A Chave das Mentes



Ilustração por: Bárbara Alves

Os jornais gritavam em letras garrafais o que aconteceu no final de semana.  O ocorrido nem foi o que mais surpreendeu, mas sim o fato de ser com o jovem Lírio. Um rapaz alto, de pele alva e cabelo branco, tinha pouco mais de dias que tinha alcançado os dezessete. A barba ruiva no queixo fazia antítese com seu cabelo velho e surrado. Mas era jovem. E para a maioria um bom rapaz, que não faria mal a ninguém. Lembro-me de vê-lo passar pelas bancas de jornais cumprimentando a todos; pelo rapaz da barraquinha de cachorro quente e de doces, mesmo nos dias mais quentes.

Suado seguia, com a barba respingando o pouco que de água que lhe tomava conta. Na faculdade com sua pastinha em mãos, iniciando o primeiro período passava pelos monumentos clássicos, obras e esculturas em gesso e bronze que o faziam tremer. Na volta, passava pela linha do metrô, nas pequenas pontes e passarelas dava boa noite aos mendigos e operários que faziam manutenção. Parava por minutos e observava as pichações e grafites, não eram como as grandes obras, mas se colocassem uma moldura de bronze, talvez ali... O farol do trem sempre o atrapalhava a fazer a crítica final. Pulava de linha para outra e retomava seu caminho a sons estranhos.

Incrivelmente me lembro também de como ele, sempre tentando sorrir, buscava convencer a todos nós: “Cara, é só o bronze. Tudo o bronze faz, ou o gesso. As pinturas renascentistas se pareciam com gesso, e com bronze. Se você não permite que sua mente veja a beleza no cinza do concreto, tua mente é cega para o hoje, parceiro.”, e seguia seu caminho, coluna arqueada, touca no cabelo e blusa de frio preta. Suave, com as mãos no bolso, seguia. E não é, meu amigo, que nem você pode acreditar que ele, nosso grande parceiro, faria algo como as manchetes do jornal anunciariam. Ia para casa de um amigo que terminava o Ensino-Médio, infelizmente repetira o último ano, e de lá partiam para uma estação abandonada. Pegavam um dois três baseados e fumavam. Puxavam, prendiam, passavam, como diziam as músicas e os experientes. Tocavam um violão desafinado que ficava lá e, ou ia para faculdade ou para casa, mas nunca deixava de passar pela linha.

Os grafites pareciam dançar e nem mais molduras de bronze conseguiriam segurar aquela obra. Arquitetura moderna uma ova!, arte moderna uma ova!, isso sim é belo. Os anjos da faculdade podem saltar, as pinturas podem parecer vivas, mas isso aqui é o que realmente acontece.

- E aí, parceiro, que que ‘cê acha? Melhor que Monet, não é? – E ria-se.
- Não conheço nem um, nem outro, “parceiro”... - O operário respondia de bom grado, mas claramente estava incomodado, precisava terminar logo o trabalho e não via a hora de ver a esposa e o chuveiro. -... Mas acho que hoje em dia a arte tá perdida.
- Que isso, irmão, ‘cê tem que abrir tua mente, cara!

Voltava o caminho para casa. A mãe, solteira; o pai sumido; o filho, perdido. Sempre que chegava na casa nova demorava a encontrar os cômodos certos e confundia banheiro com cozinha, cozinha com quarto e quarto com sala.  Observava sua irmã pequenina andando no velocípede com a boca e canela sujas. Com uma mão dava tchauzinho e com a outra fazia a curva quando bateu na parede e tombou. Prontamente correu para ajudá-la e ela afastou-o com os braços, gritava, queria a mãe.

- Mãe, tem uma chave lá na faculdade de bronze, muito linda, lembrei da senhora! Imaginei você todo dia indo para lá e para cá, fazendo compras e atendendo clientes, abrindo sua maletinha de esmaltes com aquela chave. Vou ver se consigo fazer uma dessas para você!
- Ah, que bonito da tua parte! Você é meu moleque mesmo! Mas nada de coisa ilegal, peça pra usar um molde ou coisa assim e fale com teu professor antes, hum! – Deu uma olhadela e piscou os olhos, enquanto abraçava e acudia a mãe.

