A Rosa

20:51 P.H. Dalboni 0 Comentarios







                De joelhos ele observava a rosa negra desabrochando. O caule opaco, as folhas que pareciam carbonizadas, e a força exterminadora de mundos que só uma flor é passível de fazer ao desabrochar. Aquela dor de nascer. Por sorte estava no deserto, e no fundo de si, o rapaz com barbas tão recém-nascidas quanto à flor, pensava ouvir o grito, o choro, o tapa que as parteiras dão em crianças para que chorem. Ele nunca chorou como a flor, ou como os bebês. Apoiou-se no chão árido e se respirou o pó subia com o vento.


                Olhou para os horizontes e a linha se mantinha contínua. Mas a rosa, a rosa que desabrochava, a rosa um pouco recostada na brisa suave lhe indicaria a direção, com certeza indicaria, pensava. Andou, embaixo do sol frio, do céu cinzento e da pouca luz esperançosa que guia os homens desesperados. Sempre na direção apontada pela flor de pétalas da noite. Abria os braços, se aquecia, e continuava a andar. Quanto mais andava, mais perto da linha do horizonte chegava, e quanto mais próximo da linha, mais se afastava. Quando a escuridão vinha e, sem lamparina caminhava, ele viu um grande salão, de teto triangular e paredes amarelas.


                Percebia o som pairando no ar ainda seco. Pandeiros, violões, baixolês, batuquins e outros estranhíssimos instrumentos eram tocados pelos homens. De longe, a fraca luz de velas dava conta da felicidade de todos. As moças traziam grandes copos com cerveja achocolatada, pães com mortadela e queijos de vacas desmamadas aos dez anos; por que os queijos recebiam esse nome não sabia, nunca se lembrou de uma vaca desmamada aos dez anos. Curioso, se aprochegou, sentou numa mesa e chamou a garçonete. Todos os que estavam em volta olharam, também curiosos, enquanto a música desafinava e abaixava lentamente. Observaram-no com atenção, olharam dos pés às mãos, e notaram até as cinzas na ponta dos dedos que foram deixadas lá, impercebidas por ele.


                Olhou ao redor, buscando uma salvação inútil. Quando viu um homem pequeno, esfarrapado, corcunda, com um sobretudo sujo e rasgado se perguntou o que era mais velho: se o velho, ou as roupas do velho. As bocas presas na lógica diriam que o velho era mais velho, já que as suas roupas vieram depois; os mais familiares diriam que as roupas foram uma herança; o rapaz, ah!, já o rapaz, diria que os dois nasceram juntos, ou que, se não, não importava. Disparou o nervosismo em suas pernas enquanto via o senhor-de-negro chegando, parecendo contar os passos. Observava, curioso, e agora nem mais se lembrava dos homens ao redor. A luz de velas fazia sombra embaixo do tão velho, também, chapéu e não conseguia identificar para onde olhava ou o que sussurrava. Só o via se aproximando. Se aproximando. Aproximando. O som voltando. E ele largou o corpo. Sentou-se à mesa do rapaz que não sabia o que falar pois agora percebia os olhos brancos do velho.


                - Boa noite. – Disse o senhor, tirando o chapéu e deixando à mostra agora as suas rugas, o sorriso amarelo e o cabelo branco, ralo, e falhado. – Desculpe ocupar tua mesa, mas é a mesa a que me sento todos os dias.
                - Ora, pois, não se incomode. Sou um mero visitante neste... – No fundo do seu ser não conseguia encontrar palavras para descrever o lugar no meio do nada em que estava.
                - Neste nada, é o que dizem. – Completou o senhor-de-negro. – O que fazes por aqui, jovem rapaz?
                - Procuro por meu pai. Sou advogado, vou processá-lo por abandono. E tu, o que fazes por aqui?
               - Sou o coveiro da cidade. As pessoas aqui gostam e desgostam de mim, a minha sorte é que, apesar da cegueira, eu posso enxerga-las.
                - E como cavas as covas? – Fingindo entender o que foi dito pelo velho, mas aprendeu a respeitar os mais velhos e sábios e assim o faria.
                - Com as pás em mãos. Como pretendes encontrar o teu pai?
                - Estou procurando as minhas pás, se é que me entende.

