O aquário do Oceano.

18:49 P.H. Dalboni 2 Comentarios



 O tempo passou enquanto aquele menino não sabia como fazer. O menino, que agora já era homem, parava sempre em frente ao mar observando seu longo azular e branquear, ir e voltar. O menino, menino que vinha tentando entender o seu impulso. Correu, saltou em meio à onda. Atravessou-a. O mar vinngou-se. Engoliu o pobre menino. Menino aquele que não amava a vingança, mas se tornaria amigo dela. Sua relação com a água não podia piorar. Ela engolia-o, ele socava-a. Ela desviava. Ela atacava, ele a acompanhava na sua crista.  

 Derrubado, engolido, ele saiu com uma explosão molhada. Quebrou a onda no meio. Apenas não vira que o mar o previra e mandara outra  que o engoliu antes enquanto ele engolia o mar. Fora salvo pela própria água, com ajuda do vento, e deixado a descansar na areia branca. O menino repousava, respirava bufante, vomitando os restos de oceano de dentro dele.     O tempo se foi e o mar continuou lá, vivendo tranquilamente. No farfalhar das ondas de pensamentos, o menino, agora homem, queria se vingar de todas as vinganças feitas pela água. Sentado de frente para o mar, tentou enfrentá-lo. Falhou. Novamente engolia enquanto era engolido. Saiu de lá; prestou-se à areia, branca, mas um pouco suja de rastros de outras pessoas.


 Com suas barbas longas ele deixava-se acariciar pelo vento. Teve uma ideia vinda com a areia e o balançar da barba: para dominar o mar, ele poderia fazer assim como quando era criança. Poderia aprisioná-lo. Mas não dentro de si, engolindo-o, pois o mar estaria o dominando. Já vira muito aquários prendendo peixes e água, então, por que não, um áquario pra prender o mar?    Não, não podia ser um aquário qualquer. Aquários pequenos não dariam nem para capturar uma onda. Ele precisaria de um grande aquário. Procurou livros antigos, aprendeu a fazer o vidro de gigantismo. Se isso pega até saci pererê, pegar o oceano não seria tão difícil. Levantou um enorme aquário de gigantismo. Chegava a um andar de altura.     Com todas as forças que suas barbas lhe deram e um dia tirariam, veio puxando o aquário em um carrinho. Aprisionaria todo o oceano e seria seu dono. Começou aos poucos, virava o aquário e a água entrava devagar. As ondas vinham, e, achava o homem, o próprio oceano suicidaria.

 Triste liberdade, triste vitória. Com alguns segundos a água já ocupava dois dedos do aquário. O dia se preparava para dormir enquanto ele continuava enchendo o gigante aquário. Tempos, tempos, tempos. A noite abraçava o homem e a maré já se demonstrava mais triste, cansada, sonolenta. Vinha devagar enquanto enchia o aquário. Enquanto isso, dentro do próprio aquário ondas se formavam. Lentas se empurravam. Batiam nas paredes de vidro e estremeciam o aquário à medida que a noite sumia.     O outro dia seguiu-se exatamente da mesma forma que o anterior, lento e doce com a vingança que o homem fazia. Alguns peixes já caíam dentro do aquário. O homem ia pegando a água como num balde. Entrava tanta água, e saíam tantas outras. Não, não estava falhando. Do contrário, o homem revoltado satisfazia-se a cada gota que entrava no aquário. Sua sede sumia com a água salgada. A água salgada também sumia do mar.

  Em algumas semanas o mar estava seco. Não seco; estava preso. Um pouco de vento também. Uma tampa foi erguida e fechou tudo. O Oceano balançava. A espuma branca fazia a calda do delicioso oceano. Via o farfalhar e o barulho baixo que saíam pelas entranhas da tampa. Deitado ao lado do aquário o homem dormia, repousava, descansava seus braços cansados e sua barba esbranquiçada. Sua respiração ritmava com as ondas do mar. Não ouvia. Dormiu por mais de um dia. Por mais de dois. Ou sete. Acordado ele via o leve balançar do mar. As águas pareciam estar tristes. Cansadas. As ondas, agora, não vinham mais rápidas e diminuíam até parar na praia, suavemente; elas batiam na vidraça, exceto agora. Se cansaram -  mal balançavam.


 O homem parou, olhou intrigado. Sobrancelhas altas e sede na boca. Lambeu os beiços tentando entender o que acontecia. O mar estava triste, quase negro. Sentia a tristeza do mar apenas vendo essa situação. A água encontrava-se acinzentada assim como a barba do homem. O dia não virara noite e a lua nunca mais fora vista no céu. Pobre moço. Percebeu que sua revolta fora contra si mesmo. O mar envelhecera, fraquejou e sem chances de viver, morreu. O homem envelhecera, fraquejou, e sem o mar para viver, morreu também.

2 comentários:

  1. A cada conto que leio de sua teoria, vejo que você mantém alguma forma de relação com a água. Não uma relação qualquer, física, de sede e saciedade apenas, mas uma relação poética, metafórica com a água.

    Nesse conto específico, a água é a metáfora da liberdade e da força, não apenas do Mar - sua essência -, mas também do próprio homem. Ao aprisionar o mar no “áquário da vigança e do orgulho”, o homem não percebe a tempo que aprisionara a si mesmo. Sua vingança foi sua própria derrocada. Em outras palavras, quando nós nos esforçamos para tentar sufocar a liberdade do outro, criando nossos áquários de preconceito e princípios morais conservadores, isolamo-nos do outro e, consequentemente, transformamo-nos amargas e tristes criaturas humanas.

    Parabéns, gostei muito!

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  2. Po, cara, valeu, de novo hahahaha :3

    só o final do comentário que eu não coloquei propositalmente no texto. Realmente, essa interpretação é possível, mas eu não havia pensado nisso hehehehe mas quanto ao resto, sim, foi por isso. O homem ele se prende, quanto mais tenta prender o mar. E também tem a questão da natureza e se voltar contra à criação, que no caso seria o Mar, e ao mesmo tempo em que ele tenta vencer isso, ele acaba se matando. Enfim, valeu por comentar :3

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