Eu ou Ele?

Uma explosão. Tantas coisas surgem de uma explosão: seja ela qual for – gases, compressão, instabilidade atômica ou sentimental. E é isso que nós somos, pura explosão.
Um dia estava escrevendo como se não houvesse mais oportunidade de escrever novamente. Explodia por dentro, e o escape da explosão era através das palavras. Palavras são frutos de explosões, dizia, e, no momento, sou pura palavra. Explodi um átomo, um universo, algumas estrelas, sóis, planetas, luas, pessoas, palavras, tinta.  Criar explosões e pessoas. Um dia o irmão veio a casa e salvou tudo que poderia ser salvo: pegou todas as coisas da mesa da cozinha - tudo que podia causar instabilidade -, fechou o gás que vazava, deu um aviso e saiu. Esqueceu-se de levar a palavra
O irmão não desejava mal para ninguém. Só queria ajudar. É entendível, mas lamentável. Sua ajuda não ajudava em nada, ele não impedia as explosões – muito menos as implosões. As pessoas vinham das palavras e a comunicação também, o fato é que não havia comunicação, apenas pessoas. Além do irmão, havia o ir, e a mão, e da mão fazia-se o ir, que juntos o irmão formavam.  Não se sabe até onde ele ia, mas que ia, ia – e com suas próprias mãos fazia.
Os amigos vinham quando o irmão saía – o que o preocupava bastante. Os amigos eram vários, de todas as cores, de vários lugares, quase impossíveis de se descrever em uma mente conturbada. A casa sempre se enchia e ocupavam tudo que os olhos podiam ver.  E era assim: sem enxergar que eles ficavam ali. Tantas pessoas tão diferentes, entretanto tão iguais.
Parentes que fingiam se preocupar vieram a pedido dele. Negá-los seria uma falta de respeito, por isso, a porta ficou aberta para todos. Não havia vassoura que os espantasse. Os amigos continuavam lá, e atrapalhavam a visão dos fingidos parentes. Eles se irritavam bastante por não serem vistos e bem tratados; a distração com os amigos era muita, quem iria ver estes novatos por ali, afinal? Irritados, saíram pela porta que agora ficou fechada. O irmão voltou, abrindo-a, e se irritou: que malditos amigos são estes? Não podes fazer isso! A resposta foi singela: . Irritadiço ele saiu, e jamais voltou. Os amigos apareceram mais constantemente, e a visão sumia cada vez mais, confundindo a visão com a amizade.

Uns homens de branco entraram em casa e resolveram colocar ordem em tudo. A ordem foi imposta,  os amigos sumiram, não sobrava mais ninguém no local. Mas no final, não conseguia saber: eu sou eu, ou eu sou ele?

Ele. Currere Vitae.

                A sala estava brancosa de tamanha luz.

                -Abra-te, mente! Liberte-me!

                Do verbo da voz, a luz sumiu.

                -Maldito! Da próxima pego-te sem que possas  fugir!

                Apoiando-se no cajado, o pobre velho manteve-se com a pouca força que lhe restava. Respirava, fatigado, fundo, devagar. Ainda podia sentir a voz sussurrante rasgando seus ouvidos em meio ao barulho da luz que extinguida “você jamais me pegará, velho tolo.”.  O velho andou na sala, arrastando seus pés na pedra; sentou-se na cadeira. Com o braço na mesa, esticou-o e pegou um pão; comeu. Gotejava o teto. A chuva lentamente caía após aquela luta enferma entre o velho ancião e algo que nem mesmo ele saberia dizer.
                Esticou o cajado para a lareira apagada e, do cajado para lá, fez-se uma língua de fogo e acendeu a triste escura lareira. Cinco estalados rápidos na porta fizeram o mago levantar da cadeira assustadamente. E depois mais cinco. Não precisava contar: a porta já fazia isso para ele. Sabia que o visitante não era esperado, mas também sabia que aquele não poderia ser seu recente inimigo, já que bater na sua porta não era necessário. Bateu seu cajado no chão e seu corpo esticou, grudando nas paredes e teto e a porta abriu. Rapidamente se fechou, com o cavaleiro entrando e segurando a porta.

