Notas no solo

21:22 P.H. Dalboni 0 Comentarios




O dia mal raiava e, como em todas as manhãs do ano, chovia. Não uma torrente de agulhas, mas pingos suaves, quase como bolhas de sabão. Tocavam o chão como a um piano. O ar fresco acompanhava o som e a respiração por baixo de três cobertores dos quatro moradores daquela casa afastada dançava com a brisa. Os braços se estendiam, os olhos se abriam e todos acordavam. O café estava na mesa.


O menino mais novo logo que acordava não se levantava, esperava até que todos tivessem acordado para dar seu primeiro movimento, como um predador, à espreita. O mais velho levantava e ajudava a mãe na horta atrás da casa, regando e colhendo. O avô era tão parecido com o garoto mais novo que também esperava todos acordarem para se levantar. Um jogo interessante.


O desjejum feito e a chuva caía. O avô chamava ao menino mais novo todas as manhãs para ler na varanda e observar os campos espetados pelas agulhas celestes.  Também distinguiam os sons e tentavam definir as notas que faziam no solo. A mãe preparava o almoço e o menino mais velho descansava na cadeira de balanço. Todos os dias, o mesmo dia.


No outro dia, a chuva caía, a família levantava, o livro era lido, o campo olhado, o almoço feito, o descanso recebia repouso. No outro, também. E no outro talvez nem valesse a pena dizer, mas a figura engraçada chegou andando pela estrada quase apagada pelo tempo e pela água. Um homem. Um homem grande, muito grande, e gordo. Tinha dois metros de altura e os rapazes brincaram que ele tinha o mesmo tamanho para os lados. Olhe mãe!, olhe mãe! – gritavam. As agulhas trincavam com os gritos e as notas do solo saíam desafinadas.


O homem gordo passava por sobre as poças sem jorrar água para fora, andava sob a água sem molhar parte alguma do corpo, da cartola ou terno. Gravidade, por favor, conheça a leveza. Tão sutilmente e tão rápido ele se aproximou que os garotos só podiam ouvir tais sussurros em suas mentes. Perguntaram o que o homem queria, e ele respondeu: quero tudo aquilo que as palavras me dão. – ele respondeu. Revidaram, alegando que isso não tinham não, mas que podiam tentar ajudar com uma toalha ou um lampião pra se aquecer. Ele negou, disse que precisava das palavras, não precisavam ser escritas, ou em uma língua única propriamente, tudo que ele queria era o verbo.


Os olhos do velho estavam tão arredondados quanto a circunferência do homem que a pouco chegara, o susto era grande demais para se conter. Moço, precisamos de mais tempo pra pensar em como te ajudar. Não quer entrar e ver se algo de nós lhe serve? Essa chuva machuca por demais. – Disse tomando todo o cuidado para não ofendê-lo nem acalentá-lo demais. O homem negou com a face. Posso ajudá-los, dizia sob o seu imenso bigode. Vocês estão perdidos aqui?, finalizou. A suspeita era tamanha para todos os quatro da casa que não conseguiam responder. Perdido aqui só o senhor, com todo o respeito, meu senhor. Essa é nossa casa, não vê? Afirmou a mãe desejando que o homem logo se fosse.


O homem riu entre pequenos pulos e andou alguns passos para perto deles. Ora, não estou perdido, só quero a Palavra, minha senhora. Não seriam as palavras, senhor? O mais novo indagava agora, sentia-se assustado e queria acabar logo com isso. O homem gordo sorriu de novo e deu outro passo para trás. Ficaram se observando por alguns segundos que pareciam eternos; os pingos de chuva refletiam a luz de um sol esquecido e fincavam a melodia no solo. O avô, então, de súbito, levantou-se da cadeira, foi para dentro da casa, seguiu para a esquerda, virou no último quarto e observou a estante. Ora bolas, se eu soubesse que era isso o que ele queria... o que custa falar desde o início? Poupa trabalho e não incomoda o nosso dia. Repetia para si mesmo. Pegou um livro grosso, mas pequeno, e saiu da casa, entregou ao homem e gritou para com uma risada estridente: Dicionário! É o que ele queria! Palavras, o que elas significam, em qualquer lugar, língua. Palavras, dicionário!


O menino mais novo olhava admirado para o avô, desejava ser como ele algum dia; o mais velho, admirava o sorriso do recém-chegado ao ver o dicionário; a mãe via a luz saltando de pingo para pingo, alegre. O homem então, por baixo de seu bigode deu mais uma risada e começou a retirar as palavras do dicionário, uma a uma. Não precisava falar, mas a gratidão estava estampada em sua face. Se começou do A ou do Z não importava: ele colocava sua mão na página, tirava uma, erguia, e comia. Uma a uma. Num ritmo lento, mas que ao mesmo tempo não se percebia acontecer.  Comeu, comeu, comeu. Gravidade, sinta a leveza.


No fim de tudo, tendo novamente a gratidão em face, percebeu uma última palavra e deixou-a para a família. Chuva, era o que estava escrito. Chuva. O homem virou de costas e saiu andando, tão leve quanto antes, tão seco e limpo, e maravilhado como antes. A família leu em voz alta o significado da única palavra no meio das páginas em branco. Chuva. E, por cima do telhado, das árvores, da grama, do solo, os pingos não caíram e as nuvens dissipavam. O sol vinha lentamente, trazendo o ouro para a grama, a casa, os moradores.


O som da música parou.
Os pássaros começaram a cantar.

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Os olhos se fecham lunares

10:35 P.H. Dalboni 0 Comentarios




A Lua estava a pico, e a noite mal tinha iniciado. A cada passo que dava, criava-se uma névoa de poeira amargurada que tornavam os olhos de João irritadiços. A sombra feita pela tocha dançava no chão como se desejasse de lá sair. Estava bem vestido: o terno, o sapato de couro, um pequeno chapéu coco, uma bengala com uma cabeça de boi no apoio na mão esquerda, e a tocha na mão direita. Disse para a esposa que ia à Venda do Seu Nilton, beber um pouco para afogar os maus resultados das colheitas, dos bois mortos, e da praga que era sua vida.

Tinha uma auto abominação tamanha que, se ali pudesse, mataria a própria sombra pela felicidade que expunha perante si. Não, não precisava de tanta ira, até então nunca tinha errado com a família, ou com seus deveres, mas não conseguia se conter; precisava botar tudo pra fora. Tentou desviar o olhar, mas o único lugar que não se incomodaria era para os céus, mas a lua, também prepotente, dominava os céus em pleno início de noite. Por não ver os passos que dava, o chão foi seu destino. Felizmente não havia barro: era pura poeira. Ergueu-se, bateu a mão na roupa e estava quase limpo de novo, mas estava tão escuro... Talvez não tão escuro: fitou, novamente, a noite: agora o grande manto negro escorria rubro, como lágrimas de sangue.

Não, pelo contrário – observava -, as estrelas não estão chorando, tampouco é uma cadência: o céu se banhava em sangue. O luar resistia, leitosa, dominava o manto.

O caminho, pela primeira vez, parecia mais distante do que nunca. Começava a cair uma chuva tão fina e transparente que pareciam agulhas fincando-o no chão. Mas ele não podia parar: pelo menos a Venda do Seu Nilton tinha cobertura e aguardente para aquecer do frio rural. Gostava menos do frio da cidade: e alguns homens insistiam que ali deveria ter uma indústria. Bem, da última vez, tão recente, que vieram com uma ideia industrial, seu gado, suas plantações, e seu eu haviam se prejudicado de maneira irreparável, e continuava se repetindo isso para que se tornasse verdade.

Quando as agulhas ameaçaram aumentar de tamanho, foi então, que meio entre ao barulho das folhas atingidas por essas flechas d’água, que ele ouviu o som de cascos destruindo toda a água que já havia caído. Eles vinham mais rápidos que quaisquer cavalos que já pudera ter visto. Virou-se para trás e na mesma hora foi empurrado para o lado. Atingiu uma poça imediatamente, mas não se machucou, por sorte. Sua tocha se apagou. O homem que guiava o cavalo desceu. Ouvia apenas os passos. Virou-se e, abaixo do céu enrubescido o homem ergueu pegou-o pelo colarinho e o levantou.

                - Sou Lúcio Natas. Quem és tu que vagas na noite de sangue?
                - Podias aprender a cavalgar e a pedir desculpas por quase me matar.
                - Falta-lhe cordialidade e inteligência. João, venha comigo. – Entregou a tocha nas mãos de João, estalou os dedos e ela se acendeu.

