Notas no solo

21:22 P.H. Dalboni 0 Comentarios




O dia mal raiava e, como em todas as manhãs do ano, chovia. Não uma torrente de agulhas, mas pingos suaves, quase como bolhas de sabão. Tocavam o chão como a um piano. O ar fresco acompanhava o som e a respiração por baixo de três cobertores dos quatro moradores daquela casa afastada dançava com a brisa. Os braços se estendiam, os olhos se abriam e todos acordavam. O café estava na mesa.


O menino mais novo logo que acordava não se levantava, esperava até que todos tivessem acordado para dar seu primeiro movimento, como um predador, à espreita. O mais velho levantava e ajudava a mãe na horta atrás da casa, regando e colhendo. O avô era tão parecido com o garoto mais novo que também esperava todos acordarem para se levantar. Um jogo interessante.


O desjejum feito e a chuva caía. O avô chamava ao menino mais novo todas as manhãs para ler na varanda e observar os campos espetados pelas agulhas celestes.  Também distinguiam os sons e tentavam definir as notas que faziam no solo. A mãe preparava o almoço e o menino mais velho descansava na cadeira de balanço. Todos os dias, o mesmo dia.


No outro dia, a chuva caía, a família levantava, o livro era lido, o campo olhado, o almoço feito, o descanso recebia repouso. No outro, também. E no outro talvez nem valesse a pena dizer, mas a figura engraçada chegou andando pela estrada quase apagada pelo tempo e pela água. Um homem. Um homem grande, muito grande, e gordo. Tinha dois metros de altura e os rapazes brincaram que ele tinha o mesmo tamanho para os lados. Olhe mãe!, olhe mãe! – gritavam. As agulhas trincavam com os gritos e as notas do solo saíam desafinadas.


O homem gordo passava por sobre as poças sem jorrar água para fora, andava sob a água sem molhar parte alguma do corpo, da cartola ou terno. Gravidade, por favor, conheça a leveza. Tão sutilmente e tão rápido ele se aproximou que os garotos só podiam ouvir tais sussurros em suas mentes. Perguntaram o que o homem queria, e ele respondeu: quero tudo aquilo que as palavras me dão. – ele respondeu. Revidaram, alegando que isso não tinham não, mas que podiam tentar ajudar com uma toalha ou um lampião pra se aquecer. Ele negou, disse que precisava das palavras, não precisavam ser escritas, ou em uma língua única propriamente, tudo que ele queria era o verbo.


Os olhos do velho estavam tão arredondados quanto a circunferência do homem que a pouco chegara, o susto era grande demais para se conter. Moço, precisamos de mais tempo pra pensar em como te ajudar. Não quer entrar e ver se algo de nós lhe serve? Essa chuva machuca por demais. – Disse tomando todo o cuidado para não ofendê-lo nem acalentá-lo demais. O homem negou com a face. Posso ajudá-los, dizia sob o seu imenso bigode. Vocês estão perdidos aqui?, finalizou. A suspeita era tamanha para todos os quatro da casa que não conseguiam responder. Perdido aqui só o senhor, com todo o respeito, meu senhor. Essa é nossa casa, não vê? Afirmou a mãe desejando que o homem logo se fosse.


O homem riu entre pequenos pulos e andou alguns passos para perto deles. Ora, não estou perdido, só quero a Palavra, minha senhora. Não seriam as palavras, senhor? O mais novo indagava agora, sentia-se assustado e queria acabar logo com isso. O homem gordo sorriu de novo e deu outro passo para trás. Ficaram se observando por alguns segundos que pareciam eternos; os pingos de chuva refletiam a luz de um sol esquecido e fincavam a melodia no solo. O avô, então, de súbito, levantou-se da cadeira, foi para dentro da casa, seguiu para a esquerda, virou no último quarto e observou a estante. Ora bolas, se eu soubesse que era isso o que ele queria... o que custa falar desde o início? Poupa trabalho e não incomoda o nosso dia. Repetia para si mesmo. Pegou um livro grosso, mas pequeno, e saiu da casa, entregou ao homem e gritou para com uma risada estridente: Dicionário! É o que ele queria! Palavras, o que elas significam, em qualquer lugar, língua. Palavras, dicionário!


O menino mais novo olhava admirado para o avô, desejava ser como ele algum dia; o mais velho, admirava o sorriso do recém-chegado ao ver o dicionário; a mãe via a luz saltando de pingo para pingo, alegre. O homem então, por baixo de seu bigode deu mais uma risada e começou a retirar as palavras do dicionário, uma a uma. Não precisava falar, mas a gratidão estava estampada em sua face. Se começou do A ou do Z não importava: ele colocava sua mão na página, tirava uma, erguia, e comia. Uma a uma. Num ritmo lento, mas que ao mesmo tempo não se percebia acontecer.  Comeu, comeu, comeu. Gravidade, sinta a leveza.


No fim de tudo, tendo novamente a gratidão em face, percebeu uma última palavra e deixou-a para a família. Chuva, era o que estava escrito. Chuva. O homem virou de costas e saiu andando, tão leve quanto antes, tão seco e limpo, e maravilhado como antes. A família leu em voz alta o significado da única palavra no meio das páginas em branco. Chuva. E, por cima do telhado, das árvores, da grama, do solo, os pingos não caíram e as nuvens dissipavam. O sol vinha lentamente, trazendo o ouro para a grama, a casa, os moradores.


O som da música parou.
Os pássaros começaram a cantar.

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