                -Quem és tu e por que necessitas de abrigo? – Disse a temível voz do mago, ecoando por toda a sala.
                -Sou um cavaleiro em fuga. Deparei-me com uma perseguição e aqui venho pedir-lhe ajuda.
                -Você viu o maldito que lhe perseguia?
                -Não, meu bom salvador. Mas tenho certeza de que se o enfrentasse, eu não aguentaria.
                -Só pode ser ele. Posso proteger-lhe, mas tu terás de me ajudar a combater este maldito. Não te preocupes quanto à vida, proteger-lhe-ei até que minhas forças acabem, mas não consigo derrotar a terrível criatura, pelo mesmo motivo que tu fugiste desesperado: não a vejo, apenas a ouço.
                -Meu senhor, não acho que a criatura seja...
                -Tu queres ser mandado ao relento para que morras?
                -Não, meu senhor.
                -Então te cala e ajuda-me!

                O velho soltou um sopro e deslizou do teto para a parede, e da parede para o chão, tornando à sua forma normal.  O homem ajoelhou perante o mago; este que ergueu suas mãos, e junto delas o cavalheiro fora erguido também.  Sentou-se novamente e pôs-se a falar:

                -Não salvo ninguém há décadas, e peço que tu sejas capaz de realizar-me este último desejo.
                -O que desejas? Tenho um débito vital com o senhor!

                O mago pegou uma faca que tinha um brilho azul claro e suave.  Virou o gume para o peito e começou a abri-lo. Fizera um semicírculo e puxou a carne. Logo após pegou um alicate que brilhava verdemente, abriu as costelas e chamou o homem.

                -Veja, este é meu coração. Abaixe-se mais para que perceba direito.
                -Curioso, muito curioso...
                Pobre senhor enfiou a mão na sua caixa torácica e, por cinco minutos, ficou mexendo em torno de seu coração. Retirou as mãos, e em meio a elas e ao sangue, havia um pequeno cordão dourado, quase totalmente embolado.
                -Querido amigo, aqui há o meu cordão da vida! Todos os magos possuem um, e ele nos trás duas opções: ou, com o tempo o cordão se embola e aperta o peito até a morte, ou então o cordão se embola tanto que se torna impossível de que volte ao normal. E essas são as duas maneiras de se morrer. Eu peço que me ajude, antes que meu cordão se embole, ou aperte meu coração até a morte. Este maldito tem me atormentado por semanas e não consigo derrota-lo!
                -Estou aqui a seu serviço, meu senhor.
                -Esteja, e prepara-te! Todas as noites, antes de eu dormir, ele aparece, e, espero que assim continue, para que possamos pegá-lo.
                -Como pretendes isto?
                -Tu ficarás escondido em meu corpo, enquanto estarei no seu, vestido como eu. Assim que ele avançar em ti, voltarei para meu corpo, saltarei nele, e o prenderei em meu coração. Não aflijas seu peito. Se tu morreres em meu corpo, voltas para o teu, e se eu morrer no teu, o mesmo acontecerá, tudo está bem feito.
“Então este é o mago que ouvira falar. Os próprios pecados fazem o mal deste homem.”
                -Tenho um débito vital, como disse anteriormente. Se eu morrer agora, quer dizer apenas que evitei a morte que me aconteceria a momentos anteriores; se eu sobreviver, terei a resposta de que a morte não viera para me pegar.