Não conseguia acreditar na complexidade do que via: um homem com sobrancelhas e cabelo grossos e laranja como uma brasa ardente. Tudo isso abaixo da imensa cartola que o faziam caricato, mas poderiam tocar o firmamento caso se elevasse mais. Os olhos eram castanhos, mas a tocha fê-lo achar que eram vermelhos como a noite. Tocou a própria face, coçou os olhos, fez as mãos de concha, pegou água da chuva e lavou o rosto. Sentiu-se espetar por uns momentos. O homem parecia sorrir uma ironia de mais de mil anos.

                - Se sabes quem sou, me conheces, e não parou o cavalo de propósito. – Dizia João, tentando não se abalar mais pelo homem. – Por que não me dizes quem és?
                - Já disse. Tu que não escutaste. Anda, vem! Vou lhe pagar a bebida de hoje para que esqueças o ocorrido.

João tinha os olhos esbugalhados e voltara a olhar para o chão, desviando-se do tenebroso Lúcio. A sua sombra não mais dançava. Incrivelmente não havia mais sombra no chão. Levantou o rosto e tornou a encarar o curioso ser à sua frente. A chuva não o tocava. Parecia que tinha medo e se esquivava ou sumia antes mesmo de chegar próximo a sua cartola. Abaixou a cabeça e pôs-se a pensar, novamente.

              - João. Por favor. Deixe-me o levar em minha carruagem.
Ele não havia percebido nenhuma carroça no momento. Era apenas um cavalo negro e... Não, não podia ser como nos contos de fada, e não o era: era uma luxuosa carruagem negra com adornos em ouro e prata. Frisos brancos. A madeira polida. Também não se molhava.
             - Do que tens medo? De uma ótima noite de prazer e felicidade para esquecer a sua desgraça? – Voltava a mostrar sua ironia de dois mil anos.

João sorriu de volta. O céu ficava cada vez mais rubro, as árvores mais negras, e os animais tentavam se esconder. No céu ele via, atrás da carruagem, do cavalo, do caminho, corvos, abutres, urubus, ratos, sapos e tantos mais animais agourentos rondando-lhe. Pediu, antes de tudo, uma lamparina para se aquecer, e óleo para manter o fogo por um tempo. Não queria sujar ou molhar a carruagem. Lúcio insistiu que podia ir assim, não havia problema nenhum. Ele quem o havia atropelado. Retribuiu um sorriso, sem ironia. A Venda não estava longe. Não tinha problema, mas sentia que voltaria para casa. Natas disse que poderia levar ele para os dois lugares, mas só depois de passar na Venda. Para não mais delongar, entregou o lampião e o óleo, e fez sinal para que entrasse na carruagem.

João sorriu, ergueu a bengala e jogou-a suavemente para cima. Pegou no meio do cabo e bateu-a em Lúcio. Em seguida jogou o óleo e ateou o fogo. Para sua desgraça o óleo nem o fogo atingiram-no: o que o protegia da chuva fez o óleo ricochetear e tudo se voltou para o pobre rapaz que há tão pouco tempo se tanto abominava. Gritou: - Lúcio, contigo não ireis! Não irias nunca, ser que vem de baixo das terras e do fogo! – em seguida foi derrubado, e a própria tocha começou a queimá-lo. Mas não sentia dor, ou morte. Do contrário, viu a lua escorrer como seu arrependimento pelos rubros céus, tornando tudo branco; mais branco que a mancha de leite no céu; mais branco que as estrelas juntas; mais branco que o sol. Tudo se tornou branco.

                O seu fogo se pegou no céu.

                Não mais viu o homem em seu caminho.

    Os olhos se fecharam lunares.

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A Rosa

20:51 P.H. Dalboni 0 Comentarios







                De joelhos ele observava a rosa negra desabrochando. O caule opaco, as folhas que pareciam carbonizadas, e a força exterminadora de mundos que só uma flor é passível de fazer ao desabrochar. Aquela dor de nascer. Por sorte estava no deserto, e no fundo de si, o rapaz com barbas tão recém-nascidas quanto à flor, pensava ouvir o grito, o choro, o tapa que as parteiras dão em crianças para que chorem. Ele nunca chorou como a flor, ou como os bebês. Apoiou-se no chão árido e se respirou o pó subia com o vento.


                Olhou para os horizontes e a linha se mantinha contínua. Mas a rosa, a rosa que desabrochava, a rosa um pouco recostada na brisa suave lhe indicaria a direção, com certeza indicaria, pensava. Andou, embaixo do sol frio, do céu cinzento e da pouca luz esperançosa que guia os homens desesperados. Sempre na direção apontada pela flor de pétalas da noite. Abria os braços, se aquecia, e continuava a andar. Quanto mais andava, mais perto da linha do horizonte chegava, e quanto mais próximo da linha, mais se afastava. Quando a escuridão vinha e, sem lamparina caminhava, ele viu um grande salão, de teto triangular e paredes amarelas.


                Percebia o som pairando no ar ainda seco. Pandeiros, violões, baixolês, batuquins e outros estranhíssimos instrumentos eram tocados pelos homens. De longe, a fraca luz de velas dava conta da felicidade de todos. As moças traziam grandes copos com cerveja achocolatada, pães com mortadela e queijos de vacas desmamadas aos dez anos; por que os queijos recebiam esse nome não sabia, nunca se lembrou de uma vaca desmamada aos dez anos. Curioso, se aprochegou, sentou numa mesa e chamou a garçonete. Todos os que estavam em volta olharam, também curiosos, enquanto a música desafinava e abaixava lentamente. Observaram-no com atenção, olharam dos pés às mãos, e notaram até as cinzas na ponta dos dedos que foram deixadas lá, impercebidas por ele.


                Olhou ao redor, buscando uma salvação inútil. Quando viu um homem pequeno, esfarrapado, corcunda, com um sobretudo sujo e rasgado se perguntou o que era mais velho: se o velho, ou as roupas do velho. As bocas presas na lógica diriam que o velho era mais velho, já que as suas roupas vieram depois; os mais familiares diriam que as roupas foram uma herança; o rapaz, ah!, já o rapaz, diria que os dois nasceram juntos, ou que, se não, não importava. Disparou o nervosismo em suas pernas enquanto via o senhor-de-negro chegando, parecendo contar os passos. Observava, curioso, e agora nem mais se lembrava dos homens ao redor. A luz de velas fazia sombra embaixo do tão velho, também, chapéu e não conseguia identificar para onde olhava ou o que sussurrava. Só o via se aproximando. Se aproximando. Aproximando. O som voltando. E ele largou o corpo. Sentou-se à mesa do rapaz que não sabia o que falar pois agora percebia os olhos brancos do velho.


                - Boa noite. – Disse o senhor, tirando o chapéu e deixando à mostra agora as suas rugas, o sorriso amarelo e o cabelo branco, ralo, e falhado. – Desculpe ocupar tua mesa, mas é a mesa a que me sento todos os dias.
                - Ora, pois, não se incomode. Sou um mero visitante neste... – No fundo do seu ser não conseguia encontrar palavras para descrever o lugar no meio do nada em que estava.
                - Neste nada, é o que dizem. – Completou o senhor-de-negro. – O que fazes por aqui, jovem rapaz?
                - Procuro por meu pai. Sou advogado, vou processá-lo por abandono. E tu, o que fazes por aqui?
               - Sou o coveiro da cidade. As pessoas aqui gostam e desgostam de mim, a minha sorte é que, apesar da cegueira, eu posso enxerga-las.
                - E como cavas as covas? – Fingindo entender o que foi dito pelo velho, mas aprendeu a respeitar os mais velhos e sábios e assim o faria.
                - Com as pás em mãos. Como pretendes encontrar o teu pai?
                - Estou procurando as minhas pás, se é que me entende.

                Riram, saudosamente, e tomaram várias cervejas. Ali, o tempo passava lento e escorregadio, e os homens bebiam dos copos suados e gelados, e suavam, e cantavam, e gritavam, enquanto o dia não vinha. Em menos dos três longos dias em formatos de horas, o rapaz vira alguns homens que já tinha visto, mas um chamou-lhe mais a atenção que todos os outros: vestido de blusa vermelha, colete marrom e um chapéu que pareciam formar asas apontadas para o céu, tentava não acreditar, podia ser, mas podia não ser. Levantou-se abruptamente, e deixando o velho que já quase caía de tanto beber, foi ter com o homem não tão misterioso.


                - Olá, poderia saber o nome teu?
                - Só se tu disseres o teu primeiro.
                - Ora, mas se a pergunta primeira foi solta por mim...
                - As perguntas são animais, solte-as e elas te devoram. Mantenha-as nas coleiras, como eu, que tudo sairá bem. Ou melhor, não sairá.
                - Mas, pois, o que fazes aqui?
                - Apenas me felicito com amigos, e tu?
                - Advogo.
                - Contra quem? A favor de quem?
                - Não sei ainda. A favor de mim. Poderia me ajudar?
                - Talvez.
                - Vou fingir que sim.
                - ...
                - Qual teu nome?
                - ...

