Um assunto, três verbos.
Abri
meus braços, olhei pra baixo, e deixei-me cair. Longa queda; cinco segundos
após cair, segurei minha cartola com a mão. Continuei a segurar, pois
continuava a cair. Caía, o vento passava sob mim, e para sobre mim ele ia.
Interessantes as sensações da queda: quanto mais se cai, mas se pensa sobre o
chão, não sobre o ato de cair. Eu, enquanto isso, caía e pensava sobre como
seria cair; não via o chão.
À
medida que ia caindo, eu ia vendo o vento passando por mim. Segurava minha
cartola; não queria perdê-la. Por que eu a segurava? Ah, sempre fui admirador
de belas roupas. Por que eu caía se queria manter-me com ela? Ah, não faço
ideia, simplesmente me atraiu, essa queda. Jogar-me de cara? Ah, faz bem de vez
em quando. Um pouco de ar na cabeça, sabe? Não sabe? Agora eu sei.
Fui
caindo e o chão se aproximava. Chão azul em meio a nuvens brancas – parecia até
o céu. Mas como eu cairia pro céu? Não acho muito certo cair pra cima, você
acha? Quedas são, geralmente, um pouco inclinadas para baixo e depois há o levantar,
jamais cair pra cima é um dos lemas da vida. Eu desci, desci, desci. Suave como
uma pluma, eu caí devagar – tão devagar quanto o possível, afinal, o que será
impossível? Se não sei, nem sei pra que existe tal palavra.
Bati.
Quase perdi a cartola, um pêsame seria. Do contrário do chão marrom, o chão
azul me afundou, afundei. Estranhamente não me afoguei. Ia descendo - a queda
continuava. Aquele azul escuro me fazia amar o que havia em minha volta mais e
mais. Aprofundava-me no azul e ele em mim à medida que eu ia descendo mais e
mais e mais e não parava de sentir ou de pensar ou sequer era capaz de
respirar.
Como
uma vírgula faz falta na hora de cair!, ou de afundar... O pavor não me tomava
conta pois cada gota me enchia mais, mas não esvaziava o que havia em volta. A
descida agora não era cheia do vazio ar, tinha tanto conteúdo em volta que eu
caía devagar, suave. Em alguns momentos, cheguei a pensar que não chegaria a
lugar algum. Entretanto, quanto mais se bebe da água, sem se afogar, mais água
se tem. Impossível não haver a tentação de soltar a cartola e aproveitar tudo
em volta, mas eu não podia perdê-la, era quase parte de mim. Maldita bendita
cartola!
Rodei.
Rodei um pouco mais. Agora eu era empurrado pelas águas enquanto a bebia
delicadamente sem me afogar. A cartola presa à mão e o corpo preso à água era
empurrado para baixo, ou para cima; não sabia mais. Enfim, eu agora, assim como
antes, não tinha controle da queda, ou da subida, e sentia que tudo podia
melhorar. Mas melhorar para que? A queda estava tão boa, a imensidão azul, e o
raciocínio acerca do chão que ninguém faz após bater nele.
Pensei
tanto que subi, subi e vi o céu novamente, mas não o mesmo céu. Não o mesmo
abismo, não a mesma água. Caí tanto que voltei a subir, submergi tanto que
voltei a subir. Enfim, olhei para o céu e pensei: que engraçado, caí pra cima,
afundei pra cima, e tudo isso porque apenas me joguei naquele lugar. Estranho, não? Mas afinal, o que isso tudo
tem a ver comigo?


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