                Riram, saudosamente, e tomaram várias cervejas. Ali, o tempo passava lento e escorregadio, e os homens bebiam dos copos suados e gelados, e suavam, e cantavam, e gritavam, enquanto o dia não vinha. Em menos dos três longos dias em formatos de horas, o rapaz vira alguns homens que já tinha visto, mas um chamou-lhe mais a atenção que todos os outros: vestido de blusa vermelha, colete marrom e um chapéu que pareciam formar asas apontadas para o céu, tentava não acreditar, podia ser, mas podia não ser. Levantou-se abruptamente, e deixando o velho que já quase caía de tanto beber, foi ter com o homem não tão misterioso.


                - Olá, poderia saber o nome teu?
                - Só se tu disseres o teu primeiro.
                - Ora, mas se a pergunta primeira foi solta por mim...
                - As perguntas são animais, solte-as e elas te devoram. Mantenha-as nas coleiras, como eu, que tudo sairá bem. Ou melhor, não sairá.
                - Mas, pois, o que fazes aqui?
                - Apenas me felicito com amigos, e tu?
                - Advogo.
                - Contra quem? A favor de quem?
                - Não sei ainda. A favor de mim. Poderia me ajudar?
                - Talvez.
                - Vou fingir que sim.
                - ...
                - Qual teu nome?
                - ...

                Depois de quase cinco minutos em silêncio em que seus olhos se encontraram, se prenderam a ponto de desafiar as leis da resistência do ar o homem disse o nome. O rapaz sentiu como a rosa negra, desabrochando, cheia de dor, de vida, esperança, mas sem chorar. Os seus olhos abriram tanto que se pudessem roubariam toda a luz que protegia aquele lugar. Decidiu falar por mais tempo com o homem e conhecê-lo. Acumularia a raiva do homem que nem lembrava de seu filho, mas se enganou, as velas refletiam nos olhos do homem e o brilho fazia perceber o amor que sentia por todos. Deu meia volta e sentou na cadeira que estava há momentos. Voltou a falar com o velho:


                - Em que cidade trabalhas?
                - Naquela mais próxima.
                - E a quanto tempo de viagem fica?
                - Alguns dias, semanas, não sei. Mas cansa-me caminhar tudo isso em minha mente agora.
                - Ora... Vou-me para meu refúgio, então. Amanhã voltarei.


                Levantou-se, então, e seguiu para a rosa enegrecida. Seu esconderijo, sua caverna, sua proteção. Caminhou rapidamente na direção e logo chegou. Não se mapeava o céu, pois o céu não tinha estrelas nem nuvens; em verdade, não pensava em se mapear o céu. Abaixou a cabeça e tentou compreender. Conhecera o seu próprio pai, e ele era simpático, mas enigmático. Sentia que havia amor quando lhe falava, mas a sensação de abandono doía-lhe por dentro como uma facada. Lembrava-se das histórias das más línguas da casa: o Pai dele era tido como Pai de todos, e, ao mesmo tempo, abandonara a todos. Como podia um homem ser tão bom e cruel a ponto de ser Pai e não ser encontrado. O garoto então se tornou advogado e foi bater-lhe a frente.


                Acordou no outro dia, com a boca seca e os lábios cheios de pó, os olhos ardidos e o sol frio arrepiando lhe as costas. Levantou-se, deu de ombros, e pôs-se a caminhar para a direção que a rosa indicou no dia passado. A propósito, a flor parecia mais forte, e menos negra, mas ainda assim podia ser chamada de porto seguro pelo rapaz. Deu uma última olhadela e seguiu viagem. Próximo à noite, ele chegou ao lugar-nenhum. Novamente, as mesmas pessoas, os mesmos instrumentos estranhos e aquela música de se fazer acordar. Por tanto quanto antes ficou ali a conversar com as mesmas pessoas e algumas novas. Descobriu mais do trabalho do coveiro cego, e se divertia com suas histórias, com o seu pai ouvia dos grandes feitos dos homens e como se felicitava por pessoas quererem se aproximar e felicitarem-se com ele. Não se dizia dono, mas havia uma aura de respeito em torno do homem.