                Depois de quase cinco minutos em silêncio em que seus olhos se encontraram, se prenderam a ponto de desafiar as leis da resistência do ar o homem disse o nome. O rapaz sentiu como a rosa negra, desabrochando, cheia de dor, de vida, esperança, mas sem chorar. Os seus olhos abriram tanto que se pudessem roubariam toda a luz que protegia aquele lugar. Decidiu falar por mais tempo com o homem e conhecê-lo. Acumularia a raiva do homem que nem lembrava de seu filho, mas se enganou, as velas refletiam nos olhos do homem e o brilho fazia perceber o amor que sentia por todos. Deu meia volta e sentou na cadeira que estava há momentos. Voltou a falar com o velho:


                - Em que cidade trabalhas?
                - Naquela mais próxima.
                - E a quanto tempo de viagem fica?
                - Alguns dias, semanas, não sei. Mas cansa-me caminhar tudo isso em minha mente agora.
                - Ora... Vou-me para meu refúgio, então. Amanhã voltarei.


                Levantou-se, então, e seguiu para a rosa enegrecida. Seu esconderijo, sua caverna, sua proteção. Caminhou rapidamente na direção e logo chegou. Não se mapeava o céu, pois o céu não tinha estrelas nem nuvens; em verdade, não pensava em se mapear o céu. Abaixou a cabeça e tentou compreender. Conhecera o seu próprio pai, e ele era simpático, mas enigmático. Sentia que havia amor quando lhe falava, mas a sensação de abandono doía-lhe por dentro como uma facada. Lembrava-se das histórias das más línguas da casa: o Pai dele era tido como Pai de todos, e, ao mesmo tempo, abandonara a todos. Como podia um homem ser tão bom e cruel a ponto de ser Pai e não ser encontrado. O garoto então se tornou advogado e foi bater-lhe a frente.


                Acordou no outro dia, com a boca seca e os lábios cheios de pó, os olhos ardidos e o sol frio arrepiando lhe as costas. Levantou-se, deu de ombros, e pôs-se a caminhar para a direção que a rosa indicou no dia passado. A propósito, a flor parecia mais forte, e menos negra, mas ainda assim podia ser chamada de porto seguro pelo rapaz. Deu uma última olhadela e seguiu viagem. Próximo à noite, ele chegou ao lugar-nenhum. Novamente, as mesmas pessoas, os mesmos instrumentos estranhos e aquela música de se fazer acordar. Por tanto quanto antes ficou ali a conversar com as mesmas pessoas e algumas novas. Descobriu mais do trabalho do coveiro cego, e se divertia com suas histórias, com o seu pai ouvia dos grandes feitos dos homens e como se felicitava por pessoas quererem se aproximar e felicitarem-se com ele. Não se dizia dono, mas havia uma aura de respeito em torno do homem.


                Foi para casa descansar. A casa, embaixo da rosa. Protegido. A flor que crescia e se reforçava, mas ainda continuava a apontar um lado, para não desapontar seu protegido. Ela também queria a luz. Os desejos do jovem se mudavam, mas ainda assim havia o rancor: ele compreendia coisas mais do pai, e motivações de seu afastamento. Sem nada tomar, e com mais força que no dia anterior, se levantou e andou. A caminhada demorou bastante tempo mais. Cansado e irritado começou a se lembrar das leis dos homens, e dentro de si, a rosa que existia se despedaçava e seus espinhos cresciam a ponto de ficarem-se em si mesmos, causando a própria sangria. Escorreu uma lágrima assim que viu lugar-nenhum e, na noite que chegava, ele estendeu a mão, apontou ao homem e evocou as leis dos homens: - Abandono de incapaz! - Enquanto a música desafinava e parava o rapaz gritava; o homem ouvia. Foram dez minutos de grito, reclamação, remorso, rancor, asco, rima e ira.


                Abaixou-se o tom da voz e o vermelho da pele, o Pai, com seu chapéu apontado pro céu, respirou fundo e disse:


                - Se fosses realmente um incapaz, como diz, jamais chegarias aqui e me encontrarias. Se tivesse realmente lhe abandonado não achas que eu mesmo teria te mandado para cá e te recebido de braços abertos? Se realmente tivesses te largado, não me lembraria de ti e, no momento em que nos vimos, ficaria com os olhos tão vidrados em ti, por felicidade? Se não soubesse quem és, desde o início até o fim da tua vida, não saberia que a parteira não lhe bateu quando nasceu?


                A resposta veio em tom tão alto que fez todos ao redor quererem se ajoelhar pelo irmão perdido e sofrido. Mas o rapaz não, não se ajoelhou, esticou os dedos e evocou as leis dos homens novamente. Agrediu o próprio Pai que, em reação foi na direção do filho. Este tentou fugir, agora, amedrontado, pois parecia que o homem duplicara de tamanho. Correu, correu o máximo que pôde, até não aguentar mais, correu em direção a casa, correu em direção ao que achava ser sua família, correu na direção contrária ao Pai. Quando viu a rosa, parou, e respirou. Com as mãos apoiadas nos joelhos, puxava o ar tão rapidamente que arranhava o corpo por dentro. Sentia-se tranquilo pois o Pai agora estava longe, e tinha descarregado toda sua negatividade nele. Olhava o chão, e o chão continuou olhando quando um chute acertou-o no tronco. Como uma árvore velha, tombou.


                O Pai subiu em cima e bateu-lhe. Mas não eram socos e pontapés de raiva. Não. Nem tampouco coerção. Eram de correção. Pela primeira vez o rapaz chorava. Não apanhou, coitado, quando nasceu. Agora apanhava, e chorava, chorava o que tinha que chorar, chorava para aprender a não mais chorar, nem se entristecer. Jogava o luto embora, o quanto podia. Jogava tudo de ruim embora. Os espinhos que ficaram em si sangravam mais, sangravam lágrimas também.


                - Me espanque até a morte, se é isso que queres então. Deu-me a vida, pode-me tirá-la. É seu direito de homem.
                - Dei-te a vida, e posso tirá-la, mas não como homem. Escute filho, posso bater-lhe a noite toda, mas só posso bater-lhe o que sei que aguentarás, tu és meu filho, não escravo algum. Tu és meu filho, não animal algum. Tu és meu filho, e és amado, só não soube reconhecer todo meu amor e caminho. Tu, cheio de rancor, cegou-se, e transformou a rosa que te ajuda, em rosa negra. – Agora o rapaz encarava-o com os olhos mais arregalados que o sol e a lua. – Sim, eu sei da rosa, eu sei de ti. 


                O Pai deu um soco e fez o filho desmaiar.



                Nunca havia levado uma surra dessas. Nunca havia apanhado tanto em palavras e murros, nunca. O mais curioso, entretanto, era que quando acordou, no dia, com um sol levemente quente, não sentia dor alguma. Tampouco tristeza pelas palavras que lhe acertaram. Foi isso, pensava, não fui agredido, fui acertado. Viu, de repente, as leis dos homens ruírem na sua frente: como poderia tal contradição haver e não ser explícita? Colocou a mão perto do rosto e se levantou. Viu a rosa – agora as pétalas negras se descascavam, caíam levemente como a poeira no chão, e, ao mesmo tempo, se reerguiam, brancas, iluminadas com o novo sol. Agora não apontava em direção alguma, apontava ao céu. O jovem levantou-se, encheu os pulmões de ar: a garganta ainda doía da respiração rápida de ontem, e pôs se a caminhar para lugar algum.



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Que se viva para os outros

19:27 P.H. Dalboni 0 Comentarios





- Sobre as montanhas, meu filho... – Dizia o velho de cabelo branco e rosto tão enrugado quanto o chão que havia de comê-lo –... há os gigantescos homens de Minus.
            - E o que fazem os homens de Minus, pai?
            - Eles morrem, meu filho. – Disse, deixando escorregar sobre o rosto enrugado, uma lágrima. – Eles morrem para nos proteger.

O filho desejava ser como o pai. Um grande guerreiro, feitor de várias ações, protetor do povo, salvador da família e de toda a vila. Olhava para o chão. Na grama quente os pés descalços contrastavam com a bota de couro e aço do pai. No fundo, ele sabia que os pés de ambos estavam sujos. Foram até o leste, encontrar o riacho, beber água e lavarem-se.

