Um sorriso e um nada.

20:24 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Aquele momento em que o nada tomou conta de minha mente não vale a pena ser narrado. E por que o momento pós nada deve ser narrado? O maldito nada que convém a todos nós quando perdemos aquilo que achamos ser tudo, mas mesmo assim ficamos com a nossa vida. Maldita vida coletiva! Pessoas sambando nas calçadas de todos os dias, espalhando vossas alegrias cinzentas – para mim. O sol daltônico iluminava a minha vista embaçada e dava o som aos meus ouvidos abafados. Não sentia nada, além do pavor. Maldito pavor que me impede do nada; era melhor ter acabado naquele momento.
                Hoje eu ando nas ruas enquanto o estalado dos sapatos lembra-me do estalado do nada. Os sorrisos me lembram do rosto da morte. Eu, irado como só se pode ficar quando não lhe resta nada – além da ira – agredi o jovem com cabelos que tapavam seu olho. Um soco na cara jogou o seu sorriso para longe, mas não para perto o suficiente da minha amiga. Claro, claro, esqueci de falar: desde o dia do nada, eu ando acompanhado por uma amiga inseparável, isso, sim, ela mesma também é minha amiga.
                Sinto-me egoísta por tê-la tão perto, acho que todos nós temos o direito de tê-la como amiga, mas quando se tem nada, respeito que uma boa companhia seja de grande importância. Não, não se engane com minhas palavras de fonemas felizes, sou um pobre homem vivendo num mundo tão daltônico quanto meu sol e tão triste quanto o rosto do menino que acabara de apanhar. Eu caminho mais um pouco e começa a tocar aquela música dos Engenheiros do Hawaii, naquela maldita parte: “se tudo passa, talvez você passe por aqui.”, eu olho para a minha amiga, ela devolve o olhar com seu rosto inóculo. Sua sombra me dissera muito bem o que fazer.
                Entrei na loja e peguei o amplificador, segurei-o com a minha força toda e arremessei-o pela vitrine de vidro. Voou e arranhou a cabeça de uns, mas acertou diretamente o menino fã da banda que estava ali parado. Pobre garoto, minha amiga deslizou até ele, inclinou-se, e sorriu. Apesar de eu não ter visto o rosto de ambos, sei que ele sorriu de volta, um sorriso inexistente no meio do nada. Minha amiga virou-se e eu comecei a correr; ela me encontraria logo depois. Corri, e, logo na esquina, vi outro homem sorrindo, andando passivamente com um sapato com leve salto, lembrando-me dos estalos do dia do nada, fiquei nervoso e o empurrei no meio da rua – um caminhão passou e o atropelou. Sorte minha que a amiga não vira.
                Continuei a correr, para que ninguém me visse; agora todos estavam assustados, não via mais ninguém rindo, ou fazendo estalos. Eu agora andava tranquilamente, com meus pés arranhando o chão enquanto o céu arranhava a minha cabeça e a luz cegava a minha mente cheia de nada. Eu não pensava, e continuo sem pensar muito bem, o que acontece com a gente quando um nada nos atinge: é uma sensação muito estranha, um medo, um vazio, tremedeira – mas de que? Não há tremedeira sem matéria, por mais impalpável que ela seja. Eu era palpável, e trêmulo, e nada.
                Atravessei um cruzamento e não deixei que duas crianças fossem levadas pela minha amiga. Com elas nos braços, e gritando, as pessoas me olharam com olhar inquisidor, eu as olhei com a falta de olhar. Soltei as crianças e acelerei o passo, meus pés não fazem barulho, dou graças por isso, e corro enquanto dou graças. Corro mais rápido que a minha amiga, exatamente para que não me alcance. Subo na ponte, e a atravesso, competindo com os carros e sempre perdendo, afinal, quem é nada nunca ganha. Passo por mais duas quadras de prédios e lá chego no pico da cidade: o prédio mais alto de todos. No caminho, eu encontro com dois olhos, dois belos olhos, tão castanhos quanto à terra, e tão claros como o sol cinzento, mais feliz que um maldito sorriso, por isso não ousei atacar-lhe, era um olhar castanho escuro e vivo, me lembrou ela, a moça do dia do nada: não a minha amiga, mas sim o meu amor.
                Sabia o que devia fazer no pico da cidade. Fui desviando entre os carros para avisar a minha amiga aonde eu ia. As buzinas ressoavam avisando minha posição. Minhas pernas doíam, contraíam, merda, eu ainda era matéria, não era nada totalmente. Subi as escadas; tropecei três ou quatro vezes, eu podia sentir o sorriso da minha amiga, pela primeira vez ela sorriria pra mim. Eu continuei a subir, praticamente de quatro para não perder a chance de receber um sorriso verdadeiro. Cheguei ao último andar, arrombei a porta de segurança e subi para a cobertura. Sem parar para respirar uma só vez acelerei mais, e chegando na borda eu parei. Quase caí – não podia cair ainda. Minha amiga chegou, vinda do chão e deslizou pela parede do prédio até chegar lá em cima. Olhou no fundo dos meus olhos e não riu para mim – como ela podia não rir para mim? Vadia!

Olhei no fundo do seu manto negro, cheio de nada, assim como eu, e, depois de me matar tantas vezes em um dia só, dei um sorriso para ela.

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