                Foi para casa descansar. A casa, embaixo da rosa. Protegido. A flor que crescia e se reforçava, mas ainda continuava a apontar um lado, para não desapontar seu protegido. Ela também queria a luz. Os desejos do jovem se mudavam, mas ainda assim havia o rancor: ele compreendia coisas mais do pai, e motivações de seu afastamento. Sem nada tomar, e com mais força que no dia anterior, se levantou e andou. A caminhada demorou bastante tempo mais. Cansado e irritado começou a se lembrar das leis dos homens, e dentro de si, a rosa que existia se despedaçava e seus espinhos cresciam a ponto de ficarem-se em si mesmos, causando a própria sangria. Escorreu uma lágrima assim que viu lugar-nenhum e, na noite que chegava, ele estendeu a mão, apontou ao homem e evocou as leis dos homens: - Abandono de incapaz! - Enquanto a música desafinava e parava o rapaz gritava; o homem ouvia. Foram dez minutos de grito, reclamação, remorso, rancor, asco, rima e ira.


                Abaixou-se o tom da voz e o vermelho da pele, o Pai, com seu chapéu apontado pro céu, respirou fundo e disse:


                - Se fosses realmente um incapaz, como diz, jamais chegarias aqui e me encontrarias. Se tivesse realmente lhe abandonado não achas que eu mesmo teria te mandado para cá e te recebido de braços abertos? Se realmente tivesses te largado, não me lembraria de ti e, no momento em que nos vimos, ficaria com os olhos tão vidrados em ti, por felicidade? Se não soubesse quem és, desde o início até o fim da tua vida, não saberia que a parteira não lhe bateu quando nasceu?


                A resposta veio em tom tão alto que fez todos ao redor quererem se ajoelhar pelo irmão perdido e sofrido. Mas o rapaz não, não se ajoelhou, esticou os dedos e evocou as leis dos homens novamente. Agrediu o próprio Pai que, em reação foi na direção do filho. Este tentou fugir, agora, amedrontado, pois parecia que o homem duplicara de tamanho. Correu, correu o máximo que pôde, até não aguentar mais, correu em direção a casa, correu em direção ao que achava ser sua família, correu na direção contrária ao Pai. Quando viu a rosa, parou, e respirou. Com as mãos apoiadas nos joelhos, puxava o ar tão rapidamente que arranhava o corpo por dentro. Sentia-se tranquilo pois o Pai agora estava longe, e tinha descarregado toda sua negatividade nele. Olhava o chão, e o chão continuou olhando quando um chute acertou-o no tronco. Como uma árvore velha, tombou.


                O Pai subiu em cima e bateu-lhe. Mas não eram socos e pontapés de raiva. Não. Nem tampouco coerção. Eram de correção. Pela primeira vez o rapaz chorava. Não apanhou, coitado, quando nasceu. Agora apanhava, e chorava, chorava o que tinha que chorar, chorava para aprender a não mais chorar, nem se entristecer. Jogava o luto embora, o quanto podia. Jogava tudo de ruim embora. Os espinhos que ficaram em si sangravam mais, sangravam lágrimas também.


                - Me espanque até a morte, se é isso que queres então. Deu-me a vida, pode-me tirá-la. É seu direito de homem.
                - Dei-te a vida, e posso tirá-la, mas não como homem. Escute filho, posso bater-lhe a noite toda, mas só posso bater-lhe o que sei que aguentarás, tu és meu filho, não escravo algum. Tu és meu filho, não animal algum. Tu és meu filho, e és amado, só não soube reconhecer todo meu amor e caminho. Tu, cheio de rancor, cegou-se, e transformou a rosa que te ajuda, em rosa negra. – Agora o rapaz encarava-o com os olhos mais arregalados que o sol e a lua. – Sim, eu sei da rosa, eu sei de ti. 


                O Pai deu um soco e fez o filho desmaiar.



                Nunca havia levado uma surra dessas. Nunca havia apanhado tanto em palavras e murros, nunca. O mais curioso, entretanto, era que quando acordou, no dia, com um sol levemente quente, não sentia dor alguma. Tampouco tristeza pelas palavras que lhe acertaram. Foi isso, pensava, não fui agredido, fui acertado. Viu, de repente, as leis dos homens ruírem na sua frente: como poderia tal contradição haver e não ser explícita? Colocou a mão perto do rosto e se levantou. Viu a rosa – agora as pétalas negras se descascavam, caíam levemente como a poeira no chão, e, ao mesmo tempo, se reerguiam, brancas, iluminadas com o novo sol. Agora não apontava em direção alguma, apontava ao céu. O jovem levantou-se, encheu os pulmões de ar: a garganta ainda doía da respiração rápida de ontem, e pôs se a caminhar para lugar algum.



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