No outro dia a mesma rotina. Casa do amigo. Casa abandonada. Drogas leves. Mas dessa vez mostrou uma chave que pegara do catálogo de peças da faculdade. Era dourada e a viagem do dia foi entorno da chave. Que portas e que baús poderiam abrir? Que males poderia evitar, que tesouros ela poderia guardar? Pois é, meu amigo, nosso querido Lírio roubou uma peça de antiguidade. O amigo reclamava que esqueceu uma palheta para tocar o violão quebrado. O som metálico com a madeira quebrada dava uma nova luz ao sol poente.

- É disso que falo quando digo para abrirem as mentes, parceiro! – Ria, e só ria. – Céus, se não tivéssemos a chave, não teríamos aberto essa nova porta pro mundo musical...

E ia para a aula, mochila nas costas e chave no bolso. Talvez devolveria, talvez gravaria uma música no celular usando-a de palheta e depois devolveria. Depois devolveria. Foi para casa fechando a chave em mão branca até que ficasse vermelha de força. Viu a irmã colidir e cair, apaziguou a situação e pediu para que ela deixasse sentir a mente abrir e o coração acolher o irmão. Era deveras fechada e tinha que ter uma visão paterna de mundo também. Negado e aos choros ela saiu de perto.

- Daqui a pouco, moleque, a sua mente vai cair pra fora se continuar assim. Vá estudar, ande, e deixe que da tua irmã cuido eu!

E quem dirá, amigo, que Lírio não sentiu raiva da mãe? Aquele que dava bom dia para o moço da carrocinha e boa noite para os mendigos agora sentia raiva. Mas não o suficiente para ir para os jornais, acredito eu, a não ser que você more em cidade pequena demais para conhecer o suficiente da família ao lado tanto quanto sabe da tua. Porém, amigo, ainda não, a pressa nos chama mas Lírio descarrilhava aos poucos, como um trem. Falando em trem...

- A luz do farol do trem, não te faz ver a pintura com novos olhos, parceiro? – Deu um soco amigável no ombro do operário.
- Pode até ser. – Estava mais carrancudo que o normal, o operário -  Mas acho que está vendo as coisas do jeito errado. Aliás, tudo está errado hoje em dia, por exemplo, ontem meu chuveiro estragou e estou fedido como um porco.
- É, mas se você pensar em bacon, verá que até um porco pode ser bom. É só ter a mente aberta, irmão.
- Que tal você sair antes que eu ou o próximo trem abramos a sua cabeça aqui no trilho?

Saiu, apressado, mãos no bolso e chave apertada. No outro dia, fez questão de passar ali, de mangas arregaçadas e punho cerrado. Arqueou o peitoral para exigir respeito por sempre ter sido boa pessoa e nunca nada de mal ter feito com o homem. Ah, como essas lembranças me doem, amigo. O homem, antes mesmo de perceber a ferocidade do rapaz, veio pedindo desculpas e o olhar de cão raivoso logo se transformou num olhar amigável. Desculpou-o e disse que se quisesse poderia arranjar água ou até ajudá-lo a trocar o chuveiro de casa. Deu mais uma olhadela nos grafites e agora via mais pichações que poluíam a sua obra de apreciação. O farol do trem veio e o rapaz se foi.

Na casa abandonada, o telhado caía aos poucos, o mofo tomava conta das paredes e o amigo de Lírio, o Luiz, veio com um pacote diferente. O produto era mais escuro que o normal, quase preto. Fizeram uso desordenado aquilo e começaram a tocar o violão. Amigos, se me apresso é porque a vida não tem hora marcada para chegar o fim e os jornais mal esperam a vida finda chegar para que as palavras preencham a página final. O sol deitava torto e Lírio não iria mais a aula, a poça de água refletia a luz entorpecida que vinda à noite, tomava conta da mente dos meninos. O violão era gravado pelo celular antigo, mas que com certeza traria bons frutos aos meninos. – Não tá sendo bom o suficiente, parceiro! Luiz, nossa mente tá muito fechada, a música ainda é música, mesmo assim. A gente tem que superar a própria música, cara!

Na poça o reflexo dos amigos e do primeiro brilho da lua junto ao sol dava a tristeza no peito do menino. Ele precisava abrir a mente. Pegou agressivamente, mostrando os dentes e jogou-o na parede. Mandou Luiz ir embora, pegou a chave da sua mão e bateu diversas vezes até perfurar o crânio. Quando encontraram o corpo, os policiais disseram aos jornalistas que tinha um cachimbo, drogas e o menino tinha uma chave encaixada à testa. As ideias vermelhas fluíam vermelhas como mar, no chão, dizia o jornaleiro, por meio da fala dum poeta local. Tingiram até o meu tosco cabelo.

