Fome.
Ele
estava sentado no sofá da sala, olhando para a luz que entrava pelas frestas da
persiana. Observava mais as sombras que a luz; tinha interesse, pois não
conseguia enxergar o que havia lá, nem se quisesse: seria preciso um mergulho,
procedido de afogamento. Sentia-se mais perdido ainda por tentar encontrar
motivo nas motivações das pessoas: dinheiro, comida, prazer, felicidade.
Na verdade, ele não entendia o vazio que tinha
em si mesmo. Um buraco, em seu peito. Um buraco feito não por balas, nem por
facadas, ou ferimentos: era pior, bem pior; um buraco que machucava a alma. Toda
vez que pensava, recordava-se da frase que todos diziam – Sensação de vazio? Podes
crer que é fome. E, desde então, ele dizia que tinha fome, e queria comer. O
que comer, ele não sabia.
Pensava nas vezes em que foi para
a rua, e lá, à noite, comia bastante. Comia guloseimas, comia pratos abastados,
bebia garrafas e garrafas de líquidos saborosos que enchiam o beiço de sabor e
cor. Mas não matava a fome. Então, cansado de não matar a fome, ia para as
boates, arranjava uma ou duas mulheres, e comia. Dessa vez, não mastigava, dizia se tratar de outro comer e, mesmo assim,
qualquer outro tipo de fome que fosse não era satisfeita.
Acordava no outro dia, e resolvia
só sentir fome. Ficava na cama, gemendo, reclamando, e se remoendo por dentro.
Em sua mente os pensamentos se passavam dizendo que se ele não gastasse
energia, não precisaria comer, e não teria o tal vazio. Mentira, a fome
aumentava e os gemidos e reclamações também. Levantava-se, então, de mau humor,
saía para comprar qualquer coisa de comer, e comia. Se alguém apresentasse um
mínimo de contrariedade a ele, era atacado como um feroz leão faminto. Certa vez
chegou a morder um atendente que se recusou a vender mais comida.
Baixou a cabeça e olhava a luz
pela persiana. Era bem mais agradável que a sombra de se ver, mas ainda assim
doía os olhos se a enfrentasse.
Se pudesse, comeria a luz.
Olhando fixo, lembrava-se dos
grandes economistas e trabalhadores do grande mercado de bolsas e comércio. Se
identificou: faminto por dinheiro, por passar acima dos outros. Ele saciaria
ali algum tipo possível de fome que sentia, com certeza. Arrumou-se com a roupa
mais fina: um terno caro, sapatos importados de animais em extinção e, no
primeiro dia de trabalho, foi com o nariz empinado e afirmando – Preparem-se,
pois o mais faminto dos leões chegou! Já pediria demissão, se fosse vocês.
Foi demitido em pouco tempo,
acusado de roubar clientes e fazer outros mais comprarem sem pensar. Ele agora
tinha raiva, pois todos os outros leões menos famintos conseguiam trabalhar, e
todas as outras pessoas conseguiam viver. Lembrava-se da sensação de perder o
controle pela última vez. Queria bater em cada um deles, por não serem tão
famintos e não valorizarem sua voracidade. A imagem perfeita permanecia na
mente enquanto olhava para o lado escuro projetado pela persiana: abaixou;
puxou a maleta debaixo da cama; abriu a maleta; pegou todas as reservas de
dinheiro que tinha - e comeu.
Comeu.
Mas a fome não se saciou.
E agora ele fitava, novamente, a
persiana. Via que ela tampava a luz e projetava a sombra. Ela era a culpada de
não fazê-lo ver nem um nem outro. Não via a sombra, pois escura assim a é. Não via
a luz, pois não sabia que não se pode encará-la, apenas apreciar. Sentia fome.
Se pudesse comia tudo. Mas não podia. Então o desejo surgiu pequeno em sua
mente e cresceu, como sua fome, como o buraco no peito. Ele estendeu o braço, e
colocou a mão entre os dentes. Em pouco tempo, seu corpo havia sido devorado
pela própria boca.
E a fome não cessou.


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