Voltaram para a vila. O cheiro de comida se aprontando encheu os pulmões e dos pulmões foram para o estômago. Ficaram quase cheios com a inspiração. Terminariam com a comida. O garoto olhava, agora, para o sul. Observava a cachoeira sangrenta: um pequeno filete de água vermelha que escorria entre as águas cristalinas que caíam do rio. Os tios do garoto diziam que os Minúsculos de Mayór subjugavam todos que tentavam passar e, no rio, faziam escorrer o sangue dos perdedores como quem tira sujeira da roupa.

A noite caía, e em volta da fogueira, todos tiravam sopa da panela fumegante, contavam histórias de terror e observavam o filete de sangue tomar conta do resto das cachoeiras. Era mau presságio: logo viriam os Minúsculos. Não era o suficiente para atrapalhar a sopa deles. – Por que os Gigantes não vêm até aqui e nos salvam dos Minúsculos? – Indagava o garoto. – Filho – respondeu o pai - Eles estão sempre ao nosso lado. Sempre ao nosso lado, nós é que nos afastamos temerosos. Mas peça, e eles ajudarão.

O garoto queimou a língua.

O pai bebeu um gole de cerveja.

Todos foram para suas barracas e dormiram – menos o menino. Observava a lua, o cruzeiro do sul, e a noite azul tão escura quanto o mar, tudo pela sua janela. Fechou os olhos e sentiu o ar fresco entrar em seu corpo. Uma brisa suave balançou as folhas fincadas em galhos falhos e ralos. As árvores mordiscavam a grama durante a noite e acordavam mais vivas, tais como os habitantes dali. Recuperavam tudo que havia de vida, antes de perderem a consciência. Dormiram.

Com olhos ébrios e embaçados, o garoto não conseguia compreender por que haviam acendido a fogueira novamente. Novamente, e tão perto de casa. Ouvia a voz de seu pai gritando. Um eco distante, chamuscado. Forçou os olhos tontos, e chorou. Chorou por que viu sua mãe morta em seu lado, e seu pai a lutar contra os estúpidos minúsculos e chifrudos homenzinhos.

- Por que eles estão fazendo isso, pai?! Eles não atacam somente acima da cachoeira?!
            - Eles são a cachoeira que cai para destruir, filho! Corra daqui, pelo amor que tem ao seu pai. Corra para as montanhas! Viva com os Gigantes! Viva por nós!

O pai levantava o enorme machado, que parecia tão pequeno perto dele, e dava uma onda rasante jogando para longe os pequenos subjugadores. O garoto mal teve tempo para pensar e com os olhos cachoeirando, correu. Se pudesse choraria um filete de sangue. Mas correu para longe, sem pensar por que ou como chorava. Correu e ao amanhecer ele estava na metade do campo. Olhou para trás e viu a sua vila exalando a triste fumaça e com a cor alaranjada da derrota. Olhou para o chão e viu seus pés sujos no mesmo lugar do dia anterior. Entretanto, eram apenas os seus pés. Percebeu a ausência de seu pai, e como ele estava grandioso: um gigante lutando para defender os outros daqueles que se julgavam superiores.

Abaixou a cabeça e voltou a andar: pediria ajuda aos Gigantes, e de lá, voltaria para derrotar a todos aqueles que fizeram mal a qualquer um. Eles falharam com a palavra, urrava consigo mesmo. Correu, correu, correu. O vento cortava-lhe as entranhas, as lágrimas cicatrizavam.

Após dias de caminhada e corridas, uma chuva caiu e deu-lhe um pouco de força. Dias passados ele chegou ao topo da montanha, completamente sujo e machucado, com a única força que seu pai e os Gigantes lhe deram. Nunca, em toda sua fuga, se perguntara por que os tais protetores não vieram até ele para protegê-los, ele desejava mais encontrá-los que tudo primeiro.

Chegou ao topo da montanha.

Suavemente serenava em seu entorno. Via, em sua frente, o sol abrindo o caminho de ouro entre as nuvens. O garoto se alegrou. Olhou para baixo e lá percebia uma enorme encruzilhada; a maior que vira em toda a sua vida. Em volta, percebeu em cima de bases circulares grandes homens do triplo de seu tamanho, apoiados em suas imensas espadas na frente de seu corpo. Tinham a cabeça baixa, e pareciam soltar pequenas orações. Por um instante lembrou-se de como seu pai estava grande naquela noite: ele fora um deles. À direita de todos tinha uma base vazia. Ele pegou a espada tombada e com muita força a levantou, mal conseguia equilibrar-se com ela ali.

E ele resistiu.

E resistiu.

Apreciou o céu dourado daqueles que eram Minus, os Gigantes menores, e a encruzilhada agora cheia de vida. Percebeu que não falharam na proteção; o povo falhou ao se afastar dali. Abaixou a cabeça, uma última vez e sussurrou:


- Que eu viva para os outros.

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Asas do tamanho do mundo - Pt. III

16:31 P.H. Dalboni 0 Comentarios




-Levantem homens! Vamos matar esse monstro! – Gritaram em uníssono.

                Recuperaram-se, levantaram, e correram para a montanha.

                “Cheguei, finalmente, à colônia. A luz tomou conta de minha mente e eu não sabia o que fazer quando chegar. Abri os braços e senti tamanha felicidade vir até mim. Eu e meu novo grupo fomos acolhidos com comida e repouso e agora me sinto melhor do que nunca. No momento me encontro na cama descansando. Respondi um questionário rápido sobre quem eu era e no que eu poderia colaborar. Respondi sem pensar duas vezes: matar o maldito dragão. Deem-me as armas, e eu vou com vocês para matá-lo. O atual sargento me achou presunçoso, até descobrir as minhas marcas e ver de onde eu vim e a qual unidade eu pertencia. As notícias já tinham chegado até lá. Ainda bem.”

                Chegaram muito perto da montanha em muito pouco tempo. A nobre criatura percebeu a presença de seus inimigos, ergueu as longas asas e mergulhou no vento: seu tamanho era tão grande que demorou para desenrolar seu corpo da montanha e chegar até eles. Subiu, ganhou velocidade e desceu. O grupo se separou – Formação meia lua... de sangue! Gritou Diana. E eles a fizeram, miraram seus arpéus, e quando o monstro se aproximou, atiraram. De todos os tiros, apenas o de Patrício acertou. Patrício, o pobre coitado que se recuperava da perna manca, não teve nem tempo de aproveitá-la. O monstro alçou voo assim que percebeu que era uma emboscada e levou Patrício junto. Este, por sua vez, não conseguira soltar a tempo, e quando soltou, já era alto demais. Caiu tão lentamente quanto o monstro demorou para sair da montanha  e fora a primeira baixa da noite.

                A criatura virou-se e começou a fazer um movimento circular. Os soldados sacaram suas armas e brandiram tiros. Raras foram as balas que acertaram, porém as que acertaram foram de utilidade: descobriram que a armadura da criatura era falha em suas dobras; se lá acertassem, podiam reduzir, ou até impedir, a movimentação dele. Atiraram sem piedade e o monstro deu outro rasante iracundo. O vendaval feito derrubou novamente os soldados que restavam. Marcos se irritou com a morte do amigo, pegou comunicador-acionador agarrado na mochila de Diana, esperou o monstro fazer a curva e apertou o botão. Em seguida, a serpente contorceu-se e começou a cair atordoado, sem direção. Diana gritou - Formação Quadrado! - e eles ficaram em três vértices de um quadrado. –Homens!, atirar arpéus! – e todos atiraram – acertaram nas juntas da casca do inimigo. Ele caía lentamente, suave como uma pena. Os segundos se passaram e os pobres guerreiros sentiam as pernas fraquejarem em saber qual seria a consequência disso. Atiraram o arpéu reverso, para se segurarem no chão no momento da queda. A terra se levantou e afundou, uma onda atingiu a todos. O dragão tinha caído.

                Luiz levantou-se coberto do que pensara ser um teto de ouro. Nos primeiros segundos acreditava estar no céu, mas não estava – não havia lugar pior para se encontrar -, ele estava debaixo da asa do dragão. O brilho áureo e azul quase o cegava e tomava sua cabeça em dor. Não perdeu tempo, levantou-se e caiu. Sua perna estava machucada, felizmente nada grave. Forçou-se e mancando foi ver os seus amigos. Vira Thomas caído ao seu lado. Correu o mais rápido que pôde, não que adiantasse algo, e não adiantou. Thomas estava sem pulsação. O pior veio a sua mente; foi verificar a área próxima de onde os amigos estavam. Andou, andou, andou, e embaixo da cabeça da criatura, o corpo de Marcos, iracundo ainda jazia. Ele gemia baixo e engasgava com o próprio sangue. Luiz correu para socorrê-lo mas era tarde, morrera também. Não podia acreditar no que via, e só podia pensar no sorriso de Diana. Não podia acreditar que era verdade. Não, não, não podia. Correu, cambaleando. Caiu, levantou, correu. Caiu novamente.