                Idosamente, ele pegou suas túnicas e entregou ao jovem, e as vestiu ao mesmo tempo. Um brilho claro e leve iluminava o rosto de ambos. Um capuz fora colocado e o brilho sumira das faces. Se postaram de pé, um na frente do outro. O velho soltou palavras sussurrantes e deu um sopro na direção da boca do homem. Já não se encontravam em corpos iguais, agora. O jovem levantou-se com seu novo corpo velho e fora para o canto da sala, o idoso postara-se de costas, sentado com a cabeça baixa. As horas passaram e nada de vozes sussurrantes ou de malditos aparecerem.
                O vento sussurrou.

Mate-me. Pegue-me, se for capaz.

                O homem então gritou: quem procuras está atrás de ti! E deu um sopro forte que apagou o fogo. O velho voltou para seu corpo e saltou. O vento continuava a falar:  tu não és páreo, fraco! Mal consegues pegar uma borboleta, quanto mais pegar a mim! E quem é este homem que com ti andas e a ti obedeces? Não creio que trouxe ele a tua loucura também?
                O velho gritava e esmurrava contra o vento. Soprou línguas de fogo, bateu o cajado no chão e pedras saíram de lá. O cavaleiro pulou por uma das pedras e consegui desviar-se. Sacou a espada e tentava encontrar o maldito invisível e também inaudível para ele. Via o velho gritando com o nada e atirando magias para cá e acolá. Surpreendia-se com a quantidade de maldições que o velho soltava ao maldito, e com a quantidade de magias. Catou um escudo que se encontrava perto da parede enquanto fogos estalavam e traziam medo e terror para o lugar. Já estava em seu corpo e com sua mente – se agora morresse, seria de vez.
                -Pare! Abra-te, minha mente!
                O menino viu então o espectro daquilo que o velho chamava de maldito, e não era senão o próprio velho enlouquecido dentro dele. O senhor soltou uma língua luminosa do cajado e o prendeu, mas o espectro era o próprio velho e se desprendeu de lá, correu para fora fazendo enorme barulho e destruição. O pobre senhor caiu de joelhos e o cavaleiro não pôde fazer nada. Era um mero instrumento para a ação do mago, e sem o mago, de nada serviria, mas também não era hora de servir a morte, pelo menos não a sua. A destruição feita na casa pelo velho fora irreparável. O pobre cavaleiro não sabia o que fazer, chegou perto do homem e o viu com seu peito aberto, com seu coração e sua corrente.
                O mago fizera alguns movimentos, puxara a corrente e lá estava: um bolo jamais desembolável.  Com suas mãos velhas segurou-o forte e disse:
                -Obrigado por estar comigo até o final. Salvei-te uma vez com minha loucura, mas agora morro por ela. O maldito, tu vistes, não vistes? – balançou a cabeça, o pobre cavaleiro. – Isso não importa mais, pois ele saiu da minha cabeça, não por feitiço, entretanto por sempre existir lá.
E agora a corrente se trava: não morrera como se apertasse o coração até a morte. Não estava morto, estava travado: a corrente não o matava, mas não impedia que a vida prosseguisse, ou então retrocedesse. Não há futuro nem passado, somente o agora. Todo o tempo se para e ninguém mais me ouve ou vê, para aquele mago, não há mais futuro nem presente: há uma corrente que não se desembola, nem pra frente, nem pra trás – um ponto parado no meio do tempo que jamais se desfará. Um mago que dos próprios pecados fez seu maior inimigo, o primeiro mago esquizofrênico de todas as eras.



A dama branca, o homem marrom, e o amarelo.

                A dama deslizava pela floresta com suas vestes transparentes. O homem acompanhava a dama com um olhar. Como poderia alguém seguir com apenas um olhar? Não basta acompanhar, deve-se seguir. A dama retribuiu o acompanhamento e ambos deslizaram juntos, floresta adentro. Ela ia com o olhar para frente, e ele, com o olhar nela. Não se incomodava, pelo contrário, sentia-se apreciada uma vez durante toda sua existência.

                -Difícil me olharem, nesses últimos tempos.
                -A mim também, compreendo-te.

