Sem tido.

18:44 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Começou perdendo a audição. Triste destino para aquele velho rabugento. Tinha uma família que o cuidava com carinho, mas sua cara nunca mudava. Tentavam dizer-lhe coisas, aconselhar; não adiantava. Por mais que seus familiares, o avô não ouvia o curandeiro. Não tomou as medicações, não quis usar o aparelho, e, a pior de todas as rebeldias: não o escutou. A causa da surdez foi o não querer ouvir ninguém.
Para a preocupação dos familiares, o pobre senhor, como triste consequência da surdez, parou de ver. Sim, de ver, e não de falar, como muitos pensam. Havia, por certo, decaído sua capacidade de comunicar: falava ou muito baixinho, ou muito alto. A linguagem de sinais era uma opção alternativa para quando ele encarava os limites. Parou de ver a sua rua, a sua sala, as árvores, o céu, tudo. Aos poucos aquilo que era fino tornou-se embaçado. O que era certo ficou confuso, e o que era já não era mais.
Consequência de se não ouvir e de não se ver, é que agora não poderia mais falar. Não tinha razão, não via, não ouvia, mal tinha qualquer recepção de informação. Antes negava a tudo, e tudo agora lhe era negado. Por não ouvir nada, ficou surdo; por não enxergar o mundo, ficou cego; por não poder pensar e comentar – sem gritar ou falar para ninguém ouvir -, ficou mudo. Sobrara-lhe então o essencial. O sentir. Sentia coisas em suas mãos, o cheiro e sentia o gosto das coisas. Não importava, apenas sentia.
            De tanto não se importar, parou de sentir o mundo ao seu redor. Acabou-se o tato. A filha e a neta o tocavam, mas não sentia nada. Mal se mexia. Passou a se deitar, praticamente em estado vegetativo. Agora que não podia protestar, foi mandado para o curandeiro. Estava num quartinho separado, numa construção depravada de velha. A família visitava-o de dias em dias, porém o velho não via, ouvia, falava, ou sentia.

Com o pouco de tempo que lhe restava, a comida perdeu o gosto. Os sabores da vida desapareceram. O pouco sentir que lhe restava, agora não restava mais. Poderia dizer que ainda tinha o pensar, mas o pensar o abandonara no momento que deixou de ouvir os outros. De tanto não se ouvir, parou de ver; e depois de falar; e depois de sentir. Sequencias da vida de um surdo, cego, mudo, e agora, sem sentimento algum.

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