A lembrança ainda me dói.

Os Diários do Eu



Dia Sete do Onze.

Não sei se por metafísica ou pensamento bipartido tal coisa poderia me ocorrer. Mas ocorreu. Quem dará voz aos homens para que externem o que não podem dizer? E é por isso que escrevo, para que, não tendo voz, não possa ser ouvido nem tocado pelas leis que tangem o universo.  Mas fugindo às leis e indo aos fatos: vi meu próprio reflexo gritando para ir embora. Eram duas e quarenta e cinco da manhã e eu andava pela rua à noite. Sabe – quem sabe? Por que anoto isso? Se é um diário, escrevo para ninguém além de mim... oras, provável efeito do incidente -, mas depois que os progressistas resolveram pegar em armas para dar a direção ao mundo, jamais andar a pé me deixou relaxado como antes. Mas neste dia, as duas e quarenta e cinco, em meio a tiros da polícia sindicalizada e os progressistas, vi meu reflexo: o problema é que não estava in vitro, estava carnalizado, em pele de progressista, pousado à minha frente. O eu gritou para eu correr, e obedeci tão rápido como se fosse meu próprio cérebro que mandasse. Ainda estou atordoado. Duas bombas explodiram.

Aldair.

--

Dia Treze do Onze.

Nove novas bombas foram plantadas. Não sei que instruções seguir, se por falta delas morro, e por segui-las demais também. Sei que devo apenas seguir. Quem matará não sei. Quem matarei, também não. Mas é necessário: as pessoas precisam aprender aonde ir. Sabe, se todos soubessem ver O Caminho, se todos conseguissem perceber os buracos que deixam no mundo e tentassem melhorar, o mundo seria melhor. Não que sejamos os donos da verdade, ninguém é; mas o mundo não pode se permitir mais a tais luxos mundanos, pessoais.
Agora que me falei do progresso, devo continuar com as importâncias pessoais. Se o chefe lesse além do primeiro parágrafo de seus textos, pelo menos saberia que também me preocupo comigo. Aliás, fato interessante o de semana passada. Juro ter visto alguém muito diferente e parecido comigo. Vestia um terno, cartola e tinha um grande bigode. Mas parecia-se comigo. Não tenho certeza. Mas acho que consegui trazê-lo para o progresso também. Vou perguntar depois ao chefe. Fato curioso, fato curioso.

Aldemir.

--

Dia Onze do Onze.

Um dia normal, como outro qualquer. Ainda tenho pesadelos com o meu eu. Como poderia eu estar segurando uma arma.  Como eu poderia... Céus... Não posso falar isso para ninguém: se para o governo, morro por ser progressista, se para progressistas, morro por ser um duplo agente, se para amigos, vou para um internato, se para inimigos... Bem, não sei o que inimigos seriam capazes de fazer comigo numa situação dessas. Oras, que raiva! Que ira! Que impotência. Não sei a quem clamar. Oh, eu? O que farei contigo?

Dia Vinte e Sete do Onze.

Depois de mais de cinquenta atingidos, nove bombas progressistas explodiram. Eu tenho medo, já que passei muito tempo perto de um local de explosão. Dessa vez não me vi, e isso me acalmou. Curioso como pensar em si como alguém externo a ti nos faz ver maiores erros nossos, ou nos faz temer-nos. Eu que me considerava deus de mim, não sei mais o que fazer, se serei mitologia, ou se continuaria a verdade. Acho que, lá no fundo do meu ego, não sou nada nesse ponto azul chamado Terra. Seja por ficção, seja pelo real, não sei se sou.

--

Dia Vinte e Sete do Onze.

Duas horas se passaram. Quase morri. Não sei com que mão escrevo já que a minha tremula mais que a bandeira do progresso. Salve o progresso! Em primeiro lugar, eu estava perto das bombas. Eu tinha de garantir que nenhum dos nossos entrassem. Usei meu celular para verificar a posição de cada um dos nossos companheiros que fazem postagens a favor. Faltando dois minutos um deles entrou em minha área. Por pouco e, não sei se por ação que a física não tange, consegui salvá-lo. A física indica o progresso, talvez o próprio progresso nos tenha salvo.

