Leito de morte.
...
-Meu filho, realmente, não sou nada.
-Mas papai falou que você foi um homem muito importante para o mundo!
-Se eu realmente fosse importante, você saberia sem eu ter de lhe falar...
-Ora bolas! Eu tenho apenas sete anos! Não posso saber de tudo com tão pouca idade... E se você me contar, saberei mais rápido.
-Se não fosse tão chato, não pareceria tanto comigo, meu querido neto... Mas... Então ta... rumpf, rumpf... argh!
-Vovô, você está bem?
-Sim, sim... Um minuto.
-Deixe que te ajudo.
-Obrigado...
-Comecemos, então:
“Quando eu tinha quatro anos, se não me engano, queria viajar num navio... E foi exatamente isso que aconteceu. Meu papai foi lutar contra o grande mal, e pegamos um navio numa grande aventura. Nuvens negras saíam das grandes chaminés, e éramos recobertos por ondas azuis que se acinzentavam quando imitavam o céu. Tremores de água abalavam os estômagos de todos os tripulantes... Eles gritavam, ‘Vá para bomboooordo” “Vá para estibooooordo!”, e todos se escondiam, tentando fugir das águas frias que cobriam nossos corpos.
Após chegar a terra, fomos para uma cidadezinha onde terra era que nem o mar: tudo. Ajudei a construir uma casinha...”
-Com três anos de idade?
-Sim, com três anos de idade! Por que não?
-Nada... E ainda diz que não era diferente ou importante.
-Sim, com três anos de idade! Por que não?
-Nada... E ainda diz que não era diferente ou importante.
-Nhaaa...ha.ha.ha...
“Montamos a casinha e compramos bois... Eu cuidava dos bois, até que um dia... um dia... choveu muito... e ficou tudo preto novamente... Parecia que a terra iria virar de cabeça para baixo, assim como o barco... Eu já tinha sete anos e vi uma cabrinha lá... sozinha… perdida no mar de gramas. Os capins agitavam como as ondas do mar, e de novo tudo estava negro. Agora, porém, eu não tinha minha mãe para me proteger – tinha somente o telhado... E tinha uma cabritinha para ser protegida além de mim, também. Saí correndo, peguei a cabritinha pelas mãos e a levei para dentro de casa.”
-E depois, o que aconteceu com ela?
“Falaram que a cabritinha fugiu, e que eu não dei três passos para longe de casa. Acordei assim, que nem agora, numa sala vazia. Tinha gente cuidando de mim... Umas moças bonitas vinham e falavam que ia doer um pouquinho, mas que eu não precisava chorar... E eu respondia que não doía, por mais que elas insistissem ou se comovessem.”
-Vovô?... Vovô?...Então o que aconteceu quando você salvou a cabritinha?
-Não, eu não salvei.
-Não, eu não salvei.
-Mas... Espere... Como não?
-Caindo, meu neto, caindo:
“Nem me lembro quando saí daquela saleta branca. Mas se saí, foi para um salão pior. Era praticamente uma caixa quadrada, onde só tinham coisas cinzas. Eram vários cubos cinzas, paralelepípedos cinzas, pessoas cinzas, pessoas quadradas, nuvens quadradas, nuvens cinzas. Vim para a cidade onde, com quatorze anos, fui trabalhar na construção da linha de trem. Eu gostava do som estalado das picaretas e dos martelos batendo.
Oh! Tempos de fúria e de glória! Meu netinho... nada mais é como era antes... nada mais!”
- E como eram as coisas antes? Hein vovô. Não pare!
- Era tudo mais! E tudo menos! As pessoas eram livres, faziam o que queriam, não tinham medo de morrer, mas sabiam dar valor a vida. Hoje ninguém mais valoriza a vida. São poucos os que sobrevivem e ainda vivem por dentro, meu filho.
_______________________________________________________/\____
“Eu não vivo mais há muito tempo... Desde o dia que eu prendi o pé num dos trilhos do trem, no final da construção. Quando, daí, um amigo meu foi me ajudar a tirar o pé preso, e, de súbito, um carregamento caíra exatamente onde ele estava. Fui altamente congratulado por sobreviver, mas, como o céu escurecia, tive de ir embora para casa com a mamãe....
Meu pai nunca mais voltara desde o dia do barco. Trabalhei muito para sustentar minha mãe. Minha mãe trabalhou muito para me sustentar. Fiz o máximo que pude para deixá-la orgulhosa. Atravessei ruas ajudando senhoritas, paguei cafés para os mendigos, doei roupas no inverno, trabalhei como palhaço para alegrar algumas crianças - mesmo eu sendo uma criança - tinha de ajudar outras crianças. Minha mãe dizia que eu não tinha feito nada disso, já que eu realmente não o fazia, na verdade, eu não era bom. Várias pessoas ganhando prêmios, sendo eleitas presidentes, Nobel da paz, chave da cidade, televisão, e eu, sendo um A.A. (animador anônimo) que na verdade nem fui.
__/\__________________________________________________/\______
Na verdade, de que adianta eu ser agora, meu neto? Tantas histórias e você nem precisa saber disso para viver. Por que quer tanto saber?
Eu fui criança mimada, tentei ajudar as pessoas e animais, mas sempre fiz a coisa errada. Minha mãe me repreendia... e eu não fazia direito... quando era já adulto, consegui trabalhar num jornal... Minha luta era diária pra falar mal dos maus e bem dos bons. Na adolescência estudei e trabalhei no trem. Carregava carvão, e depois falei mal dos que me faziam carregar carvão. Falei bem dos que nos tratam bem e falei mal dos que falavam mal dos outros. Não fui lá uma pessoa muito boa, como visto... E não sei da onde seu pai tirou que fui uma boa pessoa...
___________________________/\___________________________________
Ora bolas! Mesmo assim fui bom? Claro que não... Não recebi nada em troca além de demissões, contas, inimizades e tudo mais, apenas por fazer isso! Sabe querido, não vale à pena isso tudo, entende? Apenas siga a sua vida e seja bom... Seja bom no que faz! Não é isso que ensinam na escola hoje? Seja bom no que faz e ignore os outros, afinal, temos que cuidar da nossa vida...
Ora bolas! Mesmo assim fui bom? Claro que não... Não recebi nada em troca além de demissões, contas, inimizades e tudo mais, apenas por fazer isso! Sabe querido, não vale à pena isso tudo, entende? Apenas siga a sua vida e seja bom... Seja bom no que faz! Não é isso que ensinam na escola hoje? Seja bom no que faz e ignore os outros, afinal, temos que cuidar da nossa vida...
E da dos outros também... bem melhores que a nossa... porque... no final mesmo... eu não passei de um nada, neste mundo azul...”
_______________________________________________________________
Meu avô... Quantas saudades! Sei que na cama do hospital, ao começar a me contar sua grande história de vida, não terminara - mal começara. Queria ter escutado, mas, no final das contas, eu escutei sem ouvir. No final das contas, apenas me resta o consolo, já que algum dia, eu serei nada também - e nada do lado dele, pelo menos.


0 comentários: