Sem tido.
Começou perdendo a audição.
Triste destino para aquele velho rabugento. Tinha uma família que o cuidava com
carinho, mas sua cara nunca mudava. Tentavam dizer-lhe coisas, aconselhar;
não adiantava. Por mais que seus familiares, o avô não ouvia o curandeiro. Não
tomou as medicações, não quis usar o aparelho, e, a pior de todas as rebeldias:
não o escutou. A causa da surdez foi o não querer ouvir ninguém.
Para a preocupação dos familiares,
o pobre senhor, como triste consequência da surdez, parou de ver. Sim, de ver,
e não de falar, como muitos pensam. Havia, por certo, decaído sua capacidade de
comunicar: falava ou muito baixinho, ou muito alto. A linguagem de sinais era
uma opção alternativa para quando ele encarava os limites. Parou de ver a sua
rua, a sua sala, as árvores, o céu, tudo. Aos poucos aquilo que era fino
tornou-se embaçado. O que era certo ficou confuso, e o que era já não era mais.
Consequência de se não ouvir e de não se ver, é que agora
não poderia mais falar. Não tinha razão, não via, não ouvia, mal tinha qualquer
recepção de informação. Antes negava a tudo, e tudo agora lhe era negado. Por
não ouvir nada, ficou surdo; por não enxergar o mundo, ficou cego; por não
poder pensar e comentar – sem gritar ou falar para ninguém ouvir -, ficou mudo.
Sobrara-lhe então o essencial. O sentir. Sentia coisas em suas mãos, o cheiro e
sentia o gosto das coisas. Não importava, apenas sentia.
De tanto
não se importar, parou de sentir o mundo ao seu redor. Acabou-se o tato. A filha
e a neta o tocavam, mas não sentia nada. Mal se mexia. Passou a se deitar,
praticamente em estado vegetativo. Agora que não podia protestar, foi mandado
para o curandeiro. Estava num quartinho separado, numa construção depravada de
velha. A família visitava-o de dias em dias, porém o velho não via, ouvia,
falava, ou sentia.
Com o pouco de tempo que lhe
restava, a comida perdeu o gosto. Os sabores da vida desapareceram. O pouco
sentir que lhe restava, agora não restava mais. Poderia dizer que ainda tinha o
pensar, mas o pensar o abandonara no momento que deixou de ouvir os outros. De
tanto não se ouvir, parou de ver; e depois de falar; e depois de sentir. Sequencias
da vida de um surdo, cego, mudo, e agora, sem sentimento algum.


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