A Chave das Mentes
Ilustração por: Bárbara Alves
Os jornais gritavam em letras garrafais o que aconteceu no final de semana. O ocorrido nem foi o que mais surpreendeu, mas sim o fato de ser com o jovem Lírio. Um rapaz alto, de pele alva e cabelo branco, tinha pouco mais de dias que tinha alcançado os dezessete. A barba ruiva no queixo fazia antítese com seu cabelo velho e surrado. Mas era jovem. E para a maioria um bom rapaz, que não faria mal a ninguém. Lembro-me de vê-lo passar pelas bancas de jornais cumprimentando a todos; pelo rapaz da barraquinha de cachorro quente e de doces, mesmo nos dias mais quentes.
Os jornais gritavam em letras garrafais o que aconteceu no final de semana. O ocorrido nem foi o que mais surpreendeu, mas sim o fato de ser com o jovem Lírio. Um rapaz alto, de pele alva e cabelo branco, tinha pouco mais de dias que tinha alcançado os dezessete. A barba ruiva no queixo fazia antítese com seu cabelo velho e surrado. Mas era jovem. E para a maioria um bom rapaz, que não faria mal a ninguém. Lembro-me de vê-lo passar pelas bancas de jornais cumprimentando a todos; pelo rapaz da barraquinha de cachorro quente e de doces, mesmo nos dias mais quentes.
Suado seguia, com a barba respingando o pouco que de água
que lhe tomava conta. Na faculdade com sua pastinha em mãos, iniciando o
primeiro período passava pelos monumentos clássicos, obras e esculturas em
gesso e bronze que o faziam tremer. Na volta, passava pela linha do metrô, nas
pequenas pontes e passarelas dava boa noite aos mendigos e operários que faziam
manutenção. Parava por minutos e observava as pichações e grafites, não eram
como as grandes obras, mas se colocassem uma moldura de bronze, talvez ali... O
farol do trem sempre o atrapalhava a fazer a crítica final. Pulava de linha
para outra e retomava seu caminho a sons estranhos.
Incrivelmente me lembro também de como ele, sempre tentando
sorrir, buscava convencer a todos nós: “Cara, é só o bronze. Tudo o bronze faz,
ou o gesso. As pinturas renascentistas se pareciam com gesso, e com bronze. Se
você não permite que sua mente veja a beleza no cinza do concreto, tua mente é
cega para o hoje, parceiro.”, e seguia seu caminho, coluna arqueada, touca no
cabelo e blusa de frio preta. Suave, com as mãos no bolso, seguia. E não é, meu
amigo, que nem você pode acreditar que ele, nosso grande parceiro, faria algo
como as manchetes do jornal anunciariam. Ia para casa de um amigo que terminava
o Ensino-Médio, infelizmente repetira o último ano, e de lá partiam para uma
estação abandonada. Pegavam um dois três baseados e fumavam. Puxavam, prendiam,
passavam, como diziam as músicas e os experientes. Tocavam um violão desafinado
que ficava lá e, ou ia para faculdade ou para casa, mas nunca deixava de passar
pela linha.
Os grafites pareciam dançar e nem mais molduras de bronze
conseguiriam segurar aquela obra. Arquitetura moderna uma ova!, arte moderna
uma ova!, isso sim é belo. Os anjos da faculdade podem saltar, as pinturas
podem parecer vivas, mas isso aqui é o que realmente acontece.
- E aí, parceiro, que que ‘cê acha? Melhor que Monet, não é?
– E ria-se.
- Não conheço nem um, nem outro, “parceiro”... - O operário
respondia de bom grado, mas claramente estava incomodado, precisava terminar
logo o trabalho e não via a hora de ver a esposa e o chuveiro. -... Mas acho
que hoje em dia a arte tá perdida.
- Que isso, irmão, ‘cê tem que abrir tua mente, cara!
Voltava o caminho para casa. A mãe, solteira; o pai sumido;
o filho, perdido. Sempre que chegava na casa nova demorava a encontrar os
cômodos certos e confundia banheiro com cozinha, cozinha com quarto e quarto
com sala. Observava sua irmã pequenina
andando no velocípede com a boca e canela sujas. Com uma mão dava tchauzinho e
com a outra fazia a curva quando bateu na parede e tombou. Prontamente correu
para ajudá-la e ela afastou-o com os braços, gritava, queria a mãe.
- Mãe, tem uma chave lá na faculdade de bronze, muito linda,
lembrei da senhora! Imaginei você todo dia indo para lá e para cá, fazendo
compras e atendendo clientes, abrindo sua maletinha de esmaltes com aquela
chave. Vou ver se consigo fazer uma dessas para você!
- Ah, que bonito da tua parte! Você é meu moleque mesmo! Mas
nada de coisa ilegal, peça pra usar um molde ou coisa assim e fale com teu
professor antes, hum! – Deu uma olhadela e piscou os olhos, enquanto abraçava e
acudia a mãe.
