A casa no alto do nada

18:40 P.H. Dalboni 2 Comentarios


Senti a lágrima escorrer em meu rosto e molhar minha boca ressecada. Era uma das únicas coisas que eu necessitava para viver: alimentar-me. Saciei-me com a minha doença. Estava vivo novamente. Eu precisava dela para viver, eu precisava.
Vivia numa casinha elevada sobre enormes andaimes, uns em cima dos outros, equilibrando-se. O vento batia e a casa toda balançava. Até hoje não sei como não caíra. Sempre muito sensível, eu dava passos delicados pela casa para alcançar o meu lugar destinado. Passos lentos, delicados, quase mortos.
A localização da casa era remota, ninguém mais poderia estar lá onde eu estava senão eu mesmo. Por ser uma casa deveras alta, as nuvens sempre se condensavam mais embaixo. Não chovia para mim. E não poderia chover. Não ali. Daí minha necessidade de lacrimejar.
Todas as noites eu olhava para fora. Eu via o Sol, mais perto que qualquer um, e via a lua a me cumprimentar todas as noites. A noite caía roxa e a solidão com que me abraçava fazia-me as lágrimas escorrerem, o que me salvava. Mas agora eu tinha certeza do que fazer: ia guardar minhas lágrimas e fazer um grande tanque delas, daí não precisaria mais de chorar, nunca mais.
No dia em que eu comecei, a lágrima salvou meu lábio seco. Senti-me vivo novamente e deixei acontecer. Da segunda vez eu já comecei com um copo. Em alguns dias os copos encheram. Depois utilizei uma jarra. E assim ia aumentando o tamanho, sucessivamente. Sempre guardando as lágrimas num recipiente maior.
No final de dois meses coletando lágrimas a casa estava lotada. Deixei para mim apenas o necessário para sobreviver. Sobrevivia. Sobrevivia até estar lotado de toda aquela tristeza azul clara, misturada com o roxo da noite. A casa toda fechada, com os vãos tampados para o ar não entrar e não me congelar.
Eu apoiava na mesinha da sala enquanto isso, esperando, contemplando minha obra artística. Tantos vidros, de tantos tamanhos, mas que no fundo o interior era igual, muito diferente de nós, humanos. Somos diferentes dentro e fora. Enquanto isso eu esperava a vontade de beber vir. Apoiava-me com uma mão na mesa somente enquanto girava o corpo observando. Girava, assim como o vento gira em noites agitadas. Assim como o vento que bateu forte no andaime e fez toda a casa balançar. Balancei, desequilibrei, esbarrei, caí – caíram.

Um por um, cada recipiente foi se esbarrando e caindo. Senão por culpa minha, por culpa do vento que bateu mais forte do que devia. Todos os recipientes caíram, logo minhas lágrimas também. Quando dei por mim, as lágrimas vieram todas me alimentar, vieram como uma onda, uma onda feroz que engole tudo. Afoguei-me, afoguei-me em minhas próprias lágrimas; e o porquê de afogar-me? Por medo de descer do andaime até onde a chuva caía.

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