Fome.

17:38 P.H. Dalboni 5 Comentarios


                Ele estava sentado no sofá da sala, olhando para a luz que entrava pelas frestas da persiana. Observava mais as sombras que a luz; tinha interesse, pois não conseguia enxergar o que havia lá, nem se quisesse: seria preciso um mergulho, procedido de afogamento. Sentia-se mais perdido ainda por tentar encontrar motivo nas motivações das pessoas: dinheiro, comida, prazer, felicidade.

 Na verdade, ele não entendia o vazio que tinha em si mesmo. Um buraco, em seu peito. Um buraco feito não por balas, nem por facadas, ou ferimentos: era pior, bem pior; um buraco que machucava a alma. Toda vez que pensava, recordava-se da frase que todos diziam – Sensação de vazio? Podes crer que é fome. E, desde então, ele dizia que tinha fome, e queria comer. O que comer, ele não sabia.

Pensava nas vezes em que foi para a rua, e lá, à noite, comia bastante. Comia guloseimas, comia pratos abastados, bebia garrafas e garrafas de líquidos saborosos que enchiam o beiço de sabor e cor. Mas não matava a fome. Então, cansado de não matar a fome, ia para as boates, arranjava uma ou duas mulheres, e comia. Dessa vez, não mastigava,  dizia se tratar de outro comer e, mesmo assim, qualquer outro tipo de fome que fosse não era satisfeita.

Acordava no outro dia, e resolvia só sentir fome. Ficava na cama, gemendo, reclamando, e se remoendo por dentro. Em sua mente os pensamentos se passavam dizendo que se ele não gastasse energia, não precisaria comer, e não teria o tal vazio. Mentira, a fome aumentava e os gemidos e reclamações também. Levantava-se, então, de mau humor, saía para comprar qualquer coisa de comer, e comia. Se alguém apresentasse um mínimo de contrariedade a ele, era atacado como um feroz leão faminto. Certa vez chegou a morder um atendente que se recusou a vender mais comida.

Baixou a cabeça e olhava a luz pela persiana. Era bem mais agradável que a sombra de se ver, mas ainda assim doía os olhos se a enfrentasse.

Se pudesse, comeria a luz.

Olhando fixo, lembrava-se dos grandes economistas e trabalhadores do grande mercado de bolsas e comércio. Se identificou: faminto por dinheiro, por passar acima dos outros. Ele saciaria ali algum tipo possível de fome que sentia, com certeza. Arrumou-se com a roupa mais fina: um terno caro, sapatos importados de animais em extinção e, no primeiro dia de trabalho, foi com o nariz empinado e afirmando – Preparem-se, pois o mais faminto dos leões chegou! Já pediria demissão, se fosse vocês.

Foi demitido em pouco tempo, acusado de roubar clientes e fazer outros mais comprarem sem pensar. Ele agora tinha raiva, pois todos os outros leões menos famintos conseguiam trabalhar, e todas as outras pessoas conseguiam viver. Lembrava-se da sensação de perder o controle pela última vez. Queria bater em cada um deles, por não serem tão famintos e não valorizarem sua voracidade. A imagem perfeita permanecia na mente enquanto olhava para o lado escuro projetado pela persiana: abaixou; puxou a maleta debaixo da cama; abriu a maleta; pegou todas as reservas de dinheiro que tinha - e comeu.

Comeu.

Mas a fome não se saciou.

E agora ele fitava, novamente, a persiana. Via que ela tampava a luz e projetava a sombra. Ela era a culpada de não fazê-lo ver nem um nem outro. Não via a sombra, pois escura assim a é. Não via a luz, pois não sabia que não se pode encará-la, apenas apreciar. Sentia fome. Se pudesse comia tudo. Mas não podia. Então o desejo surgiu pequeno em sua mente e cresceu, como sua fome, como o buraco no peito. Ele estendeu o braço, e colocou a mão entre os dentes. Em pouco tempo, seu corpo havia sido devorado pela própria boca.


 E a fome não cessou.

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O garoto que veio antes da selva.