No outro dia a mesma rotina. Casa do amigo. Casa abandonada.
Drogas leves. Mas dessa vez mostrou uma chave que pegara do catálogo de peças
da faculdade. Era dourada e a viagem do dia foi entorno da chave. Que portas e
que baús poderiam abrir? Que males poderia evitar, que tesouros ela poderia
guardar? Pois é, meu amigo, nosso querido Lírio roubou uma peça de antiguidade.
O amigo reclamava que esqueceu uma palheta para tocar o violão quebrado. O som
metálico com a madeira quebrada dava uma nova luz ao sol poente.
- É disso que falo quando digo para abrirem as mentes,
parceiro! – Ria, e só ria. – Céus, se não tivéssemos a chave, não teríamos
aberto essa nova porta pro mundo musical...
E ia para a aula, mochila nas costas e chave no bolso.
Talvez devolveria, talvez gravaria uma música no celular usando-a de palheta e
depois devolveria. Depois devolveria. Foi para casa fechando a chave em mão
branca até que ficasse vermelha de força. Viu a irmã colidir e cair, apaziguou
a situação e pediu para que ela deixasse sentir a mente abrir e o coração
acolher o irmão. Era deveras fechada e tinha que ter uma visão paterna de mundo
também. Negado e aos choros ela saiu de perto.
- Daqui a pouco, moleque, a sua mente vai cair pra fora se
continuar assim. Vá estudar, ande, e deixe que da tua irmã cuido eu!
E quem dirá, amigo, que Lírio não sentiu raiva da mãe?
Aquele que dava bom dia para o moço da carrocinha e boa noite para os mendigos
agora sentia raiva. Mas não o suficiente para ir para os jornais, acredito eu,
a não ser que você more em cidade pequena demais para conhecer o suficiente da
família ao lado tanto quanto sabe da tua. Porém, amigo, ainda não, a pressa nos
chama mas Lírio descarrilhava aos poucos, como um trem. Falando em trem...
- A luz do farol do trem, não te faz ver a pintura com novos
olhos, parceiro? – Deu um soco amigável no ombro do operário.
- Pode até ser. – Estava mais carrancudo que o normal, o
operário - Mas acho que está vendo as
coisas do jeito errado. Aliás, tudo está errado hoje em dia, por exemplo, ontem
meu chuveiro estragou e estou fedido como um porco.
- É, mas se você pensar em bacon, verá que até um porco pode
ser bom. É só ter a mente aberta, irmão.
- Que tal você sair antes que eu ou o próximo trem abramos a
sua cabeça aqui no trilho?
Saiu, apressado, mãos no bolso e chave apertada. No outro
dia, fez questão de passar ali, de mangas arregaçadas e punho cerrado. Arqueou
o peitoral para exigir respeito por sempre ter sido boa pessoa e nunca nada de
mal ter feito com o homem. Ah, como essas lembranças me doem, amigo. O homem,
antes mesmo de perceber a ferocidade do rapaz, veio pedindo desculpas e o olhar
de cão raivoso logo se transformou num olhar amigável. Desculpou-o e disse que
se quisesse poderia arranjar água ou até ajudá-lo a trocar o chuveiro de casa.
Deu mais uma olhadela nos grafites e agora via mais pichações que poluíam a sua
obra de apreciação. O farol do trem veio e o rapaz se foi.
Na casa abandonada, o telhado caía aos poucos, o mofo tomava
conta das paredes e o amigo de Lírio, o Luiz, veio com um pacote diferente. O
produto era mais escuro que o normal, quase preto. Fizeram uso desordenado
aquilo e começaram a tocar o violão. Amigos, se me apresso é porque a vida não
tem hora marcada para chegar o fim e os jornais mal esperam a vida finda chegar
para que as palavras preencham a página final. O sol deitava torto e Lírio não
iria mais a aula, a poça de água refletia a luz entorpecida que vinda à noite,
tomava conta da mente dos meninos. O violão era gravado pelo celular antigo,
mas que com certeza traria bons frutos aos meninos. – Não tá sendo bom o
suficiente, parceiro! Luiz, nossa mente tá muito fechada, a música ainda é
música, mesmo assim. A gente tem que superar a própria música, cara!
Na poça o reflexo dos amigos e do primeiro brilho da lua
junto ao sol dava a tristeza no peito do menino. Ele precisava abrir a mente.
Pegou agressivamente, mostrando os dentes e jogou-o na parede. Mandou Luiz ir
embora, pegou a chave da sua mão e bateu diversas vezes até perfurar o crânio.
Quando encontraram o corpo, os policiais disseram aos jornalistas que tinha um
cachimbo, drogas e o menino tinha uma chave encaixada à testa. As ideias
vermelhas fluíam vermelhas como mar, no chão, dizia o jornaleiro, por meio da
fala dum poeta local. Tingiram até o meu tosco cabelo.
A lembrança ainda me dói.



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