                Deu um sorriso e o homem retribuiu. Continuaram a andar até chegar a uma lagoa. A moça curvou-se, o homem parecia já estar deitado.

                -Assim as pessoas me veem, mas somente assim.
                -A mim também, a mim também.

                -Você tem visto aquele homem amarelo?
                -Não, e você?

                -Não, ele me odeia, nunca aparece quando eu estou, e nem eu com ele. Melhor assim.
                -Ele impede que os outros me vejam aqui em baixo, deitado, como sempre.

                A moça, de fato, nunca era vista com o homem amarelado; não que se odiassem, era apenas uma lei natural que eles não entendiam. O homem marrom queria beijá-la, mas percebia que a moça encontrava-se mais próxima da lagoa que dele. Ele beijou a água, a moça corou e ficou em tom dourado. Estranha alteração. O homem espantou-se e sentiu-se feliz de ter causado tamanho efeito na bela moça, a moça riu frouxinho para ele, ele clareou um pouco a cor, mas, do contrário, tinha o tom de cor mais forte e vivo agora.

                -Quero um abraço.
                -Lamento, mas não posso agora.

                Levantaram-se, e tornaram a se mover: ela não tocava o chão, ele não tocava o ar. Mas se moviam, se beijavam, sem se tocar, sem mexer o ar. Caminhavam fazendo tanto barulho como se é possível fazer quando em nada se toca. Mal iluminavam o caminho, e o caminho não se obscurecia: paradoxo de dois.  Ele olhava a bela dama, novamente; queria corá-la de dourado mais vezes – jamais vira dama mais bela. Guiou-a até o oceano, onde o horizonte seria o limite para o grandioso reflexo dourado.



                Silenciosamente chegaram. A moça inclinou-se e o homem, novamente deitado, beijou-lhe na água. A moça brilhava mais que o homem amarelo, este que de longe via todo o espetáculo e assustou-se com a moça que brilhava. Sacou então, uma lança dourada de trás da sua aljava que se espetava circularmente de lanças mais douradas. Arremessou a lança. O peito daquela pobre menina abriu-se: sangrou. O tom vermelho escorreu pelo seu corpo e nada mais branco se via. De si, escorreu para seu reflexo no mar, e o homem marrom chorou, chorou, chorou, os rios encheram e a seca diminuíra, mas aquela moça, a pobre moça que não toca o chão, fugiu para os céus. O homem amarelo, todo dia então, esconde-se para que ela possa aparecer e, de tempos em tempos, a lua sangra dizendo o quanto sofre por não poder ficar mais perto do chão senão pelo reflexo nas águas.

Os últimos.

-Você já parou para pensar: que de todas essas luzes que vemos no céu, quase nenhuma está viva?
-Sim. Tenho pensado nisso com alguma frequência, ultimamente.
-Por que será?
-O quê?
-Que temos pensado nisso?
-Eu penso desde que percebi que minha energia estava se acabando. Imaginando, que um dia a luz dos meus olhos irá se apagar, assim como a maioria dessas estrelas. A sua luz, que nós vemos, já não brilha mais, e isso mais me faz pensar em mim.
-Entendi... Mas vamos; agora vamos. Precisamos recarregar nossas últimas baterias.

