Ele. Currere Vitae.

21:51 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                A sala estava brancosa de tamanha luz.

                -Abra-te, mente! Liberte-me!

                Do verbo da voz, a luz sumiu.

                -Maldito! Da próxima pego-te sem que possas  fugir!

                Apoiando-se no cajado, o pobre velho manteve-se com a pouca força que lhe restava. Respirava, fatigado, fundo, devagar. Ainda podia sentir a voz sussurrante rasgando seus ouvidos em meio ao barulho da luz que extinguida “você jamais me pegará, velho tolo.”.  O velho andou na sala, arrastando seus pés na pedra; sentou-se na cadeira. Com o braço na mesa, esticou-o e pegou um pão; comeu. Gotejava o teto. A chuva lentamente caía após aquela luta enferma entre o velho ancião e algo que nem mesmo ele saberia dizer.
                Esticou o cajado para a lareira apagada e, do cajado para lá, fez-se uma língua de fogo e acendeu a triste escura lareira. Cinco estalados rápidos na porta fizeram o mago levantar da cadeira assustadamente. E depois mais cinco. Não precisava contar: a porta já fazia isso para ele. Sabia que o visitante não era esperado, mas também sabia que aquele não poderia ser seu recente inimigo, já que bater na sua porta não era necessário. Bateu seu cajado no chão e seu corpo esticou, grudando nas paredes e teto e a porta abriu. Rapidamente se fechou, com o cavaleiro entrando e segurando a porta.

                -Quem és tu e por que necessitas de abrigo? – Disse a temível voz do mago, ecoando por toda a sala.
                -Sou um cavaleiro em fuga. Deparei-me com uma perseguição e aqui venho pedir-lhe ajuda.
                -Você viu o maldito que lhe perseguia?
                -Não, meu bom salvador. Mas tenho certeza de que se o enfrentasse, eu não aguentaria.
                -Só pode ser ele. Posso proteger-lhe, mas tu terás de me ajudar a combater este maldito. Não te preocupes quanto à vida, proteger-lhe-ei até que minhas forças acabem, mas não consigo derrotar a terrível criatura, pelo mesmo motivo que tu fugiste desesperado: não a vejo, apenas a ouço.
                -Meu senhor, não acho que a criatura seja...
                -Tu queres ser mandado ao relento para que morras?
                -Não, meu senhor.
                -Então te cala e ajuda-me!

                O velho soltou um sopro e deslizou do teto para a parede, e da parede para o chão, tornando à sua forma normal.  O homem ajoelhou perante o mago; este que ergueu suas mãos, e junto delas o cavalheiro fora erguido também.  Sentou-se novamente e pôs-se a falar:

                -Não salvo ninguém há décadas, e peço que tu sejas capaz de realizar-me este último desejo.
                -O que desejas? Tenho um débito vital com o senhor!

                O mago pegou uma faca que tinha um brilho azul claro e suave.  Virou o gume para o peito e começou a abri-lo. Fizera um semicírculo e puxou a carne. Logo após pegou um alicate que brilhava verdemente, abriu as costelas e chamou o homem.

                -Veja, este é meu coração. Abaixe-se mais para que perceba direito.
                -Curioso, muito curioso...
                Pobre senhor enfiou a mão na sua caixa torácica e, por cinco minutos, ficou mexendo em torno de seu coração. Retirou as mãos, e em meio a elas e ao sangue, havia um pequeno cordão dourado, quase totalmente embolado.
                -Querido amigo, aqui há o meu cordão da vida! Todos os magos possuem um, e ele nos trás duas opções: ou, com o tempo o cordão se embola e aperta o peito até a morte, ou então o cordão se embola tanto que se torna impossível de que volte ao normal. E essas são as duas maneiras de se morrer. Eu peço que me ajude, antes que meu cordão se embole, ou aperte meu coração até a morte. Este maldito tem me atormentado por semanas e não consigo derrota-lo!
                -Estou aqui a seu serviço, meu senhor.
                -Esteja, e prepara-te! Todas as noites, antes de eu dormir, ele aparece, e, espero que assim continue, para que possamos pegá-lo.
                -Como pretendes isto?
                -Tu ficarás escondido em meu corpo, enquanto estarei no seu, vestido como eu. Assim que ele avançar em ti, voltarei para meu corpo, saltarei nele, e o prenderei em meu coração. Não aflijas seu peito. Se tu morreres em meu corpo, voltas para o teu, e se eu morrer no teu, o mesmo acontecerá, tudo está bem feito.
“Então este é o mago que ouvira falar. Os próprios pecados fazem o mal deste homem.”
                -Tenho um débito vital, como disse anteriormente. Se eu morrer agora, quer dizer apenas que evitei a morte que me aconteceria a momentos anteriores; se eu sobreviver, terei a resposta de que a morte não viera para me pegar.