Salve o progresso!

Agora, de mim, os braços trêmulos e o coração pulsante, a boca trêmula e os lábios inconstantes, penso em chorar. Meu ouvido dói até agora. Meus olhos queimam. Eu precisava escrever isso para que tal sentimento não ficasse em mim; dizem-nos que sentir deveras é ruim. Mas sabe, eu não sei bem o que é sentir deveras. Nunca senti. Queria me explodir. Não, não queria! Vou fechar o diário, já está dolorido demais pensar.

Ps1: Ah, por sorte não encontrei o bigodudo. Criei simpatia por este homem, seria uma tristeza ele ser um regressista tradicional.
Ps2: Parar de anotar “sabe”, como se eu quisesse que alguém lesse meu diário.


Aldemir.

--

Dia Vinte e Três de Dezembro.

Das terras desconhecidas que o homem vê, encontrei-me novamente. Tentei fugir, mas de pouco adiantou. Fui perseguido. Conto já: ia comprar os meus presentes de Natal, para mim e para as crianças de minha prima que passaria na cidade. Poderia contar-lhe que eu me perseguia, mas seria, novamente, motivo de internação. Não querendo correr esse risco, e querendo de pronto alegrar aquelas crianças que há muito seriam minha única companhia capaz de arrancar sorrisos meus,  fugi de mim. Mas como fugi de mim? Ora, estava numa calçada quando vi um dos progressistas fardados, de bandana na cabeça; ele dizia para todos se acertarem e irem embora, esse tipo de futilidade que retomava a uma religião há muito perdida não trazia nada de bom para ninguém. Antes que a polícia do sindicato chegasse – e então a situação realmente desandaria -, vi meu eu passeando por perto. Não sei se me reconheceu - dessa vez eu não estava tão bem vestido e tinha saído com cabelo e barbas novos -, mas seus olhos passaram por mim. Notei um desejo, uma micro-expressão facial se formando em sua boca, como se quisesse me chamar. Minha mente desandou. Dominei a situação, olhei para minha prima e disse: vamos logo antes que a situação desande; voltamos mais tarde. Largamos as compras e fomos embora. As crianças no carro, esperavam-nos felizes.

Não nos esperam mais. Ou esperam demais.

Plantaram uma bomba próxima ao carro de minha prima.

As crianças morreram.

E ela também.

Por dentro.

Aldair.

--

Dia Vinte e Três de Dezembro.

Explodimos mais bombas e o dia no quartel nunca foi tão alegre. Não pelas mortes, mas o governo começa a nos reconhecer, começa a perceber o progresso que trazemos para a sociedade. A nossa palavra está sendo espalhada pela mídia sem que eles próprios percebam. O progresso irá reinar sobre todos.

Eu serei guiado pelo progresso.

Eu me vi. Me vi andando com uma moça. Era eu. Não tinha mais o bigode, o cabelo ainda estava diferente, mas era eu. Mas como eu poderia dizer isso? Eu quase levantei para falar-me, e gritar para sair dali, bombas explodiriam. E explodiram antes da hora, mas isso agora não importa, quando me vi chorando, pois, não me aguentei ver o fogo consumindo a vida. De mim lágrimas não saíram, do eu, talvez. Sinto-me terrível. Preciso encontrar-me. Sabe, não sei.

Aldemir.

--

Dia Três do Um.

Já se passaram mais de sete dias. Como eu odeio a mim, não consigo parar de pensar na impotência que tornou aquele momento possível. As crianças morrendo com a pancada e depois queimando. Como eu odeio a mim! Jamais andarei sem meu caderno. Anotarei tudo. E me encontrarei em meio a essa perdição de vidas e vidas.

Dia Dez do Um.

Eu busco o meu eu. Quero conversa-lhe. Por que males me causa tanto? Por que? Ando sempre com meu diário, faço anotações, como se fosse detetive. Vou me encontrar, e vou me surrar, e vou me perguntar por que fiz isso. Mas também vou entender por que eu estou ali e fazendo isso, algo tão diferente de mim. Já me acostumei com a ideia de ficção científica, ou talvez de física quântica. Mas não acho que seja nenhuma das duas.

Dia Catorze do Um.

Me encontrei e consegui me atrair para um beco. É claro, ele – eu - estava armado, mas acho que tudo dará certo, afinal, não se pode se conhecer tão bem e se matar assim, pode? Em breve volto com as anotações.