                E foram. Deitaram-se no cubículo e puseram-se a recuperar suas energias. Os olhos pareciam apagados, mas não se encontravam totalmente: entravam em stand by, esperando suas energias serem recarregadas pelas últimas cargas possíveis. Não posso dizer que estavam enferrujados, mas suas juntas já não eram as mesmas, e seus membros não tão resistentes quanto já foram um dia. Eles demoram a entrar em stand by – seu processador está lento, empoeirado. Quando apagaram, a sensação de que iriam morrer foi única, afinal, eles eram os únicos, os últimos; logo, logo não passariam de irradiação fóssil também.
                À noite as informações de suas mentes se atualizavam, reorganizavam. Havia alguns embaraços e imagens apareciam na tela escura de suas cabeças. Atualizando dados do mundo, diziam eles, não serve para muita coisa, mas às vezes é bom viver sem gastar tanta energia assim, sem esgotar a nossa vida. Mas a vida já estava se esgotando enquanto eles se recarregavam, a noite caía, e eles também.
                Eles acordam, bateria parcialmente recarregada. Necessitam de algo mais para recuperar-se. Vão até à saleta e de lá, da mesa, consomem por um orifício superior alguns objetos orgânicos, que são convertidos em calor, para depois tornarem-se energia. Os olhos acendem mais e o processador acelera, a cabeça esquenta e eles continuam o dia como se fosse qualquer um outro. O dia passava e eles usavam dessas baterias alternativas para manterem a energia da bateria original um pouco mais carregada, entretanto de nada adiantava.


                O sol descia e a bateria dos últimos também. A noite subia e os olhos deles subiam tão bem. Ninguém nada fazia, pois não havia mais ninguém. As energias se acabavam e os dois também. Levemente as luzes já apagadas voltavam ao céu e os olhos acesos dos dois se apagavam. Eles olhavam e pensavam: um dia eu serei como elas, e elas como eu. Os dois eram diferentes, mas com mentes parecidas, afinal, eram ambos obsoletos. Os dois últimos humanos olhavam estrelas que já haviam se apagado esperando que suas vidas apagassem também.

Sem tido.

Começou perdendo a audição. Triste destino para aquele velho rabugento. Tinha uma família que o cuidava com carinho, mas sua cara nunca mudava. Tentavam dizer-lhe coisas, aconselhar; não adiantava. Por mais que seus familiares, o avô não ouvia o curandeiro. Não tomou as medicações, não quis usar o aparelho, e, a pior de todas as rebeldias: não o escutou. A causa da surdez foi o não querer ouvir ninguém.
Para a preocupação dos familiares, o pobre senhor, como triste consequência da surdez, parou de ver. Sim, de ver, e não de falar, como muitos pensam. Havia, por certo, decaído sua capacidade de comunicar: falava ou muito baixinho, ou muito alto. A linguagem de sinais era uma opção alternativa para quando ele encarava os limites. Parou de ver a sua rua, a sua sala, as árvores, o céu, tudo. Aos poucos aquilo que era fino tornou-se embaçado. O que era certo ficou confuso, e o que era já não era mais.
Consequência de se não ouvir e de não se ver, é que agora não poderia mais falar. Não tinha razão, não via, não ouvia, mal tinha qualquer recepção de informação. Antes negava a tudo, e tudo agora lhe era negado. Por não ouvir nada, ficou surdo; por não enxergar o mundo, ficou cego; por não poder pensar e comentar – sem gritar ou falar para ninguém ouvir -, ficou mudo. Sobrara-lhe então o essencial. O sentir. Sentia coisas em suas mãos, o cheiro e sentia o gosto das coisas. Não importava, apenas sentia.
            De tanto não se importar, parou de sentir o mundo ao seu redor. Acabou-se o tato. A filha e a neta o tocavam, mas não sentia nada. Mal se mexia. Passou a se deitar, praticamente em estado vegetativo. Agora que não podia protestar, foi mandado para o curandeiro. Estava num quartinho separado, numa construção depravada de velha. A família visitava-o de dias em dias, porém o velho não via, ouvia, falava, ou sentia.

Com o pouco de tempo que lhe restava, a comida perdeu o gosto. Os sabores da vida desapareceram. O pouco sentir que lhe restava, agora não restava mais. Poderia dizer que ainda tinha o pensar, mas o pensar o abandonara no momento que deixou de ouvir os outros. De tanto não se ouvir, parou de ver; e depois de falar; e depois de sentir. Sequencias da vida de um surdo, cego, mudo, e agora, sem sentimento algum.