                Idosamente, ele pegou suas túnicas e entregou ao jovem, e as vestiu ao mesmo tempo. Um brilho claro e leve iluminava o rosto de ambos. Um capuz fora colocado e o brilho sumira das faces. Se postaram de pé, um na frente do outro. O velho soltou palavras sussurrantes e deu um sopro na direção da boca do homem. Já não se encontravam em corpos iguais, agora. O jovem levantou-se com seu novo corpo velho e fora para o canto da sala, o idoso postara-se de costas, sentado com a cabeça baixa. As horas passaram e nada de vozes sussurrantes ou de malditos aparecerem.
                O vento sussurrou.

Mate-me. Pegue-me, se for capaz.

                O homem então gritou: quem procuras está atrás de ti! E deu um sopro forte que apagou o fogo. O velho voltou para seu corpo e saltou. O vento continuava a falar:  tu não és páreo, fraco! Mal consegues pegar uma borboleta, quanto mais pegar a mim! E quem é este homem que com ti andas e a ti obedeces? Não creio que trouxe ele a tua loucura também?
                O velho gritava e esmurrava contra o vento. Soprou línguas de fogo, bateu o cajado no chão e pedras saíram de lá. O cavaleiro pulou por uma das pedras e consegui desviar-se. Sacou a espada e tentava encontrar o maldito invisível e também inaudível para ele. Via o velho gritando com o nada e atirando magias para cá e acolá. Surpreendia-se com a quantidade de maldições que o velho soltava ao maldito, e com a quantidade de magias. Catou um escudo que se encontrava perto da parede enquanto fogos estalavam e traziam medo e terror para o lugar. Já estava em seu corpo e com sua mente – se agora morresse, seria de vez.
                -Pare! Abra-te, minha mente!
                O menino viu então o espectro daquilo que o velho chamava de maldito, e não era senão o próprio velho enlouquecido dentro dele. O senhor soltou uma língua luminosa do cajado e o prendeu, mas o espectro era o próprio velho e se desprendeu de lá, correu para fora fazendo enorme barulho e destruição. O pobre senhor caiu de joelhos e o cavaleiro não pôde fazer nada. Era um mero instrumento para a ação do mago, e sem o mago, de nada serviria, mas também não era hora de servir a morte, pelo menos não a sua. A destruição feita na casa pelo velho fora irreparável. O pobre cavaleiro não sabia o que fazer, chegou perto do homem e o viu com seu peito aberto, com seu coração e sua corrente.
                O mago fizera alguns movimentos, puxara a corrente e lá estava: um bolo jamais desembolável.  Com suas mãos velhas segurou-o forte e disse:
                -Obrigado por estar comigo até o final. Salvei-te uma vez com minha loucura, mas agora morro por ela. O maldito, tu vistes, não vistes? – balançou a cabeça, o pobre cavaleiro. – Isso não importa mais, pois ele saiu da minha cabeça, não por feitiço, entretanto por sempre existir lá.
E agora a corrente se trava: não morrera como se apertasse o coração até a morte. Não estava morto, estava travado: a corrente não o matava, mas não impedia que a vida prosseguisse, ou então retrocedesse. Não há futuro nem passado, somente o agora. Todo o tempo se para e ninguém mais me ouve ou vê, para aquele mago, não há mais futuro nem presente: há uma corrente que não se desembola, nem pra frente, nem pra trás – um ponto parado no meio do tempo que jamais se desfará. Um mago que dos próprios pecados fez seu maior inimigo, o primeiro mago esquizofrênico de todas as eras.



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