. Porém, amigo, ainda não, a pressa nos chama mas Lírio descarrilhava aos poucos, como um trem. Falando em trem...

- A luz do farol do trem, não te faz ver a pintura com novos olhos, parceiro? – Deu um soco amigável no ombro do operário.
- Pode até ser. – Estava mais carrancudo que o normal, o operário -  Mas acho que está vendo as coisas do jeito errado. Aliás, tudo está errado hoje em dia, por exemplo, ontem meu chuveiro estragou e estou fedido como um porco.
- É, mas se você pensar em bacon, verá que até um porco pode ser bom. É só ter a mente aberta, irmão.
- Que tal você sair antes que eu ou o próximo trem abramos a sua cabeça aqui no trilho?

Saiu, apressado, mãos no bolso e chave apertada. No outro dia, fez questão de passar ali, de mangas arregaçadas e punho cerrado. Arqueou o peitoral para exigir respeito por sempre ter sido boa pessoa e nunca nada de mal ter feito com o homem. Ah, como essas lembranças me doem, amigo. O homem, antes mesmo de perceber a ferocidade do rapaz, veio pedindo desculpas e o olhar de cão raivoso logo se transformou num olhar amigável. Desculpou-o e disse que se quisesse poderia arranjar água ou até ajudá-lo a trocar o chuveiro de casa. Deu mais uma olhadela nos grafites e agora via mais pichações que poluíam a sua obra de apreciação. O farol do trem veio e o rapaz se foi.

Na casa abandonada, o telhado caía aos poucos, o mofo tomava conta das paredes e o amigo de Lírio, o Luiz, veio com um pacote diferente. O produto era mais escuro que o normal, quase preto. Fizeram uso desordenado aquilo e começaram a tocar o violão. Amigos, se me apresso é porque a vida não tem hora marcada para chegar o fim e os jornais mal esperam a vida finda chegar para que as palavras preencham a página final. O sol deitava torto e Lírio não iria mais a aula, a poça de água refletia a luz entorpecida que vinda à noite, tomava conta da mente dos meninos. O violão era gravado pelo celular antigo, mas que com certeza traria bons frutos aos meninos. – Não tá sendo bom o suficiente, parceiro! Luiz, nossa mente tá muito fechada, a música ainda é música, mesmo assim. A gente tem que superar a própria música, cara!

Na poça o reflexo dos amigos e do primeiro brilho da lua junto ao sol dava a tristeza no peito do menino. Ele precisava abrir a mente. Pegou agressivamente, mostrando os dentes e jogou-o na parede. Mandou Luiz ir embora, pegou a chave da sua mão e bateu diversas vezes até perfurar o crânio. Quando encontraram o corpo, os policiais disseram aos jornalistas que tinha um cachimbo, drogas e o menino tinha uma chave encaixada à testa. As ideias vermelhas fluíam vermelhas como mar, no chão, dizia o jornaleiro, por meio da fala dum poeta local. Tingiram até o meu tosco cabelo.

A lembrança ainda me dói.

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