14:11 P.H. Dalboni 2 Comentarios


                O grão de poeira voava desordenadamente pelas ruas da cidade cinza. As ruas, vazias, não apresentavam nenhuma resistência ao voo. E o grão seguia, esculpido e cuspido das chaminés, não tinha intenção de atingir ninguém, apenas voar e espalhar-se por aí. Um rosto distraído, de um jovem, sentado a esperar o ônibus chegar, admirava as toneladas de pó jogadas ao ar. Desceu os olhos e puxou o ar.

                Não esperaria muito daquele dia, até por que, como um dia normal, não haveria ninguém nas ruas, nem mesmo sabia se o ônibus o salvaria dali. O sol subiu aos céus e a espera do garoto continuava. Não sairia dali; era mais saudável. Abriu os braços e se posicionou fora da sombra. Abriu os olhos em direção ao céu; a poeira o atingiu. Em movimentos bruscos e desengonçados ele tentava tirar a poeira, mas falhava. A cada tentativa sentia-se coçar mais e nada lhe restou a não ser a risada para acompanhar a tragédia.

                O vento que trouxe o grão foi o mesmo que trouxe as folhas: secas e verdes, entre sementes e outros grãos pesados. Mal percebia o que estava acontecendo a sua volta. Conseguiu retirar com os olhos avermelhados o incômodo. Quando voltou a olhar, a rua agora estava cheia. Cheia não de pessoas, mas de folhas, grãos e sementes voando. O toque e tinir que faziam ao deslizar sobre o ar e asfalto agradavam à audição. Era uma música que não ouvia há tempos; tempos em que o ônibus o deixava em bosques, selvas, e florestas tropicais e frias.

                Sentia saudades.

                Voltou a respirar o ar quente do sol, e tinha em mãos uma semente que chegara voando. Olhava o fim da rua, e nada de ônibus, nem mesmo a sombra ou reflexo da possibilidade dele estar ali. Via o vapor subir, mas não sentia sede. Lambeu os beiços e engoliu a semente. Deitou-se à sombra para descansar; e descansou. Ficou de olhos fechados até o rufar daquilo que pareciam tambores obrigaram-no a abri-los. Tocavam tantas notas separadas e trocavam o ritmo toda hora.

                Olhava agora, atento, para o outro final da rua, tentando distinguir o que se passava por entre os prédios amarelos e cinza. O que acontecia além do estacionamento vazio; além do boliche vazio; além do vazio, vazio. Observava e via o vapor sair do asfalto, e nada mais. Olhava para o outro lado e nada. A esperança crescia no seu peito, de tanto esperar. E refletia sobre o que seria esperar sem esperança, e esperança sem esperar. O calor, certamente, afetava o pensamento pobre do garoto. Sem respostas, tornou-se à calçada e deitou. Novamente dormira e, ao som das rufadas, acordou. Porém, agora, era diferentemente.

                Ao fundo, via pequenos prédios com braços finos e cheios de lanças que andavam à sua direção. Pegou uma semente; mordeu; soprou. O vento a levou. A cada passo ele distinguia mais os andarilhos errantes: não eram prédios, tampouco humanos. Eram troncudos, grandes, amarronzados, espetados e traziam folhas consigo. Eram a fonte de seu vento, eram a esperança maior que o ônibus.

                Eram árvores.

                Árvores, pequenas, grandes, com vários galhos e ramificações. Não eram entes, como os mitológicos, eram apenas árvores que caminhavam por sobre suas enormes raízes e rostos nada pálidos e muito enrugados. Entretanto, não andavam como homens, nem arrastavam-se como bichos tristes: vinham dançando ao som da música de homem algum. Sambavam, ornamentadas em raios de sol, trazendo a luz com o vai e vem das folhas farfalhantes, que chacoalhavam o ar, o céu, e as nuvens.


                O menino sentia-se feliz por ter a tristeza de não ter visto o ônibus chegar para levá-lo ao bosque, às florestas e selvas, pois agora, ele tinha a sorte: ele era o garoto que veio antes da selva chegar.