                Em alguns minutos tudo que se passou em sua mente foi o nada. Diana estava lá, deitada, espremida por uma pedra. Um filete de sangue escorria na sua boca. Luiz ajoelhou-se perante o corpo, e entre lágrimas viu um caderninho apertado no peito dela. Os olhos dela estavam quase sem luz e ele pegou o caderno. Diana teve um espasmo.

                -Não!
                -Oh! Diana, você!... você!... Eu não acredito! Vamos, não morra!
                -Não há mais... não há... eu matei a criatura! Levei... a criatura que... – cuspiu sangue sujando o rosto de Luiz – levou tudo de mim! Eu... levei... ela... embora... – e a luz abandonou os seus olhos.

                O único sobrevivente agora chorava com lágrimas e sangue umedecendo seu rosto. Sentia vontade de morrer também. Sentia-se injustiçado por estar vivo, até sentir um suspiro da criatura. Luiz sacou a metralhadora da pobre moça e começou a atirar na fenda do corpo do monstro. Foi o suficiente para acordá-lo. Com um rugido que ensurdeceu um ouvido de Luiz, a criatura bateu um pedaço da cauda no chão, fazendo um enorme buraco e alçou voo. Seu bater de asas jogou Luiz longe. Caiu no enorme buraco. Entretanto a queda não foi o suficiente para matá-lo. Em alguns segundos ele acordou. “Maldita causa dos terremotos, e agora de minhas tempestades!”, gritava em sua mente. Passou a mão no chão suavemente para analisar o terreno e viu um aparelho piscando em vermelho. Era o comunicador. Ligou para seu chefe e disse:

                -Acho que encontrei senhor. Um enorme buraco, uma enorme toca. Acho que me leva para uma dessas colônias.
                -Ótimo. Já rastreamos a sua posição. À noroeste daí há uma colônia amiga. Acredito que por este túnel seja possível chegar lá. Onde está o resto do grupo, senhor? E o dragão? Onde está Diana?
                -Estão todos mortos. – disse como se fosse a resposta que o seu superior gostaria de ouvir – Mortos pelo dragão.
                -Meus pêsames, soldado... – disse como se fizesse não mais que uma obrigação. – Novas ordens para o senhor, siga para a colônia amiga e lá você irá se recuperar e receberá novas ordens.
                -Câmbio. – desligou Luiz. – Filho da puta.
                O jovem soldado com a sua barba rala ensopada de lágrimas e sangue entrou no túnel. Desligou o comunicador e ligou o GPS. Fechou os olhos, apertou a caderneta, pegou uma caneta que achou no bolso e, enquanto entrava no túnel começou a escrever...

                “Hoje eu provavelmente pararei de escrever. Houve uma reunião com os grandes líderes e haverá investida tão grande quanto eles. Fui convocado como líder de um batalhão. Vou para minha última missão, minha missão mais da morte que da vida. Peço perdão por não ter obedecido a minha amiga, os meus amigos. Peço perdão por não ter sido bom suficiente, mas agora posso retribuir. O dragão comerá sua própria cauda. Vamos embora! Vamos matar um dragão!”


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Asas do tamanho do mundo - Pt. II

19:34 P.H. Dalboni 0 Comentarios





                
Luiz levantou-se mais cedo que os outros. Uma vasta neblina tomava conta dos céus e da terra e mal via à distância. Ele foi lentamente recolhendo e ajeitando o pequeno acampamento. Aos poucos os outros levantaram-se também, e colaboravam com o arrumar das coisas.  Na verdade queriam arrumar apenas uma coisa: o mundo; e claro, era grande demais para que eles o fizessem. Não desistiram de feitos maiores e puseram-se a caminhar. Diana ainda estava quieta e só dava ordens quando necessário. Caminhavam com pés rastejantes e mochilas pesadas, mas aceleravam o passo para alcançar a criatura, onde quer que ela estivesse.

                E a sorte correu ao lado deles. Poucos minutos após iniciarem a caminhada o rádio comunicador começou a chiar. Suavemente uma voz grave saía de lá. Chamava o esquadrão; agora, gritava-os. A mensagem foi respondida.

                -Diana falando aqui, responda. O que houve?
                -A criatura atacou nossa cidade! Fugimos pelos túneis recém descobertos...
                -Túneis? Que túneis, senhor? Como está a cidade?
                -...Não me interrompa mais, por favor. Fugimos pelos túneis, e não temos muito tempo. Antes do ataque, recebemos mensagens sobre eles:  formam estradas por dentro de todo nosso país. Encontramos parte da obra desse maldito dragão! São muito fundos e o sinal é pouco aqui, então me deixe falar logo: prendemos um localizador embaixo da asa dele, e bombas elétricas que irão explodir dentro de alguns dias – a menos que vocês as detonem antes. Vou te passar os dados do localizador e quero que vocês cacem-no, matem-no. São a nossa única esperança. – bufava o homem.
                -Mas senhor, como vamos mata-lo, isto é, se o acharmos? A cidade fica muito longe? Como ele teria passado por nós? Isso, sem nós termos visto!
                -Soldado!, não acredito que aches só existir um caminho até aqui, mas pelo que verifiquei, vocês são o esquadrão mais próximo da localização do monstro. Achem-no, detonem as cargas e, assim que ele estiver no chão, prendam-no e matem-no. Quero a carcaça dele em minha casa. Desligando.

                Um ruído fino calou o rádio comunicador. Após alguns segundos, os dados começaram a ser baixados em uma tela, e uma pequena luz piscava a noroeste nela. Por sorte o monstro não destruiu todos os satélites.

-Vamos indo! – gritou Diana. E todos a seguiram.
-Você acredita que com tantas bombas atômicas, um choquezinho vai atordoar esse bichano? – disse Luiz, baixinho para Thomas.
-Achávamos que a radiação ia matá-lo e não aumentá-lo assim; não temos muitas opções. Ele já era enorme antes; agora, é de um tamanho que sequer a Terra pode contar, ou conter.

                Luiz riu triste e comentou:

 -Boa sorte pra nós.

 E Patrício respondeu igualmente.

                Diana continuou a andar quieta e calada. Não sabia, mas ela dava confiança a todo o grupo: parecia ser frágil, mas demonstrava que sua armadura feminina era mais forte que qualquer colete de soldado. Caminhava sozinha, mas sabendo de toda a companhia, e toda companhia sabia que ela era a líder. Há anos, quando tomou a frente do esquadrão, os outros nem tiveram tempo de chacotear com ela. Era Diana, era guerreira, e era líder. E seguindo os bips do comunicador, ela guiou o grupo.
                Patrício cantarolava alguma música antiga; Marcos rezava a cada cinco segundos e Thomas cochichava piadas com Luiz. Este, que por sua vez tentava adivinhar o que se passava na mente de Diana. Diana apenas guiava - tentava não pensar muito; em momentos assim pensar pode não trazer solução alguma. Pelo resto do dia, os diálogos foram cessados. A neblina não dissipou e todo som ouvido faria a diferença. Prosseguiram por trilhas até o início do crepúsculo, trilhas que dividiam o bosque da planície, ambos esverdeados ainda. 

Por fim começaram a dar a volta na montanha. Seguiam sorrateiros, encontrando aberturas onde se esconder. Quando a noite caiu, não acenderam fogueira, nem montaram barracas. Deitaram em seus sacos de dormir, um próximo ao outro para esquentarem. A caverna não era lá o mais confortável dos lugares, mas, com certeza, era mais protegida que muitos outros.

 Enquanto a noite caía, o sinal do comunicador subia: o monstro se aproximava mais e mais. Nenhum deles tinha visto sinal da criatura durante todo o dia, quanto mais à noite. As horas passaram e eles tiveram a terrível surpresa pela manhã. Um estrondo estremeceu toda a montanha e acordou-os abruptamente. Lá estava ele: dourado pela luz da manhã e imenso, com asas do tamanho dos dois hemisférios, pensava Luiz, parecia que o sol estava ali, na frente deles. Sem notar o esquadrão inimigo ele devorava a montanha, enquanto a abraçava. Arrancava grandes rochas e as devorava, depois jogava grandes pedaços longe, destruindo tudo que havia em volta.

