Ele. Currere Vitae.
A sala
estava brancosa de tamanha luz.
-Abra-te,
mente! Liberte-me!
Do
verbo da voz, a luz sumiu.
-Maldito!
Da próxima pego-te sem que possas fugir!
Apoiando-se
no cajado, o pobre velho manteve-se com a pouca força que lhe restava.
Respirava, fatigado, fundo, devagar. Ainda podia sentir a voz sussurrante
rasgando seus ouvidos em meio ao barulho da luz que extinguida “você jamais me pegará, velho tolo.”. O velho andou na sala, arrastando seus pés na
pedra; sentou-se na cadeira. Com o braço na mesa, esticou-o e pegou um pão;
comeu. Gotejava o teto. A chuva lentamente caía após aquela luta enferma entre
o velho ancião e algo que nem mesmo ele saberia dizer.
Esticou
o cajado para a lareira apagada e, do cajado para lá, fez-se uma língua de fogo
e acendeu a triste escura lareira. Cinco estalados rápidos na porta fizeram o
mago levantar da cadeira assustadamente. E depois mais cinco. Não precisava
contar: a porta já fazia isso para ele. Sabia que o visitante não era esperado,
mas também sabia que aquele não poderia ser seu recente inimigo, já que bater
na sua porta não era necessário. Bateu seu cajado no chão e seu corpo esticou,
grudando nas paredes e teto e a porta abriu. Rapidamente se fechou, com o
cavaleiro entrando e segurando a porta.
-Quem
és tu e por que necessitas de abrigo? – Disse a temível voz do mago, ecoando
por toda a sala.
-Sou um cavaleiro em fuga. Deparei-me com uma perseguição e aqui venho pedir-lhe ajuda.
-Você viu o maldito que lhe perseguia?
-Não, meu bom salvador. Mas tenho certeza de que se o enfrentasse, eu não aguentaria.
-Só pode ser ele. Posso proteger-lhe, mas tu terás de me ajudar a combater este maldito. Não te preocupes quanto à vida, proteger-lhe-ei até que minhas forças acabem, mas não consigo derrotar a terrível criatura, pelo mesmo motivo que tu fugiste desesperado: não a vejo, apenas a ouço.
-Meu senhor, não acho que a criatura seja...
-Tu queres ser mandado ao relento para que morras?
-Não, meu senhor.
-Então te cala e ajuda-me!
-Sou um cavaleiro em fuga. Deparei-me com uma perseguição e aqui venho pedir-lhe ajuda.
-Você viu o maldito que lhe perseguia?
-Não, meu bom salvador. Mas tenho certeza de que se o enfrentasse, eu não aguentaria.
-Só pode ser ele. Posso proteger-lhe, mas tu terás de me ajudar a combater este maldito. Não te preocupes quanto à vida, proteger-lhe-ei até que minhas forças acabem, mas não consigo derrotar a terrível criatura, pelo mesmo motivo que tu fugiste desesperado: não a vejo, apenas a ouço.
-Meu senhor, não acho que a criatura seja...
-Tu queres ser mandado ao relento para que morras?
-Não, meu senhor.
-Então te cala e ajuda-me!
O velho
soltou um sopro e deslizou do teto para a parede, e da parede para o chão,
tornando à sua forma normal. O homem
ajoelhou perante o mago; este que ergueu suas mãos, e junto delas o cavalheiro
fora erguido também. Sentou-se novamente
e pôs-se a falar:
-Não
salvo ninguém há décadas, e peço que tu sejas capaz de realizar-me este último
desejo.
-O que desejas? Tenho um débito vital com o senhor!
-O que desejas? Tenho um débito vital com o senhor!
O mago
pegou uma faca que tinha um brilho azul claro e suave. Virou o gume para o peito e começou a
abri-lo. Fizera um semicírculo e puxou a carne. Logo após pegou um alicate que
brilhava verdemente, abriu as costelas e chamou o homem.
-Veja,
este é meu coração. Abaixe-se mais para que perceba direito.
-Curioso, muito curioso...
-Curioso, muito curioso...
Pobre
senhor enfiou a mão na sua caixa torácica e, por cinco minutos, ficou mexendo
em torno de seu coração. Retirou as mãos, e em meio a elas e ao sangue, havia
um pequeno cordão dourado, quase totalmente embolado.
-Querido
amigo, aqui há o meu cordão da vida! Todos os magos possuem um, e ele nos trás
duas opções: ou, com o tempo o cordão se embola e aperta o peito até a morte,
ou então o cordão se embola tanto que se torna impossível de que volte ao
normal. E essas são as duas maneiras de se morrer. Eu peço que me ajude, antes
que meu cordão se embole, ou aperte meu coração até a morte. Este maldito tem
me atormentado por semanas e não consigo derrota-lo!
-Estou aqui a seu serviço, meu senhor.
-Esteja, e prepara-te! Todas as noites, antes de eu dormir, ele aparece, e, espero que assim continue, para que possamos pegá-lo.