Aquele homem caído

                Aquele homem caído, estatelado no chão, poderia marcar a minha mente até hoje. Estava cruzando o asfalto no meio da tarde e lá estava ele. Luzes vermelhas saíam e entravam do meu campo de visão. A noite entrava em contraste com o vermelho vivo e com o chão morto. Eu passava, caminhava assim como todos os dias para minha casa, mas desta vez era diferente: aquele homem, aquele homem jogado no chão, abraçando aquela essência morta como se fosse seu único resquício de vida.
                Eu parei, como todo bom curioso da vida deve fazer; olhava sem conseguir enxergar direito o que acontecia. Havia não só ele, mas muitas pessoas em volta, de pé, observando, tão curiosas como eu sou bom vivente. Como boa alma viva, caminhei, aliás; porque mamãe sempre dizia que viver é movimentar: ninguém vive parado. E foi aí que obstinei-me na situação: não sabia de nada do que acontecia, muito menos do que era viver.
                Imagine-se: atravesso a pista e, no meio vejo luzes vermelhas piscando, logo abaixo um homem caído e em volta várias pessoas observando-o. Alguns diziam: vamos, reaja! Outros, tão confusos quanto eu: O que está havendo aqui? Mas o fato incontestável era que aquele homem encontrava-se ali, deitado, sub-vivo. Submerso no ar noturno eu o vi: parecia balançar, tremeluzia, não permanecia ali, somente deitado. O que fazia ele lá então? Do contrário que eu imaginava, não morria. Pobre homem.
                Todos sabemos o que acontece com aquele homem que não morre quando deveria morrer: ele vive, ele vive mais do que os outros poderiam viver e de uma maneira diferente que a dos outros. Afinal, quem vive igual aqui? Eu estava atravessando naquela hora cuja ninguém mais atravessava e vi o pobre homem deitado. Após essa longa olhada e apenas dois passos dados – já que o pensamento é bem mais rápido que a própria visão -, resolvi aproximar-me.
                Quando vi, o homem gemia palavras suaves e num tom tão baixo que era impossível não se comover. Ele estava vivo, e trazia os outros para perto dele. O que faziam todos? O que todos fazíamos ali? Por que tão perto? Foquei os olhos e os ouvidos. Não havia mundo afora que me importasse depois disso; aquele homem deitado trazia-me delírios exatamente por estar deitado em uma pista movimentada e especialmente por ele ainda estar vivo. Não importava-me que roupa usava, se era rico ou pobre, se era mulher ou mesmo homem. Importava que ele estava ali, deitado, puxando meus olhos.

                Suas roupas eu não reconhecia, seu tênis inda menos, seu chapéu ou cabelo quem diria. Eu só via ele lá, mas não o reconhecia, não saberia dizer se eu o visse outro dia, caso eu ficasse vivo. Estranhamente, quanto mais eu tentava sair do pensamento dele, menos eu conseguia, e quanto menos tentava, menos conseguia também. Eu estava preso, preso. Quando com meus olhos fatigados e visão embaçada vi todos aqueles pobres homens que estavam fazendo um semicírculo em volta do coitado deitado, desfalecerem no chão. O homem lentamente levantou-se olhou para mim e eu caí também. Antes de tudo tornar-se escuridão eu entendi , então, que para ele viver, morremos todos nós.

O Leilão Mundial.