Aldair.

--

Dia Quinze do Um.

Não sei se por olhos tão fatigados ou por coração tão trêmulo minha alma empalidece. Eu suicidei aquele homem. Porque de assassino não posso ser chamado. Ele era eu, de todas as maneiras, mas menos inteligente. Fazia perguntas ambíguas cujas respostas prontas não me convenceram a princípio, mas lendo agora o seu, meu, diário, vejo minhas bases se romperem.

O nosso diálogo:

- Qual o seu nome, e por que és progressista?
- Aldemir. E você não se importa com o progresso da humanidade?
- Obrigado por perguntar, me chamo Aldair. Mas progresso em direção a que? Como se progride em direção a um penhasco senão com um passo para trás?
- Oi? Isso não é progredir. Não há penhascos que segurem o progresso!
- Não me importo. Quero saber quem és e por que mata pessoas em nome de algo que quebrou todos os fundamentos para construir a própria casa.
- Sou Aldemir. E não destruí nada. Apenas queremos que o mundo ande conosco.
- Para a direção em que crianças morrem carbonizadas?
- Para a direção em que crianças não precisem morrer carbonizadas.
- Qual sua memória mais antiga?
Cortarei do diário pois não quero que saibam.
- Você realmente tem uma vida então.
- Sim, e você também.


Cortarei do diário pois se encontra na página vinte e sete do diário de Aldair um resumo de sua vida.


Atirei. Cinco tiros. Na minha frente.

Aldair teve tempo de sussurrar no meu ouvido palavras que jamais esquecerei, sobre como estava errado sobre tudo, sobre como estava errado sobre ele, e sobre mim. Eu suicidei aquele homem. Mas morri junto a ele também. Até hoje não entenderei por que eu vivia além de mim, e por que aquele homem deveria existir, mas, de uma coisa eu sei: as páginas do diário de Aldair que não tratavam dos dias em que ele me via ou pensava em mim trouxeram a maior lição de sabedoria que um homem pode ter. Afinal, ele tinha percebido que não era deus de si; afinal, ele tinha percebido que tudo existia independente da sua cabeça, inclusive eu; afinal ele sabia que eu estava errado.

O Olho de Vidro





Não havia lugar melhor para se viver. Do alto a vila parecia com uma joia, uma esmeralda. Certo que tinham casas e torres, todas feitas de barro, com paredes tão grossas e resistentes que aguentavam os ventos da ira dos céus. Lá, os moradores tinham peles tão grossas quanto às paredes e o coração uivava na velocidade dos ventos. A colheita sempre vinha sadia e todo ano cada vez mais prosperavam; sem visitantes ou inimigos para incomodar nada os impedia de gozar da felicidade.

Mas a felicidade morreu.

E metade da vila também.

A joia antes verde perdia a cor; começava a se quebrar. Trincava-se de tal maneira que ourives algum conseguiria dar jeito. Morriam todos os vegetais, as árvores mostravam os seus dedos secos e murchos como uma bruxa quando se mostra ao entregar a maçã envenenada. A terra ia se dividindo como um osso na boca de um cão selvagem. Não adiantava lutar por aquele lugar, mas o pequeno espasmo da lembrança de como foi bom aquele lugar dava não a força necessária, mas a estúpida última tentativa que nunca chega.

- Oh!, céus! Façam chover! Não aguentamos mais um dia sem água! - clamavam.

E da imensidão azul não vinha resposta alguma.

As únicas gotas que conseguiam sentir ou beber eram das próprias lágrimas ou urina. Como não sentiam repulsa de si mesmos e garantiam que aquela terra voltaria a ser feliz por causa deles, como um dia já foram, bebiam.

- Não se preocupe, Matias, isso veio da terra, aquela terra verde como a vida, pode beber, vai te fazer bem. Se fôssemos para morrer, já não estaríamos aqui.

Tornavam a suplicar dos céus. Nenhuma resposta. Talvez se banhassem alguém que apenas consumira desta terra por toda a vida, um pouco dessa glória seja redmida para todos. - Não! Não! Não! - Os pensamentos se condensavam antes que pudessem se diferenciar. Se assustavam, mas no final, todos tinham o mesmo desejo: que a glória voltasse.

- Eu sou o mais velho, e desta terra comi somente. Em verdade vos digo, que para que os Céus nos ouçam, derramo meu sangue que do gozo provou, para que possamos todos nos alegrar.