Por sorte não vira os soldados ali escondidos, desesperados. Com as mãos trêmulas Diana tentava ligar a carga elétrica para imobilizá-lo, mas o nível parecia demorar um século a cada segundo. Faltava a coragem, faltava a força para aparecer e distrair a criatura. O suor escorria pelo rosto de todos e o som abafado das vozes dos companheiros ecoava na cabeça da bela guerreira: “Vamos, Diana! Aperte! Clique! Vamos!”. O nivelador não chegava ao máximo e, mesmo se chegasse, Diana não conseguiria apertar. Sentia o medo passando pelas suas entranhas e tornando seu corpo como rocha. Ela parou. Tudo em sua volta também.

O escuro tomou conta dos olhos dela.

Quando acordou, todos os seus amigos estavam em sua volta. Fazendo uma proteção. Algumas rochas desabaram e eles ficaram presos. Não passou mais que cinco minutos do momento em que a realidade da líder estagnou, e tudo já havia mudado. A criatura saíra para longe e não havia mais como estourar as bombas de choque. Com vários esforços os companheiros tiraram todas as pedras. Diana se arrependia de não ter cabelos mais curtos. Luiz e os outros se arrependiam de não serem mais fortes. Mas tinham vida, e era isso o que precisavam para se ter esperança de matá-lo – ou o contrário.

Com pequenas frestas de luz eles viam o lado de fora, e, de certo modo, sentiam alívio por não verem o monstro, mas o esforço para encontrá-lo seria maior ainda. A ficha demorara a cair, e só agora entendiam que quando o chefe dissera que o dragão tinha atacado a cidade, ele tinha destruído toda ela. E que, se o ataque fosse minimamente parecido com isso, o número de sobreviventes seria quase zero.  Uma lágrima escorreu no rosto de Diana. Pensava naquilo que ela chamava de família, e como o terror que sentiu podia ter como consequência a morte de mais famílias. Os outros se comoveram com a lágrima e perceberam a sua impotência perante a força da terra. Entraram em estado de choque, e, por momentos, só conseguiam ficar sentados nas pedras pensando em como estavam sendo infelizes.

“Infelizes são os dias em que eu não vejo a luz. Arranjei algumas coisas para ler e distrair. Falta pouco para chegar à colônia de sobreviventes. Recebi notícias que fortaleciam minhas suspeitas: eles têm uma forma de destruir este dragão escroto. Não aguento mais ficar aqui. Sinto falta de lá de fora, sinto falta do mundo, sinto falta de mim. Tantas coisas que eu nem possuía e digo que perdi; tudo por causa dele. Dessa vez eu irei matá-lo, dessa vez eu irei. Espere só eu conseguir retornar a mim, voltar a ser o que eu era. Você não perde por esperar.”

Pegaram o comunicador, limparam a tela, e olharam o bip vermelho, que tocava ainda a nordeste, não muito distante.  Diana se afastou, pegou o pequeno caderno e fez uma anotação, e chamou a atenção deles.

-Preparem-se homens, vamos matar um dragão.

                E com as armas em mão, caminharam sem descanso. As armas faziam um barulho que chamava a morte. Leves estalidos contando o tempo restante de vida de cada um deles. O caminho da montanha pra lá era de chão batido, quase sem plantas. Iam rastejando e deixavam poeira para trás. O caminho ia passando e a força e coragem deles também, mas tinham raiva, e esperança. Aceleraram o passo. Se a criatura parasse por lá, na próxima tarde eles chegariam nela e poderiam descontar tudo o que sentiam. Passaram a tarde toda caminhando, sem falar um com o outro. Não conversavam pois sabiam exatamente o que o outro diria, e falar seria trazer a superfície da boca todo o fardo e peso dessa jornada.

                A noite chegou e eles não pararam uma hora sequer do dia. Agora se encontravam num ponto equidistante da localidade do dragão e da montanha. Fizeram um pequeno círculo no meio da enorme planície, acenderam uma fogueira e comeram. Olhavam uns para os outros; uma lágrima escorreu dos olhos de Patrício, e outra nos de Marcos, Luiz, Thomas, e por fim, Diana rendeu-se. Eles se aproximaram, abraçaram, e, antes de dormirem, Luiz soltou tristes palavras: “Independente do que somos agora, eu amo vocês.”.

                Quando os olhos se fecharam, os minutos se passaram sem ver e, por conseguinte, as horas também. Tão rápidas que mal tiveram tempo de perceber o grande vendaval que os jogou para longe. Rolaram tão descontrolados no chão e tanto se atordoaram que demoraram tanto quanto para se levantarem. Felizmente ele não percebeu os soldados e a fogueira: odiava tudo que vinha do ser humano. No alto da montanha, a cobra alimentava-se das pedras. Irado com a situação jogava as maiores rochas para cima, tentando matar qualquer ser vivo nas proximidades.

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Asas do tamanho do mundo - Pt. I

11:36 P.H. Dalboni 0 Comentarios




                Distante no céu, quase além das nuvens, via-se a delicada imagem: deslizava nos céus; sua liberdade era invejável. Ela voava em círculos, balançando como uma onda - nadava no ar.  Os céus embaçados não permitiam que contemplassem todos os seus detalhes, mas todos os detalhes se tornavam irrelevantes quando viam sua grandeza – o monstro pousou, enroscou-se na montanha. Parecia enforcá-la. Soltou um grave rugido que balançou o capacete de todos os soldados que se encontravam a cinco quilômetros dali.

                “Já faz dois meses desde o primeiro ataque. Aqui embaixo não parece ser muito mais confiável que a superfície. Não encontrei outros moradores, mas fiquei sabendo de uma colônia de sobreviventes com suprimentos e armas a nordeste da casa de pedra. Espero que consigamos chegar lá.”

                As mãos trêmulas dos poucos soldados trataram de pôr rapidamente os capacetes.  Com a força hesitante, as pernas se puseram a marchar; ali eles não tinham escolha: eram apenas soldados. A sargento Diana soltou um riso rasgado e chamou a atenção para si:


-Vocês não deixarão que um gritinho daqueles atormente vocês, não é? Aquele verme acha que pode ser dono do nosso mundo? Não, não pode! Vamos!, avante, homens! Avante! Não parem agora.

                E então o cabo Luiz chegou e sussurrou para a líder:


-Não penso que ele ache alguma coisa. Para mim ele já tem é certeza.


                A enorme mulher olhou de soslaio e respondeu:


                -Não ouse dizer repetir isso. – Afirmou, ríspida. “É melhor morrerem achando que estão sendo honrados a morrer sem esperança alguma.” Pensava, solitária. - Agora ande! E de boca fechada! – Tornou a gritar.


                “Há algum tempo tenho forçado uma breve esperança em ver a luz. Os dias aqui são tão escuros. Tenho medo. Muito medo. Toda insegurança aqui é pouca. Não consigo acreditar que este monstro que hoje domina os céus veio daqui debaixo da terra, não consigo. E se ele resolver voltar? Todos nós estaremos perdidos. Sinto falta do dia, sinto falta da luz, sinto falta de ar.”




                Os cinco soldados andavam lentamente enquanto observavam a embaçada criatura fazendo a montanha de berço. Era tão maior que a montanha em comprimento que quase fazia dela uma bobina, repousando, guardando energia. A cada passo mais próximo à montanha, Luiz sentia um passo mais longe da vida. Não abriu a boca para falar em nenhum momento. O dia ia subindo e a hora do almoço chegava. O estômago deles tremia tanto quanto os braços e as pernas. Os pés vociferavam descanso, e, de tanto gritarem, conseguiram o desejado. Sentaram-se para almoçar, todos os soldados.


                Diana ficou distante por um bom tempo; Luiz estava contando piadas para esquecer os passos cansados. Os demais sorriam um sorriso tristonho, mas ainda assim, um sorriso.


-Ei, Marcos, qual o animal que já passou o prazo de validade?
-Não sei. Acho que todos aqui somos animais que passamos da validade. – disse soltando um riso caído. – Só espero causar uma bela indigestão nesse merda! – e um riso geral tomou conta do círculo em volta da panela do almoço. - Espero que sejamos iguais a esse rango que o Thomas fez!
- Que não comesse então, Marcos. – retrucou indignado – e, aliás, quem não se achar dragão o suficiente para digerir a comida, que não coma também. Acho que ossos fazem mais mal do que carne.
-Ei, Thomas, acalme-se! Não somos ingratos, não é pessoal? – todos concordaram, em murmúrios, e Luiz deu-lhe tapinhas nas costas – Não se estresse!
-Vamos nos divertir, não é, Doutor Patrício?
-Vamos nos calar! – gritou Diana guardando um pequeno bloco de papel no bolso e jogando o prato dentro do balde cheio de água.
                Todos lá silenciaram e abaixaram a cabeça. Entendiam aquela ordem - o dia chegava agora em sua metade: a hora dos primeiros ataques e respectivos lutos. O silêncio abafou tudo em volta, o vento cessou, as plantas escureceram, os pássaros calaram, as borboletas pousaram. Aquele momento acontecia todos os dias, e sempre parecia que o ar tombava em cima de todos lembrando o pesado fardo que ali carregavam. Uma leve brisa passou por eles, a chama embaixo da panela dançou e com a dança o momento estava terminado. Para fim de espetáculo a serpente enroscada na montanha soltou outro grito que fizera tremer os caules das árvores a leste do bando. Começou então a se desenroscar da montanha. Os soldados correram, apagaram o fogo, pegaram as armas e com pés valentes foram à frente.


