Aquele homem caído
Aquele
homem caído, estatelado no chão, poderia marcar a minha mente até hoje. Estava
cruzando o asfalto no meio da tarde e lá estava ele. Luzes vermelhas saíam e
entravam do meu campo de visão. A noite entrava em contraste com o vermelho
vivo e com o chão morto. Eu passava, caminhava assim como todos os dias para
minha casa, mas desta vez era diferente: aquele homem, aquele homem jogado no
chão, abraçando aquela essência morta como se fosse seu único resquício de
vida.
Eu
parei, como todo bom curioso da vida deve fazer; olhava sem conseguir enxergar
direito o que acontecia. Havia não só ele, mas muitas pessoas em volta, de pé,
observando, tão curiosas como eu sou bom vivente. Como boa alma viva, caminhei,
aliás; porque mamãe sempre dizia que viver é movimentar: ninguém vive parado. E
foi aí que obstinei-me na situação: não sabia de nada do que acontecia, muito
menos do que era viver.
Imagine-se:
atravesso a pista e, no meio vejo luzes vermelhas piscando, logo abaixo um
homem caído e em volta várias pessoas observando-o. Alguns diziam: vamos,
reaja! Outros, tão confusos quanto eu: O que está havendo aqui? Mas o fato
incontestável era que aquele homem encontrava-se ali, deitado, sub-vivo. Submerso
no ar noturno eu o vi: parecia balançar, tremeluzia, não permanecia ali,
somente deitado. O que fazia ele lá então? Do contrário que eu imaginava, não
morria. Pobre homem.
Todos
sabemos o que acontece com aquele homem que não morre quando deveria morrer:
ele vive, ele vive mais do que os outros poderiam viver e de uma maneira
diferente que a dos outros. Afinal, quem vive igual aqui? Eu estava
atravessando naquela hora cuja ninguém mais atravessava e vi o pobre homem
deitado. Após essa longa olhada e apenas dois passos dados – já que o
pensamento é bem mais rápido que a própria visão -, resolvi aproximar-me.
Quando
vi, o homem gemia palavras suaves e num tom tão baixo que era impossível não se
comover. Ele estava vivo, e trazia os outros para perto dele. O que faziam
todos? O que todos fazíamos ali? Por que tão perto? Foquei os olhos e os
ouvidos. Não havia mundo afora que me importasse depois disso; aquele homem
deitado trazia-me delírios exatamente por estar deitado em uma pista
movimentada e especialmente por ele ainda estar vivo. Não importava-me que
roupa usava, se era rico ou pobre, se era mulher ou mesmo homem. Importava que
ele estava ali, deitado, puxando meus olhos.
Suas
roupas eu não reconhecia, seu tênis inda menos, seu chapéu ou cabelo quem
diria. Eu só via ele lá, mas não o reconhecia, não saberia dizer se eu o visse
outro dia, caso eu ficasse vivo. Estranhamente, quanto mais eu tentava sair do
pensamento dele, menos eu conseguia, e quanto menos tentava, menos conseguia
também. Eu estava preso, preso. Quando com meus olhos fatigados e visão
embaçada vi todos aqueles pobres homens que estavam fazendo um semicírculo em
volta do coitado deitado, desfalecerem no chão. O homem lentamente levantou-se
olhou para mim e eu caí também. Antes de tudo tornar-se escuridão eu entendi ,
então, que para ele viver, morremos todos nós.


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