Chão e chuva.

17:17 P.H. Dalboni 0 Comentarios


O barulho das rodas do carrinho de compras de supermercado vazio daquela senhora era reconhecível em qualquer lugar àquela hora da noite. Arranhava, rasamente, risos do chão.  Andava com seu amontoado de roupas sujas e rasgadas como se fossem uma armadura. Para o menino que se entranquinhava em seu quarto, o som das rodas ao passar no chão assemelhava-se ao suicídio das gotas de água que viviam nas nuvens. Retirou o fone para conferir o som; ficou feliz ao saber que era apenas a velha que andava.


As sandálias arrebentadas da senhora lixavam o chão e as pedrinhas que saíam da terra eram chutadas para o bueiro. Asfalto e céu se diferenciavam pela luz laranja emanada dos postes - os postes iluminam o chão; as estrelas, o céu. O carrinho da velha moça andava de casa em casa. Ninguém jamais saíra para vê-la, entretanto todos sabiam que ela andava pelas ruas, empurrando seu carrinho de compras. Para a menina que morava na casa ao lado do garoto, o som do carrinho era um conforto tão grande quanto o som que fazem as gotas de água quando pulam das nuvens.


A sombra seguia o que as rodinhas percorreram. - A sombra - era ainda mais miúda que a própria senhorinha. Sem hora para passar, ela passava toda noite. Andava pelas ruas, escorrendo por elas. Limpando-as. Deslizando. Seus pés nunca tocavam o chão. O asfalto corria por baixo deles como água. Água negra, e impura. Seu carrinho, agora puxava o líquido cinzento e empurrava-o para cima, de volta para o céu. No céu, onde tudo é puro, a massa cinzenta transformava-se em água novamente e caía irrigando as águas dos sonhos de todos que dormiriam por onde ela passou.

Aquela pobre senhora vestida em farrapos, escondida em sujeiras, carregando seu carrinho de compras vazio, que fazia um som semelhante à chuva, em verdade, fazia chover. Mas chovia ao contrário. De baixo para cima. Ela voltava tudo que era cinza e maciço em transparente e límpido, como seus olhos. De fato, não sabia o quão era importante, apenas sabia o que era: zeladora. Zeladora de sonhos, de gotas límpidas suicidas, faxineira de mentes tristes e cheias. Porém sua amardura (armadura ou amargura) não a deixava mentir: apesar de tudo, não era zeladora de si mesma.

0 comentários:

Postagem mais recente Página inicial Postagem mais antiga