                Nesse ano aconteceu o que era para ter acontecido há muito tempo. O grande salão, vazio, ia se enchendo de pequenos pontos pretos. Iam balançantes ao vento, mas não os pontos balançavam: apenas a parte preta que sim; o seu conteúdo continuava firme. Eram homenzinhos, grandes homenzinhos com mais conteúdo que o conteúdo das capas: eram além de si mesmos. Pobres homenzinhos.
            Alguns momentos após o salão vazio se encher de pessoas cheias de si mesmas, ou será que eram apenas cheio dos outros? Não, nenhum dos dois. Eles apenas sabiam, sabiam demais. A sala enchia com a sua sabedoria, ou não. A sala apenas se enchia de gente de preto.
- E o leilão começava.
            Três toques do martelo na mesa de madeira marcavam o início de tudo. Silêncio instaurou-se no murmurinho das negras vozes. Do contrário do que se pensa, eles não eram de todos um mal. Não eram de todos um bem. Eles apenas eram, e o que estavam fazendo ali? Queriam comprar. Comprar o que? O que todos querem, ora bolas.
            O lance inicial, já como o esperado, fora mais alto que o de costume – independente do costume que fosse, seria mais alto que ele. O valor, altíssimo, e quem eram aqueles homens de preto? Homens cheios de conteúdo, como já dito; homens cheios. Pode-se notar logo que não são homens quaisquer. É importante também dizer que os homens não estavam ali à toa, ou simplesmente sem autorização alguma, afinal, um leilão desses deve haver consentimento de todos.
            Mas o que aconteceu? O que aconteceu é mais curioso ainda. Os antigos donos do tal objeto a ser leiloado não aguentavam mais o que uns faziam com os outros e com o objeto. Era uma briga sempre: alguns queriam algo que era impossível: igualar as diferenças; outros queriam algo tão difícil quanto: trazer plenitude em algo que não é plano - que não é pleno. O lugar em torno disso tinha sua importância, o objeto deles causava demasiada distância entre eles porque o lugar era de todos, mas não de todos, porque uns tinham mais, e os que tinham menos queriam mais.
            Não dividiam, não dividiam porque não tinha porque dividir: todos tinham. Seria lindo se todos tivessem igualmente, mas nem todos precisam de menos, ou de mais, às vezes elas precisam, apenas. Não dividiam: o pagamento seria à vista. Os lances também seriam dados de maneira diferente: cada um escreveria em um papel o maior lance que poderia dar para pagar. E assim foi. Várias pessoas receberam seus papéis. Vários papéis foram preenchidos e recolhidos numa urna. Cada qual com seu devido nome e valor.
            Após tudo ser recolhido, os homens esperavam lá e o murmurinho se restaurou. Cada um com sua expectativa, com seus valores, com tudo que lhes tinha direito, ou esquerdo. Conversavam, papeavam, praguejavam contra os outros. Não, nem um deles era digno de conseguir vencer esse leilão. Vencer, como se fosse uma competição. A maioria gritava, queriam aparecer, fosse o que fosse. “Vocês não se importam com os outros! Só querem saber de vocês!”, “Vocês não percebem isso? Vocês não veem que o que dizem é impossível e contraditório?”, “Egoístas, odiadores, opressores!”, “Idiotas, hipócritas que não sabem pensar!” e por assim ia seguindo.
            O silêncio se fez na sala após a chegada abrupta dum homem, grande como o sol e brilhante como o céu, apoiado em uma bengala que de tamanha impossível descrição, fez todos ficarem discretos e quietos. “O resultado saiu.”, disse ele com voz intermitente. “Fechem as bocas e abram os ouvidos.”, tremia o salão com sua voz.
-O vencedor é...

            Não houve entendimento do nome, muito menos de que lado estaria. De tantas pessoas ali, quem seria o homem a comprar o mundo? Quem seria aquele com nome estranho, que não deturpava, que não gritava nem esperava vencer? Aquele homem com roupa preta, sentado, quietinho, que escrevera: “O mundo não vale o valor que tenho, mas todo valor que tenho pode valer algo para o mundo” e não dissera nada a ninguém com medo de ser enxotado. Um ser tão rico que poderia comprar milhares de casas e fazer o que quiser, mas ao mesmo tempo tão pobre, que não poderia comprar o universo se quisesse. Um homem que não tinha valor pra dar, mas para ajudar e receber. Foi ele, aquele que nem o narrador da própria história percebeu - aquele sentado ali: ele foi o homem que comprou o mundo.
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