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Flores nos ombros

18:40 P.H. Dalboni 0 Comentarios


                Todos os dias em que ele saía de casa as pessoas olhavam torto para sua figura. Não era pelo fato dele sempre sair usando roupas com ombreiras, mas sim por nestas ombreiras terem flores postas. As raízes escorriam sob seus ombros e tocavam-lhe o peito. Ia sempre com um sorriso no rosto, cumprimentando quem quer que fosse, e isso só atraía mais o olhar.

                Alguns diziam que as raízes moviam-se como se vivas; outros, que ou as plantas eram de mentira, ou o homem era louco por trazê-las assim e matá-las. E nenhuma das duas era verdade. Toda manhã ele olhava no guarda-roupa e escolhia não de acordo com o seu humor, mas de acordo com o que o dia precisava.

                De fato, não adianta sempre fazer o que se quer, ainda mais quando se tratam de flores: sua beleza independente do local; o seu viver em locais jamais imaginados; o seu ser flor. Talvez, as pessoas até poderiam dizer que as flores que escolheram o homem e não ele a elas. Mas quem saberá?

                Provavelmente, só sabiam que era assim: andava todas as manhãs; depois todas as tardes; e aí todas as noites. Eu gostava de observar aquele homem com as ombreiras floridas. Admirava as pessoas que o viam passar e abriam sorrisos ou tentavam disfarçar o olhar espantado – transmitiam felicidade. As flores, benditas, olhavam de volta, entretanto não era possível, até que os outros perceberem seu olhar, e importância.

                Dos dias que se passavam, um após o outro, o homem começou a perceber risinhos indiscretos. Deboches. E eu que o observava no pouco tempo que o tinha na vista, notei que eram nocivos. Daí em diante, começou a aparentar na face um sorriso tristonho. Os olhos caíram, e rugas apareceram-no. As flores, por consequência, começaram a perder a cor. Em pouco tempo elas pareciam a noite, com poucos resquícios de luz – pequenas estrelas.

                E pelas noites tristes em que eu via flores no céu, comecei a perceber a tristeza do senhor. A barba já estava branca, e o cabelo raleando. O número de flores em seu ombro caiu e eu notava, pelo mesmo motivo, porque as outras pessoas não tinham flores em seus ombros. Não pelo riso alheio, mas pelo riso a si próprios. E mesmo entendendo, não sabia como ajudá-lo: talvez, falar-lhe que essa sua unidade era linda e trazia a felicidade para outras pessoas não traria o efeito desejado.

                Abaixei a cabeça, e perdendo-o de vista pela imensurável rua, fui repousar. Refletia: realmente, talvez as flores o escolhessem, mas se ele não as escolhesse também quem dirá que flores se apoderaram do seu ombro? Um apoderamento consentido? Quem dirá ver flores no céu, e estrelas nas flores. Quem diria, talvez fosse demais para a compreensão de quem se dizia entender – a minha compreensão.

 Agora, mais do que nunca, entretanto, eu queria compreender: o homem, as flores, os risos, e a ajuda para com ele seria uma consequência do meu aceitar.

                Abaixei a cabeça e dormi. Quando acordei, o outro dia nascia. O sol, as nuvens laranja, o pouco movimento na rua. Fui para a janela observar o senhor, com esperança de que ele pudesse estar melhor hoje. Nada vi. Mas também, esperar que o homem saísse mais cedo que de seu horário usual foi incrivelmente estranho. Tal como, resolvi caminhar, ver o dia, o vazio de pessoas no asfalto. Faz tanto tempo que não saía: minha família ficaria orgulhosa. Abri a porta do guarda-roupa, e nos cabides tive uma das mais belas surpresas que uma pessoa pode ter: casacos com ombreiras floridas. Bem, só restava a mim, escolher ou não o casaco.



                Quando saí de casa, obtive outra linda surpresa: o meu vizinho saía de sua moradia, com um casaco florido também, um pouco entristecido – claramente -, mas a me ver, eu pude notar um sorriso surgir em seu rosto, não tristonho, e as flores crescendo novamente, apontando para o céu que amanhecia, virando estrelas, e as estrelas, um pouco apagadas no amanhecer, viravam flores. Agora eu entendia o que eram as flores.

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