Fome.

18:45 P.H. Dalboni 0 Comentarios


Eu me encontrava deitado na rede. Me encontrava, literalmente. Sim, estava perdido; lia um livro cativante. Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas, disse-me o livro. O livro agora era responsável por mim, ou eu por ele? O livro me engolia para dentro dele ou eu engolia cada letra, cada palavra?
Fazia horas que eu estava sem comer. Fazia horas. Meus pais me gritavam e eu sempre ouvia o cheiro da panela, ou frigideira, ou apenas do prato me chamando. Eu não o escutava e continuava lendo, até ser retirado quase que à força da minha redinha de leitura. Retirei-me, comi, e voltei a ler.
Engraçada era a situação quando eu tinha que sair de casa. A cada segundo que se passava e eu permanecia longe da rede, eu me sentia mais preso, com mais vontade de ler. A minha fome por livros aumentava também. Outra comédia da minha vida era imaginair que apenas comida me traria fome. Sim. Apenas porque comemos e sentimos a descrição de cada gosto é que a fome nos vem.
Fui pra casa. Meus pais deixaram eu voltar andando e, assim que cheguei, fui para a rede. Peguei o meu livro. Li. Li. Li. Fome. Fome de comida. Estava longe demais. Se letras matam a minha fome de livros... por que não?... Abri a boca, ergui as mãos segurando o bolo de papel. Mordi. Senti o gosto das letras, das palavras. Porra! Descrições melhores não há. Comer palavras, letra por letra. Devagar, lentamente.
Minha corrente sanguínea pulsou. Forte saltava. Eu me sentia alterado.As histórias mexiam comigo, de dentro de mim.

Meu sangue acelerava, depois rasgava minha pele e chorava para fora. Palavras, palavras, palavras. Come, come, come. Fome. Letras faziam a diferença. Por que ninguém nota isso? Tristeza. Azo. Confusão. Digeria as palavras e me transformava conforme as recebia em meu corpo.
Minha fome se esvaía. Os livros acompanhavam a fome: iam acabando quanto mais eu me mutava. Um dia cheguei a sonhar que estava na Terra Média, durante a sesta. Meus pais reclamavam: sai dessa rede; hoje reclamam, e eu não ouço. Eles falam, eu não faço. Eu faço, tudo aqui, tudo aqui dentro. Me alimentando, comendo. Comida normal, não como mais. Histórias, devoro. Enquanto escrevo, digiro tudo aquilo que comi e, muito mais, liberto de meus poros a sensação de ser dominado por palavras e passo a dominá-las. O que eu faço? Sinto fome - apenas.

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