Um assunto, três verbos.

21:54 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Abri meus braços, olhei pra baixo, e deixei-me cair. Longa queda; cinco segundos após cair, segurei minha cartola com a mão. Continuei a segurar, pois continuava a cair. Caía, o vento passava sob mim, e para sobre mim ele ia. Interessantes as sensações da queda: quanto mais se cai, mas se pensa sobre o chão, não sobre o ato de cair. Eu, enquanto isso, caía e pensava sobre como seria cair; não via o chão.
                À medida que ia caindo, eu ia vendo o vento passando por mim. Segurava minha cartola; não queria perdê-la. Por que eu a segurava? Ah, sempre fui admirador de belas roupas. Por que eu caía se queria manter-me com ela? Ah, não faço ideia, simplesmente me atraiu, essa queda. Jogar-me de cara? Ah, faz bem de vez em quando. Um pouco de ar na cabeça, sabe? Não sabe? Agora eu sei.
                Fui caindo e o chão se aproximava. Chão azul em meio a nuvens brancas – parecia até o céu. Mas como eu cairia pro céu? Não acho muito certo cair pra cima, você acha? Quedas são, geralmente, um pouco inclinadas para baixo e depois há o levantar, jamais cair pra cima é um dos lemas da vida. Eu desci, desci, desci. Suave como uma pluma, eu caí devagar – tão devagar quanto o possível, afinal, o que será impossível? Se não sei, nem sei pra que existe tal palavra.
                Bati. Quase perdi a cartola, um pêsame seria. Do contrário do chão marrom, o chão azul me afundou, afundei. Estranhamente não me afoguei. Ia descendo - a queda continuava. Aquele azul escuro me fazia amar o que havia em minha volta mais e mais. Aprofundava-me no azul e ele em mim à medida que eu ia descendo mais e mais e mais e não parava de sentir ou de pensar ou sequer era capaz de respirar.
                Como uma vírgula faz falta na hora de cair!, ou de afundar... O pavor não me tomava conta pois cada gota me enchia mais, mas não esvaziava o que havia em volta. A descida agora não era cheia do vazio ar, tinha tanto conteúdo em volta que eu caía devagar, suave. Em alguns momentos, cheguei a pensar que não chegaria a lugar algum. Entretanto, quanto mais se bebe da água, sem se afogar, mais água se tem. Impossível não haver a tentação de soltar a cartola e aproveitar tudo em volta, mas eu não podia perdê-la, era quase parte de mim. Maldita bendita cartola!
                Rodei. Rodei um pouco mais. Agora eu era empurrado pelas águas enquanto a bebia delicadamente sem me afogar. A cartola presa à mão e o corpo preso à água era empurrado para baixo, ou para cima; não sabia mais. Enfim, eu agora, assim como antes, não tinha controle da queda, ou da subida, e sentia que tudo podia melhorar. Mas melhorar para que? A queda estava tão boa, a imensidão azul, e o raciocínio acerca do chão que ninguém faz após bater nele.


                Pensei tanto que subi, subi e vi o céu novamente, mas não o mesmo céu. Não o mesmo abismo, não a mesma água. Caí tanto que voltei a subir, submergi tanto que voltei a subir. Enfim, olhei para o céu e pensei: que engraçado, caí pra cima, afundei pra cima, e tudo isso porque apenas me joguei naquele lugar.  Estranho, não? Mas afinal, o que isso tudo tem a ver comigo?

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