As folhas

15:55 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Um homem andava entre os troncos da floresta. Ia com um passo apertado e longo. Tentava não tropeçar. Não conseguia. Seguia por cantos que diversas vezes tornavam sua visão obscura, mas não por isso deixava de andar.
Seus passos, agora, oscilavam. Sabe, nem sempre é fácil manter o mesmo ritmo, inda mais com essa atividade que exigia tanto deste homem. A atividade: caminhar por toda a floresta – não para sair dela, mas para vê-la.
Seus olhos percorriam as árvores até nos locais obscuros. Via os troncos, as texturas, as folhas, as cores de cada um, de cada uma. Seus olhos percorriam detalhe por detalhe, milimetricamente.
Se lhe perguntassem onde tinha uma folha enrugada pertencente a uma árvore de tronco marrom escuro com fendas pequenas e circulares, ele saberia responder. Sabia de tudo. Percorria as trilhas da floresta todos os dias para prosseguir, e no final de cada dia retornava ao início.
Todos os dias a rotina se seguia. O pobre homenzinho não parava. Ia andando, sempre até mais longe – nunca para sair da floresta – e observar e entender todos os tipos de marcação de folhas, de árvores, como sucediam e – até às vezes – o porquê de essas coisas serem assim.
O que surgiu dentro daquele homem foi o desejo – e permaneceu. Desejo de todas as folhas, de todas as texturas – de tudo. Em verdade, o homem nunca se importou em saber de tudo, o que ele queria era ser tudo aquilo que observava.
Olhava as plantas – sentia -, uma por uma, via a beleza crucial e essencial de cada. Achava-as de forma única e especial, cada uma em sua unidade – é claro. “Os troncos marrons escuros têm folhas mais enrugadas, as mais claras tem folhas mais neutras.” Observava, “Tudo é tão lindo, tão perfeito.”
No entanto, ele nunca percebeu que se cruzasse uma planta com a de mesma espécie, surgiria outra igual, ou que se ele misturasse espécies, poderia fazer algo mais bonito ainda. Fosse o que fosse ele não o fazia porque não sabia.

Criar não torna aquilo fora de você, independente, ausente. Torna-se uma extensão. O Homenzinho não sabia. Continuou sem saber. Inda, todas as manhãs, saía para caminhar, observando as folhas, os troncos, as árvores – sempre sem sair da floresta.

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