           “Maldito dragão! Queria ter uma última chance de enfrentá-lo! Fico imaginando o dia em que quase o pegamos. Se ele não tivesse matado a... Não consigo respirar aqui embaixo e isso me lembra de cada momento que passei sem respirar lá em cima. Lembro-me da cena: a temível criatura alçando voo, e vindo para cima de nós. Levantamos armas, usamos o arpéu automático, mas fora inútil. Sua carcaça era dura demais. Dura demais! Como eu sinto falta de um colchão!”


                O dragão levantou voo. “Sua extensão era maior que o mundo.” pensou Thomas. A grandiosidade alada deu voltas e voltas na montanha, ondulando no céu e com suas asas que pareciam abraçar os dois hemisférios,  jogando o vento contra o pequeno grupo de sobreviventes. Diana gritava para avançarem, mas tudo que fizeram foi: paralisarem-se olhando a realização do medo. Após longos voos e ondas, o dragão virou na direção contrária dos soldados.


 -Merda! – gritou Diana. – Por que vocês não me escutam? Olha só quanto tempo vai demorar pra gente chegar lá, isso se a gente descobrir onde é lá! Bando de inúteis!


                Com a cabeça baixa, novamente, eles seguiram. Thomas cochichando para Marcos sobre como Diana e Patrício eram inconvenientes – ambos opostamente inconvenientes; Sobre como Luiz demonstrava a falsa esperança e havia sussurrado provocações à Diana. Ele ia sozinho, assim como Diana. Marcos ouvia Thomas, e Patrício ia atrás, sempre cansado. A gama de suprimentos era grande e, portanto, pesada. Quando os pés começaram a vociferar de novo, Patrício foi, inconvenientemente, o primeiro a cair. Sua cabeça não aguentava mais as reclamações. Os outros se sentaram em volta dele e descansaram também. Pegaram água e beberam. A tarde já estava acabando e nada do dragão voltar para abraçar a montanha.


-Como os antigos derrotavam dragões? Não conseguimos matar um! Imagine se tivessem vários? – refletiu Patrício. – Só espero que meus pés estejam descansados para o dia em que o alcançarmos. Aí sim, ele verá de quem a terra é.
-Se for assim, a terra é dele. Foi lá debaixo que ele veio, seu idiota.
-Francamente, Thomas, você tem se tornado um insuportável nos últimos dias. Até Marcos está cansado de você, olhe só pra ele!         


                Thomas, vermelho de cólera olhou para Marcos.

-Desculpe, amigo. Não é nada contra você, pessoalmente, mas nesses últimos dias você só tem feito reclamações e falado mal do resto do gru...
                Thomas ameaçou sacar a arma, mas em seguida parou. Olhou para Diana que o encarava , com a mão na sua Magnum 45. Abaixou o braço e descorou. Pediu desculpas malditas e sentou-se. Tornaram a andar. Andaram longos períodos com Patrício mancando, Thomas corando e descorando, Luiz tentando sorrir e Marcos pensando. Diana apenas observava, e o silêncio novamente tomava conta deles – chegava a ser entediante ficar ali. A noite chegou, e eles chegaram bem próximo do pé da montanha. Fizeram uma nova roda em volta da fogueira baixa e tentaram conversar para esquecer a tristeza da noite.
-Ei, Thomas. Me desculpe por hoje, e por sempre. – Disse Patrício cabisbaixo.
-Tudo bem. E Marcos, desculpe também. Ou todos vocês. Ultimamente tem sido difícil pra mim, sabe? Eles nos tratam como soldados, nos mandam pra campo, mas eu não sou soldado, nem vocês. Mal tivemos treinamento e querem que a gente seja forte e certeiro sempre... Ah! Quanto ódio! Só me desculpem.
                Diana deu um sorriso, guardou o caderninho em que estava escrevendo, virou as costas e foi se deitar. Luiz viu o sorriso e sorriu também, mas não para Diana, e sim para ele mesmo. Tentava imaginar por que aquela moça grande de cabelos loiros longos somente sorria às vezes e era tão dura. Seu corpo grande ia de encontro com a delicadeza que Luiz sentia haver dentro dela. O coração de Luiz palpitava, e sempre que reparava nela sentia-o batendo de novo. Os ânimos voltavam. Levantou da roda, virou-se, desejou boa noite e também foi dormir.
                “Sinto falta dela. A cada dia que passa fica mais difícil ter ela tão perto de mim, e lembrar que ela está tão perto de mim por consequências tão tristes. Sinto falta do silêncio dela, do seu jeito antissocial, de mandar sem falar; sinto falta do nervoso quando saía de perto do grupo pra ficar só. Hoje ela está aqui comigo, sempre, na minha cabeça. Preferia antes. Sinto falta de sentir falta dela.”

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Fome.

17:38 P.H. Dalboni 5 Comentarios


                Ele estava sentado no sofá da sala, olhando para a luz que entrava pelas frestas da persiana. Observava mais as sombras que a luz; tinha interesse, pois não conseguia enxergar o que havia lá, nem se quisesse: seria preciso um mergulho, procedido de afogamento. Sentia-se mais perdido ainda por tentar encontrar motivo nas motivações das pessoas: dinheiro, comida, prazer, felicidade.

 Na verdade, ele não entendia o vazio que tinha em si mesmo. Um buraco, em seu peito. Um buraco feito não por balas, nem por facadas, ou ferimentos: era pior, bem pior; um buraco que machucava a alma. Toda vez que pensava, recordava-se da frase que todos diziam – Sensação de vazio? Podes crer que é fome. E, desde então, ele dizia que tinha fome, e queria comer. O que comer, ele não sabia.

Pensava nas vezes em que foi para a rua, e lá, à noite, comia bastante. Comia guloseimas, comia pratos abastados, bebia garrafas e garrafas de líquidos saborosos que enchiam o beiço de sabor e cor. Mas não matava a fome. Então, cansado de não matar a fome, ia para as boates, arranjava uma ou duas mulheres, e comia. Dessa vez, não mastigava,  dizia se tratar de outro comer e, mesmo assim, qualquer outro tipo de fome que fosse não era satisfeita.

Acordava no outro dia, e resolvia só sentir fome. Ficava na cama, gemendo, reclamando, e se remoendo por dentro. Em sua mente os pensamentos se passavam dizendo que se ele não gastasse energia, não precisaria comer, e não teria o tal vazio. Mentira, a fome aumentava e os gemidos e reclamações também. Levantava-se, então, de mau humor, saía para comprar qualquer coisa de comer, e comia. Se alguém apresentasse um mínimo de contrariedade a ele, era atacado como um feroz leão faminto. Certa vez chegou a morder um atendente que se recusou a vender mais comida.

Baixou a cabeça e olhava a luz pela persiana. Era bem mais agradável que a sombra de se ver, mas ainda assim doía os olhos se a enfrentasse.

Se pudesse, comeria a luz.

Olhando fixo, lembrava-se dos grandes economistas e trabalhadores do grande mercado de bolsas e comércio. Se identificou: faminto por dinheiro, por passar acima dos outros. Ele saciaria ali algum tipo possível de fome que sentia, com certeza. Arrumou-se com a roupa mais fina: um terno caro, sapatos importados de animais em extinção e, no primeiro dia de trabalho, foi com o nariz empinado e afirmando – Preparem-se, pois o mais faminto dos leões chegou! Já pediria demissão, se fosse vocês.

Foi demitido em pouco tempo, acusado de roubar clientes e fazer outros mais comprarem sem pensar. Ele agora tinha raiva, pois todos os outros leões menos famintos conseguiam trabalhar, e todas as outras pessoas conseguiam viver. Lembrava-se da sensação de perder o controle pela última vez. Queria bater em cada um deles, por não serem tão famintos e não valorizarem sua voracidade. A imagem perfeita permanecia na mente enquanto olhava para o lado escuro projetado pela persiana: abaixou; puxou a maleta debaixo da cama; abriu a maleta; pegou todas as reservas de dinheiro que tinha - e comeu.

Comeu.

Mas a fome não se saciou.

