Aquele homem caído

09:57 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Aquele homem caído, estatelado no chão, poderia marcar a minha mente até hoje. Estava cruzando o asfalto no meio da tarde e lá estava ele. Luzes vermelhas saíam e entravam do meu campo de visão. A noite entrava em contraste com o vermelho vivo e com o chão morto. Eu passava, caminhava assim como todos os dias para minha casa, mas desta vez era diferente: aquele homem, aquele homem jogado no chão, abraçando aquela essência morta como se fosse seu único resquício de vida.
                Eu parei, como todo bom curioso da vida deve fazer; olhava sem conseguir enxergar direito o que acontecia. Havia não só ele, mas muitas pessoas em volta, de pé, observando, tão curiosas como eu sou bom vivente. Como boa alma viva, caminhei, aliás; porque mamãe sempre dizia que viver é movimentar: ninguém vive parado. E foi aí que obstinei-me na situação: não sabia de nada do que acontecia, muito menos do que era viver.
                Imagine-se: atravesso a pista e, no meio vejo luzes vermelhas piscando, logo abaixo um homem caído e em volta várias pessoas observando-o. Alguns diziam: vamos, reaja! Outros, tão confusos quanto eu: O que está havendo aqui? Mas o fato incontestável era que aquele homem encontrava-se ali, deitado, sub-vivo. Submerso no ar noturno eu o vi: parecia balançar, tremeluzia, não permanecia ali, somente deitado. O que fazia ele lá então? Do contrário que eu imaginava, não morria. Pobre homem.
                Todos sabemos o que acontece com aquele homem que não morre quando deveria morrer: ele vive, ele vive mais do que os outros poderiam viver e de uma maneira diferente que a dos outros. Afinal, quem vive igual aqui? Eu estava atravessando naquela hora cuja ninguém mais atravessava e vi o pobre homem deitado. Após essa longa olhada e apenas dois passos dados – já que o pensamento é bem mais rápido que a própria visão -, resolvi aproximar-me.
                Quando vi, o homem gemia palavras suaves e num tom tão baixo que era impossível não se comover. Ele estava vivo, e trazia os outros para perto dele. O que faziam todos? O que todos fazíamos ali? Por que tão perto? Foquei os olhos e os ouvidos. Não havia mundo afora que me importasse depois disso; aquele homem deitado trazia-me delírios exatamente por estar deitado em uma pista movimentada e especialmente por ele ainda estar vivo. Não importava-me que roupa usava, se era rico ou pobre, se era mulher ou mesmo homem. Importava que ele estava ali, deitado, puxando meus olhos.

                Suas roupas eu não reconhecia, seu tênis inda menos, seu chapéu ou cabelo quem diria. Eu só via ele lá, mas não o reconhecia, não saberia dizer se eu o visse outro dia, caso eu ficasse vivo. Estranhamente, quanto mais eu tentava sair do pensamento dele, menos eu conseguia, e quanto menos tentava, menos conseguia também. Eu estava preso, preso. Quando com meus olhos fatigados e visão embaçada vi todos aqueles pobres homens que estavam fazendo um semicírculo em volta do coitado deitado, desfalecerem no chão. O homem lentamente levantou-se olhou para mim e eu caí também. Antes de tudo tornar-se escuridão eu entendi , então, que para ele viver, morremos todos nós.

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