-Como pretendes isto?
-Tu ficarás escondido em meu corpo, enquanto estarei no seu, vestido como eu. Assim que ele avançar em ti, voltarei para meu corpo, saltarei nele, e o prenderei em meu coração. Não aflijas seu peito. Se tu morreres em meu corpo, voltas para o teu, e se eu morrer no teu, o mesmo acontecerá, tudo está bem feito.
-Estou aqui a seu serviço, meu senhor.
-Esteja, e prepara-te! Todas as noites, antes de eu dormir, ele aparece, e, espero que assim continue, para que possamos pegá-lo.
-Como pretendes isto?
-Tu ficarás escondido em meu corpo, enquanto estarei no seu, vestido como eu. Assim que ele avançar em ti, voltarei para meu corpo, saltarei nele, e o prenderei em meu coração. Não aflijas seu peito. Se tu morreres em meu corpo, voltas para o teu, e se eu morrer no teu, o mesmo acontecerá, tudo está bem feito.
“Então este é o mago
que ouvira falar. Os próprios pecados fazem o mal deste homem.”
-Tenho
um débito vital, como disse anteriormente. Se eu morrer agora, quer dizer
apenas que evitei a morte que me aconteceria a momentos anteriores; se eu
sobreviver, terei a resposta de que a morte não viera para me pegar.
Idosamente,
ele pegou suas túnicas e entregou ao jovem, e as vestiu ao mesmo tempo. Um
brilho claro e leve iluminava o rosto de ambos. Um capuz fora colocado e o
brilho sumira das faces. Se postaram de pé, um na frente do outro. O velho
soltou palavras sussurrantes e deu um sopro na direção da boca do homem. Já não
se encontravam em corpos iguais, agora. O jovem levantou-se com seu novo corpo
velho e fora para o canto da sala, o idoso postara-se de costas, sentado com a
cabeça baixa. As horas passaram e nada de vozes sussurrantes ou de malditos
aparecerem.
O vento
sussurrou.
Mate-me. Pegue-me, se
for capaz.
O homem
então gritou: quem procuras está atrás de ti! E deu um sopro forte que apagou o
fogo. O velho voltou para seu corpo e saltou. O vento continuava a falar: tu
não és páreo, fraco! Mal consegues pegar uma borboleta, quanto mais pegar a
mim! E quem é este homem que com ti andas e a ti obedeces? Não creio que trouxe
ele a tua loucura também?
O velho
gritava e esmurrava contra o vento. Soprou línguas de fogo, bateu o cajado no
chão e pedras saíram de lá. O cavaleiro pulou por uma das pedras e consegui
desviar-se. Sacou a espada e tentava encontrar o maldito invisível e também
inaudível para ele. Via o velho gritando com o nada e atirando magias para cá e
acolá. Surpreendia-se com a quantidade de maldições que o velho soltava ao
maldito, e com a quantidade de magias. Catou um escudo que se encontrava perto
da parede enquanto fogos estalavam e traziam medo e terror para o lugar. Já
estava em seu corpo e com sua mente – se agora morresse, seria de vez.
-Pare!
Abra-te, minha mente!
O
menino viu então o espectro daquilo que o velho chamava de maldito, e não era
senão o próprio velho enlouquecido dentro dele. O senhor soltou uma língua
luminosa do cajado e o prendeu, mas o espectro era o próprio velho e se
desprendeu de lá, correu para fora fazendo enorme barulho e destruição. O pobre
senhor caiu de joelhos e o cavaleiro não pôde fazer nada. Era um mero
instrumento para a ação do mago, e sem o mago, de nada serviria, mas também não
era hora de servir a morte, pelo menos não a sua. A destruição feita na casa
pelo velho fora irreparável. O pobre cavaleiro não sabia o que fazer, chegou
perto do homem e o viu com seu peito aberto, com seu coração e sua corrente.
O mago
fizera alguns movimentos, puxara a corrente e lá estava: um bolo jamais desembolável. Com suas mãos velhas segurou-o forte e disse:
-Obrigado
por estar comigo até o final. Salvei-te uma vez com minha loucura, mas agora
morro por ela. O maldito, tu vistes, não vistes? – balançou a cabeça, o pobre
cavaleiro. – Isso não importa mais, pois ele saiu da minha cabeça, não por
feitiço, entretanto por sempre existir lá.
E agora a corrente se trava: não
morrera como se apertasse o coração até a morte. Não estava morto, estava
travado: a corrente não o matava, mas não impedia que a vida prosseguisse, ou
então retrocedesse. Não há futuro nem passado, somente o agora. Todo o tempo se
para e ninguém mais me ouve ou vê, para aquele mago, não há mais futuro nem
presente: há uma corrente que não se desembola, nem pra frente, nem pra trás –
um ponto parado no meio do tempo que jamais se desfará. Um mago que dos
próprios pecados fez seu maior inimigo, o primeiro mago esquizofrênico de todas
as eras.


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