Notas no solo
O dia mal raiava e, como em todas as manhãs do ano, chovia. Não uma torrente de agulhas, mas pingos suaves, quase como bolhas de sabão. Tocavam o chão como a um piano. O ar fresco acompanhava o som e a respiração por baixo de três cobertores dos quatro moradores daquela casa afastada dançava com a brisa. Os braços se estendiam, os olhos se abriam e todos acordavam. O café estava na mesa.
O menino mais novo logo que acordava não se levantava,
esperava até que todos tivessem acordado para dar seu primeiro movimento, como
um predador, à espreita. O mais velho levantava e ajudava a mãe na horta atrás
da casa, regando e colhendo. O avô era tão parecido com o garoto mais novo que
também esperava todos acordarem para se levantar. Um jogo interessante.
O desjejum feito e a chuva caía. O avô chamava ao menino
mais novo todas as manhãs para ler na varanda e observar os campos espetados
pelas agulhas celestes. Também
distinguiam os sons e tentavam definir as notas que faziam no solo. A mãe
preparava o almoço e o menino mais velho descansava na cadeira de balanço.
Todos os dias, o mesmo dia.
No outro dia, a chuva caía, a família levantava, o livro era
lido, o campo olhado, o almoço feito, o descanso recebia repouso. No outro,
também. E no outro talvez nem valesse a pena dizer, mas a figura engraçada
chegou andando pela estrada quase apagada pelo tempo e pela água. Um homem. Um
homem grande, muito grande, e gordo. Tinha dois metros de altura e os rapazes
brincaram que ele tinha o mesmo tamanho para os lados. Olhe mãe!, olhe mãe! –
gritavam. As agulhas trincavam com os gritos e as notas do solo saíam
desafinadas.
O homem gordo passava por sobre as poças sem jorrar água
para fora, andava sob a água sem molhar parte alguma do corpo, da cartola ou
terno. Gravidade, por favor, conheça a leveza. Tão sutilmente e tão rápido ele
se aproximou que os garotos só podiam ouvir tais sussurros em suas mentes.
Perguntaram o que o homem queria, e ele respondeu: quero tudo aquilo que as
palavras me dão. – ele respondeu. Revidaram, alegando que isso não tinham não,
mas que podiam tentar ajudar com uma toalha ou um lampião pra se aquecer. Ele
negou, disse que precisava das palavras, não precisavam ser escritas, ou em uma
língua única propriamente, tudo que ele queria era o verbo.
Os olhos do velho estavam tão arredondados quanto a
circunferência do homem que a pouco chegara, o susto era grande demais para se
conter. Moço, precisamos de mais tempo pra pensar em como te ajudar. Não quer
entrar e ver se algo de nós lhe serve? Essa chuva machuca por demais. – Disse
tomando todo o cuidado para não ofendê-lo nem acalentá-lo demais. O homem negou
com a face. Posso ajudá-los, dizia sob o seu imenso bigode. Vocês estão
perdidos aqui?, finalizou. A suspeita era tamanha para todos os quatro da casa
que não conseguiam responder. Perdido aqui só o senhor, com todo o respeito,
meu senhor. Essa é nossa casa, não vê? Afirmou a mãe desejando que o homem logo
se fosse.
O homem riu entre pequenos pulos e andou alguns passos para
perto deles. Ora, não estou perdido, só quero a Palavra, minha senhora. Não
seriam as palavras, senhor? O mais novo indagava agora, sentia-se assustado e
queria acabar logo com isso. O homem gordo sorriu de novo e deu outro passo
para trás. Ficaram se observando por alguns segundos que pareciam eternos; os
pingos de chuva refletiam a luz de um sol esquecido e fincavam a melodia no
solo. O avô, então, de súbito, levantou-se da cadeira, foi para dentro da casa,
seguiu para a esquerda, virou no último quarto e observou a estante. Ora bolas,
se eu soubesse que era isso o que ele queria... o que custa falar desde o
início? Poupa trabalho e não incomoda o nosso dia. Repetia para si mesmo. Pegou
um livro grosso, mas pequeno, e saiu da casa, entregou ao homem e gritou para
com uma risada estridente: Dicionário! É o que ele queria! Palavras, o que elas
significam, em qualquer lugar, língua. Palavras, dicionário!
O menino mais novo olhava admirado para o avô, desejava ser
como ele algum dia; o mais velho, admirava o sorriso do recém-chegado ao ver o
dicionário; a mãe via a luz saltando de pingo para pingo, alegre. O homem
então, por baixo de seu bigode deu mais uma risada e começou a retirar as
palavras do dicionário, uma a uma. Não precisava falar, mas a gratidão estava
estampada em sua face. Se começou do A ou do Z não importava: ele colocava sua
mão na página, tirava uma, erguia, e comia. Uma a uma. Num ritmo lento, mas que
ao mesmo tempo não se percebia acontecer.
Comeu, comeu, comeu. Gravidade, sinta a leveza.
No fim de tudo, tendo novamente a gratidão em face, percebeu
uma última palavra e deixou-a para a família. Chuva, era o que estava escrito.
Chuva. O homem virou de costas e saiu andando, tão leve quanto antes, tão seco
e limpo, e maravilhado como antes. A família leu em voz alta o significado da
única palavra no meio das páginas em branco. Chuva. E, por cima do telhado, das
árvores, da grama, do solo, os pingos não caíram e as nuvens dissipavam. O sol
vinha lentamente, trazendo o ouro para a grama, a casa, os moradores.
O som da música parou.
Os pássaros começaram a cantar.



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