O chão começou a se molhar.

Rubro.

O aldeão estava morto, e quem saberia agora: talvez as árvores deixassem de ser bruxas para voltarem a ser ninfas. 

O céu parecia morrer e, aos poucos, o sol ganhava a tonalidade vermelha que só o diabo sabe fazer. Com suas mãos pegou a areia que restava da terra partida, levou-a e esquentou. Esquentou da maneira que fazia melhor. As nuvens acinzentadas davam a intenção às bruxas. Do alto, a esmeralda se mostrava devastada. Do alto, foi solto o vidro. De baixo, eles ouviam o barulho da queda: - Sim, claro! Chuva, meus irmãos! Pobres dos nossos aqueles que fugiram e não acreditavam em nossa glória!

Correram para aproveitar ao máximo aquele presente dos céus.

A terra se molhou, rubra.

Os vários pedaços de vidro caíam e acertavam a cada um em cada ponto existente; quebravam-nos como à terra se quebrou. Eles choviam e a terra se enchia de sangue e vidro. A terra voltou a ser, sozinha, molhada, triste.

Há anos não chovia lá tanto quanto se choveu. Há anos tantas pessoas não se deixaram levar.

Porém os pingos de água só vieram depois. Com os corpos caídos, sem enterro digno, a chuva levou a terra por cima, curou as feridas do próprio chão e, em cima dos corpos, das tristezas e da morte, até mesmo onde havia maculado todo tipo de dor, a vida reinou, novamente.

Notas no solo



O dia mal raiava e, como em todas as manhãs do ano, chovia. Não uma torrente de agulhas, mas pingos suaves, quase como bolhas de sabão. Tocavam o chão como a um piano. O ar fresco acompanhava o som e a respiração por baixo de três cobertores dos quatro moradores daquela casa afastada dançava com a brisa. Os braços se estendiam, os olhos se abriam e todos acordavam. O café estava na mesa.


O menino mais novo logo que acordava não se levantava, esperava até que todos tivessem acordado para dar seu primeiro movimento, como um predador, à espreita. O mais velho levantava e ajudava a mãe na horta atrás da casa, regando e colhendo. O avô era tão parecido com o garoto mais novo que também esperava todos acordarem para se levantar. Um jogo interessante.


O desjejum feito e a chuva caía. O avô chamava ao menino mais novo todas as manhãs para ler na varanda e observar os campos espetados pelas agulhas celestes.  Também distinguiam os sons e tentavam definir as notas que faziam no solo. A mãe preparava o almoço e o menino mais velho descansava na cadeira de balanço. Todos os dias, o mesmo dia.


No outro dia, a chuva caía, a família levantava, o livro era lido, o campo olhado, o almoço feito, o descanso recebia repouso. No outro, também. E no outro talvez nem valesse a pena dizer, mas a figura engraçada chegou andando pela estrada quase apagada pelo tempo e pela água. Um homem. Um homem grande, muito grande, e gordo. Tinha dois metros de altura e os rapazes brincaram que ele tinha o mesmo tamanho para os lados. Olhe mãe!, olhe mãe! – gritavam. As agulhas trincavam com os gritos e as notas do solo saíam desafinadas.


O homem gordo passava por sobre as poças sem jorrar água para fora, andava sob a água sem molhar parte alguma do corpo, da cartola ou terno. Gravidade, por favor, conheça a leveza. Tão sutilmente e tão rápido ele se aproximou que os garotos só podiam ouvir tais sussurros em suas mentes. Perguntaram o que o homem queria, e ele respondeu: quero tudo aquilo que as palavras me dão. – ele respondeu. Revidaram, alegando que isso não tinham não, mas que podiam tentar ajudar com uma toalha ou um lampião pra se aquecer. Ele negou, disse que precisava das palavras, não precisavam ser escritas, ou em uma língua única propriamente, tudo que ele queria era o verbo.


Os olhos do velho estavam tão arredondados quanto a circunferência do homem que a pouco chegara, o susto era grande demais para se conter. Moço, precisamos de mais tempo pra pensar em como te ajudar. Não quer entrar e ver se algo de nós lhe serve? Essa chuva machuca por demais. – Disse tomando todo o cuidado para não ofendê-lo nem acalentá-lo demais. O homem negou com a face. Posso ajudá-los, dizia sob o seu imenso bigode. Vocês estão perdidos aqui?, finalizou. A suspeita era tamanha para todos os quatro da casa que não conseguiam responder. Perdido aqui só o senhor, com todo o respeito, meu senhor. Essa é nossa casa, não vê? Afirmou a mãe desejando que o homem logo se fosse.


