Que se viva para os outros
- Sobre as montanhas, meu filho...
– Dizia o velho de cabelo branco e rosto tão enrugado quanto o chão que havia de
comê-lo –... há os gigantescos homens de Minus.
- E o que fazem os homens de Minus, pai?
- Eles morrem, meu filho. – Disse, deixando escorregar sobre o rosto enrugado, uma lágrima. – Eles morrem para nos proteger.
- E o que fazem os homens de Minus, pai?
- Eles morrem, meu filho. – Disse, deixando escorregar sobre o rosto enrugado, uma lágrima. – Eles morrem para nos proteger.
O filho desejava ser como o pai.
Um grande guerreiro, feitor de várias ações, protetor do povo, salvador da família
e de toda a vila. Olhava para o chão. Na grama quente os pés descalços
contrastavam com a bota de couro e aço do pai. No fundo, ele sabia que os pés
de ambos estavam sujos. Foram até o leste, encontrar o riacho, beber água e
lavarem-se.
Voltaram para a vila. O cheiro de
comida se aprontando encheu os pulmões e dos pulmões foram para o estômago.
Ficaram quase cheios com a inspiração. Terminariam com a comida. O garoto
olhava, agora, para o sul. Observava a cachoeira sangrenta: um pequeno filete
de água vermelha que escorria entre as águas cristalinas que caíam do rio. Os
tios do garoto diziam que os Minúsculos de Mayór subjugavam todos que tentavam
passar e, no rio, faziam escorrer o sangue dos perdedores como quem tira
sujeira da roupa.
A noite caía, e em volta da
fogueira, todos tiravam sopa da panela fumegante, contavam histórias de terror
e observavam o filete de sangue tomar conta do resto das cachoeiras. Era mau
presságio: logo viriam os Minúsculos. Não era o suficiente para atrapalhar a
sopa deles. – Por que os Gigantes não vêm até aqui e nos salvam dos Minúsculos?
– Indagava o garoto. – Filho – respondeu o pai - Eles estão sempre ao nosso
lado. Sempre ao nosso lado, nós é que nos afastamos temerosos. Mas peça, e eles
ajudarão.
O garoto queimou a língua.
O pai bebeu um gole de cerveja.
Todos foram para suas barracas e
dormiram – menos o menino. Observava a lua, o cruzeiro do sul, e a noite azul
tão escura quanto o mar, tudo pela sua janela. Fechou os olhos e sentiu o ar
fresco entrar em seu corpo. Uma brisa suave balançou as folhas fincadas em
galhos falhos e ralos. As árvores mordiscavam a grama durante a noite e acordavam
mais vivas, tais como os habitantes dali. Recuperavam tudo que havia de vida,
antes de perderem a consciência. Dormiram.
Com olhos ébrios e embaçados, o
garoto não conseguia compreender por que haviam acendido a fogueira novamente.
Novamente, e tão perto de casa. Ouvia a voz de seu pai gritando. Um eco
distante, chamuscado. Forçou os olhos tontos, e chorou. Chorou por que viu sua
mãe morta em seu lado, e seu pai a lutar contra os estúpidos minúsculos e
chifrudos homenzinhos.
- Por que eles estão fazendo
isso, pai?! Eles não atacam somente acima da cachoeira?!
- Eles são a cachoeira que cai para destruir, filho! Corra daqui, pelo amor que tem ao seu pai. Corra para as montanhas! Viva com os Gigantes! Viva por nós!
- Eles são a cachoeira que cai para destruir, filho! Corra daqui, pelo amor que tem ao seu pai. Corra para as montanhas! Viva com os Gigantes! Viva por nós!
O pai levantava o enorme machado,
que parecia tão pequeno perto dele, e dava uma onda rasante jogando para longe
os pequenos subjugadores. O garoto mal teve tempo para pensar e com os olhos
cachoeirando, correu. Se pudesse choraria um filete de sangue. Mas correu para
longe, sem pensar por que ou como chorava. Correu e ao amanhecer ele estava na
metade do campo. Olhou para trás e viu a sua vila exalando a triste fumaça e
com a cor alaranjada da derrota. Olhou para o chão e viu seus pés sujos no
mesmo lugar do dia anterior. Entretanto, eram apenas os seus pés. Percebeu a
ausência de seu pai, e como ele estava grandioso: um gigante lutando para
defender os outros daqueles que se julgavam superiores.
Abaixou a cabeça e voltou a
andar: pediria ajuda aos Gigantes, e de lá, voltaria para derrotar a todos
aqueles que fizeram mal a qualquer um. Eles falharam com a palavra, urrava
consigo mesmo. Correu, correu, correu. O vento cortava-lhe as entranhas, as
lágrimas cicatrizavam.
Após dias de caminhada e
corridas, uma chuva caiu e deu-lhe um pouco de força. Dias passados ele chegou
ao topo da montanha, completamente sujo e machucado, com a única força que seu
pai e os Gigantes lhe deram. Nunca, em toda sua fuga, se perguntara por que os
tais protetores não vieram até ele para protegê-los, ele desejava mais
encontrá-los que tudo primeiro.
Chegou ao topo da montanha.
Suavemente serenava em seu
entorno. Via, em sua frente, o sol abrindo o caminho de ouro entre as nuvens. O
garoto se alegrou. Olhou para baixo e lá percebia uma enorme encruzilhada; a
maior que vira em toda a sua vida. Em volta, percebeu em cima de bases
circulares grandes homens do triplo de seu tamanho, apoiados em suas imensas
espadas na frente de seu corpo. Tinham a cabeça baixa, e pareciam soltar
pequenas orações. Por um instante lembrou-se de como seu pai estava grande
naquela noite: ele fora um deles. À direita de todos tinha uma base vazia. Ele
pegou a espada tombada e com muita força a levantou, mal conseguia
equilibrar-se com ela ali.
E ele resistiu.
E resistiu.
Apreciou o céu dourado daqueles
que eram Minus, os Gigantes menores, e a encruzilhada agora cheia de vida. Percebeu
que não falharam na proteção; o povo falhou ao se afastar dali. Abaixou a
cabeça, uma última vez e sussurrou:
- Que eu viva para os outros.



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