Amaço!

19:52 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Por quase todas as manhãs ela me acordava. Uma sirene que se assemelhava com o toque de evacuar de uma usina nuclear; se bobear, acordava a vizinhança toda. Tão bela, contrasteando à luz do sol, vista da minha janela. Parece poesia: mas é só ela. Melancólica, cedinho despertava. Parecia cansada, muito, muito cansada, mas talvez o cansaço fosse meu.

Levantei-me. Escovei os dentes, fiz minhas necessidades e lavei o rosto. Fui para a cozinha e, no meio do corredor, pus-me a observar a dama se preparando para mais um longo dia. Percebi que me atrasaria; fui tomar meu café, voltei, tomei banho e saí. Saí, sim, entretanto não sem antes dar uma última olhada àquela bela donzela.

Como podia ser tão graciosa? E como eu demorara tanto para percebê-la? Minha vizinha há tantos anos e eu me sinto cada vez mais culpado por não perceber sua beleza, por não dar a atenção que merecia. Se ela me retribuiria a atenção? Não faço ideia, mas talvez pudesse. Quem sou eu para saber o que não foi? Bem, do mais agora ela ainda não sabe da minha admiração, e, o que eu farei para ela saber, também não sei.

Só sei que ela é tudo. Por onde ando na cidade a vejo. Cada suspiro dado por mim: é por culpa dela. Lembro-me de como ela trabalha perto de mim, como ela mora perto de mim, como ela não corresponde o olhar quando eu olho - ou, se corresponde eu não sei. Seu fogo nunca se apaga; seus olhos: flamejantes me encaram quando estou de costas; sua boca, me morde enquanto aumenta a temperatura; sua respiração pesa-me o peito com seu ar.

No fim do dia, ao dar boa noite para ela, enquanto seus olhos brilhantes encaram-me, eu só posso olhar-te pela janela e desejar: boa noite, bom trabalho e até mais, maldita usina!

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