E agora ele fitava, novamente, a persiana. Via que ela tampava a luz e projetava a sombra. Ela era a culpada de não fazê-lo ver nem um nem outro. Não via a sombra, pois escura assim a é. Não via a luz, pois não sabia que não se pode encará-la, apenas apreciar. Sentia fome. Se pudesse comia tudo. Mas não podia. Então o desejo surgiu pequeno em sua mente e cresceu, como sua fome, como o buraco no peito. Ele estendeu o braço, e colocou a mão entre os dentes. Em pouco tempo, seu corpo havia sido devorado pela própria boca.


 E a fome não cessou.

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O garoto que veio antes da selva.

14:11 P.H. Dalboni 2 Comentarios


                O grão de poeira voava desordenadamente pelas ruas da cidade cinza. As ruas, vazias, não apresentavam nenhuma resistência ao voo. E o grão seguia, esculpido e cuspido das chaminés, não tinha intenção de atingir ninguém, apenas voar e espalhar-se por aí. Um rosto distraído, de um jovem, sentado a esperar o ônibus chegar, admirava as toneladas de pó jogadas ao ar. Desceu os olhos e puxou o ar.

                Não esperaria muito daquele dia, até por que, como um dia normal, não haveria ninguém nas ruas, nem mesmo sabia se o ônibus o salvaria dali. O sol subiu aos céus e a espera do garoto continuava. Não sairia dali; era mais saudável. Abriu os braços e se posicionou fora da sombra. Abriu os olhos em direção ao céu; a poeira o atingiu. Em movimentos bruscos e desengonçados ele tentava tirar a poeira, mas falhava. A cada tentativa sentia-se coçar mais e nada lhe restou a não ser a risada para acompanhar a tragédia.

                O vento que trouxe o grão foi o mesmo que trouxe as folhas: secas e verdes, entre sementes e outros grãos pesados. Mal percebia o que estava acontecendo a sua volta. Conseguiu retirar com os olhos avermelhados o incômodo. Quando voltou a olhar, a rua agora estava cheia. Cheia não de pessoas, mas de folhas, grãos e sementes voando. O toque e tinir que faziam ao deslizar sobre o ar e asfalto agradavam à audição. Era uma música que não ouvia há tempos; tempos em que o ônibus o deixava em bosques, selvas, e florestas tropicais e frias.

                Sentia saudades.

                Voltou a respirar o ar quente do sol, e tinha em mãos uma semente que chegara voando. Olhava o fim da rua, e nada de ônibus, nem mesmo a sombra ou reflexo da possibilidade dele estar ali. Via o vapor subir, mas não sentia sede. Lambeu os beiços e engoliu a semente. Deitou-se à sombra para descansar; e descansou. Ficou de olhos fechados até o rufar daquilo que pareciam tambores obrigaram-no a abri-los. Tocavam tantas notas separadas e trocavam o ritmo toda hora.

                Olhava agora, atento, para o outro final da rua, tentando distinguir o que se passava por entre os prédios amarelos e cinza. O que acontecia além do estacionamento vazio; além do boliche vazio; além do vazio, vazio. Observava e via o vapor sair do asfalto, e nada mais. Olhava para o outro lado e nada. A esperança crescia no seu peito, de tanto esperar. E refletia sobre o que seria esperar sem esperança, e esperança sem esperar. O calor, certamente, afetava o pensamento pobre do garoto. Sem respostas, tornou-se à calçada e deitou. Novamente dormira e, ao som das rufadas, acordou. Porém, agora, era diferentemente.

                Ao fundo, via pequenos prédios com braços finos e cheios de lanças que andavam à sua direção. Pegou uma semente; mordeu; soprou. O vento a levou. A cada passo ele distinguia mais os andarilhos errantes: não eram prédios, tampouco humanos. Eram troncudos, grandes, amarronzados, espetados e traziam folhas consigo. Eram a fonte de seu vento, eram a esperança maior que o ônibus.

                Eram árvores.

                Árvores, pequenas, grandes, com vários galhos e ramificações. Não eram entes, como os mitológicos, eram apenas árvores que caminhavam por sobre suas enormes raízes e rostos nada pálidos e muito enrugados. Entretanto, não andavam como homens, nem arrastavam-se como bichos tristes: vinham dançando ao som da música de homem algum. Sambavam, ornamentadas em raios de sol, trazendo a luz com o vai e vem das folhas farfalhantes, que chacoalhavam o ar, o céu, e as nuvens.


                O menino sentia-se feliz por ter a tristeza de não ter visto o ônibus chegar para levá-lo ao bosque, às florestas e selvas, pois agora, ele tinha a sorte: ele era o garoto que veio antes da selva chegar.

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Flores nos ombros

18:40 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Todos os dias em que ele saía de casa as pessoas olhavam torto para sua figura. Não era pelo fato dele sempre sair usando roupas com ombreiras, mas sim por nestas ombreiras terem flores postas. As raízes escorriam sob seus ombros e tocavam-lhe o peito. Ia sempre com um sorriso no rosto, cumprimentando quem quer que fosse, e isso só atraía mais o olhar.

                Alguns diziam que as raízes moviam-se como se vivas; outros, que ou as plantas eram de mentira, ou o homem era louco por trazê-las assim e matá-las. E nenhuma das duas era verdade. Toda manhã ele olhava no guarda-roupa e escolhia não de acordo com o seu humor, mas de acordo com o que o dia precisava.

                De fato, não adianta sempre fazer o que se quer, ainda mais quando se tratam de flores: sua beleza independente do local; o seu viver em locais jamais imaginados; o seu ser flor. Talvez, as pessoas até poderiam dizer que as flores que escolheram o homem e não ele a elas. Mas quem saberá?

                Provavelmente, só sabiam que era assim: andava todas as manhãs; depois todas as tardes; e aí todas as noites. Eu gostava de observar aquele homem com as ombreiras floridas. Admirava as pessoas que o viam passar e abriam sorrisos ou tentavam disfarçar o olhar espantado – transmitiam felicidade. As flores, benditas, olhavam de volta, entretanto não era possível, até que os outros perceberem seu olhar, e importância.

                Dos dias que se passavam, um após o outro, o homem começou a perceber risinhos indiscretos. Deboches. E eu que o observava no pouco tempo que o tinha na vista, notei que eram nocivos. Daí em diante, começou a aparentar na face um sorriso tristonho. Os olhos caíram, e rugas apareceram-no. As flores, por consequência, começaram a perder a cor. Em pouco tempo elas pareciam a noite, com poucos resquícios de luz – pequenas estrelas.

                E pelas noites tristes em que eu via flores no céu, comecei a perceber a tristeza do senhor. A barba já estava branca, e o cabelo raleando. O número de flores em seu ombro caiu e eu notava, pelo mesmo motivo, porque as outras pessoas não tinham flores em seus ombros. Não pelo riso alheio, mas pelo riso a si próprios. E mesmo entendendo, não sabia como ajudá-lo: talvez, falar-lhe que essa sua unidade era linda e trazia a felicidade para outras pessoas não traria o efeito desejado.

                Abaixei a cabeça, e perdendo-o de vista pela imensurável rua, fui repousar. Refletia: realmente, talvez as flores o escolhessem, mas se ele não as escolhesse também quem dirá que flores se apoderaram do seu ombro? Um apoderamento consentido? Quem dirá ver flores no céu, e estrelas nas flores. Quem diria, talvez fosse demais para a compreensão de quem se dizia entender – a minha compreensão.

 Agora, mais do que nunca, entretanto, eu queria compreender: o homem, as flores, os risos, e a ajuda para com ele seria uma consequência do meu aceitar.

                Abaixei a cabeça e dormi. Quando acordei, o outro dia nascia. O sol, as nuvens laranja, o pouco movimento na rua. Fui para a janela observar o senhor, com esperança de que ele pudesse estar melhor hoje. Nada vi. Mas também, esperar que o homem saísse mais cedo que de seu horário usual foi incrivelmente estranho. Tal como, resolvi caminhar, ver o dia, o vazio de pessoas no asfalto. Faz tanto tempo que não saía: minha família ficaria orgulhosa. Abri a porta do guarda-roupa, e nos cabides tive uma das mais belas surpresas que uma pessoa pode ter: casacos com ombreiras floridas. Bem, só restava a mim, escolher ou não o casaco.



                Quando saí de casa, obtive outra linda surpresa: o meu vizinho saía de sua moradia, com um casaco florido também, um pouco entristecido – claramente -, mas a me ver, eu pude notar um sorriso surgir em seu rosto, não tristonho, e as flores crescendo novamente, apontando para o céu que amanhecia, virando estrelas, e as estrelas, um pouco apagadas no amanhecer, viravam flores. Agora eu entendia o que eram as flores.

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