O homem riu entre pequenos pulos e andou alguns passos para perto deles. Ora, não estou perdido, só quero a Palavra, minha senhora. Não seriam as palavras, senhor? O mais novo indagava agora, sentia-se assustado e queria acabar logo com isso. O homem gordo sorriu de novo e deu outro passo para trás. Ficaram se observando por alguns segundos que pareciam eternos; os pingos de chuva refletiam a luz de um sol esquecido e fincavam a melodia no solo. O avô, então, de súbito, levantou-se da cadeira, foi para dentro da casa, seguiu para a esquerda, virou no último quarto e observou a estante. Ora bolas, se eu soubesse que era isso o que ele queria... o que custa falar desde o início? Poupa trabalho e não incomoda o nosso dia. Repetia para si mesmo. Pegou um livro grosso, mas pequeno, e saiu da casa, entregou ao homem e gritou para com uma risada estridente: Dicionário! É o que ele queria! Palavras, o que elas significam, em qualquer lugar, língua. Palavras, dicionário!


O menino mais novo olhava admirado para o avô, desejava ser como ele algum dia; o mais velho, admirava o sorriso do recém-chegado ao ver o dicionário; a mãe via a luz saltando de pingo para pingo, alegre. O homem então, por baixo de seu bigode deu mais uma risada e começou a retirar as palavras do dicionário, uma a uma. Não precisava falar, mas a gratidão estava estampada em sua face. Se começou do A ou do Z não importava: ele colocava sua mão na página, tirava uma, erguia, e comia. Uma a uma. Num ritmo lento, mas que ao mesmo tempo não se percebia acontecer.  Comeu, comeu, comeu. Gravidade, sinta a leveza.


No fim de tudo, tendo novamente a gratidão em face, percebeu uma última palavra e deixou-a para a família. Chuva, era o que estava escrito. Chuva. O homem virou de costas e saiu andando, tão leve quanto antes, tão seco e limpo, e maravilhado como antes. A família leu em voz alta o significado da única palavra no meio das páginas em branco. Chuva. E, por cima do telhado, das árvores, da grama, do solo, os pingos não caíram e as nuvens dissipavam. O sol vinha lentamente, trazendo o ouro para a grama, a casa, os moradores.


O som da música parou.
Os pássaros começaram a cantar.

Os olhos se fecham lunares



A Lua estava a pico, e a noite mal tinha iniciado. A cada passo que dava, criava-se uma névoa de poeira amargurada que tornavam os olhos de João irritadiços. A sombra feita pela tocha dançava no chão como se desejasse de lá sair. Estava bem vestido: o terno, o sapato de couro, um pequeno chapéu coco, uma bengala com uma cabeça de boi no apoio na mão esquerda, e a tocha na mão direita. Disse para a esposa que ia à Venda do Seu Nilton, beber um pouco para afogar os maus resultados das colheitas, dos bois mortos, e da praga que era sua vida.

Tinha uma auto abominação tamanha que, se ali pudesse, mataria a própria sombra pela felicidade que expunha perante si. Não, não precisava de tanta ira, até então nunca tinha errado com a família, ou com seus deveres, mas não conseguia se conter; precisava botar tudo pra fora. Tentou desviar o olhar, mas o único lugar que não se incomodaria era para os céus, mas a lua, também prepotente, dominava os céus em pleno início de noite. Por não ver os passos que dava, o chão foi seu destino. Felizmente não havia barro: era pura poeira. Ergueu-se, bateu a mão na roupa e estava quase limpo de novo, mas estava tão escuro... Talvez não tão escuro: fitou, novamente, a noite: agora o grande manto negro escorria rubro, como lágrimas de sangue.

Não, pelo contrário – observava -, as estrelas não estão chorando, tampouco é uma cadência: o céu se banhava em sangue. O luar resistia, leitosa, dominava o manto.

O caminho, pela primeira vez, parecia mais distante do que nunca. Começava a cair uma chuva tão fina e transparente que pareciam agulhas fincando-o no chão. Mas ele não podia parar: pelo menos a Venda do Seu Nilton tinha cobertura e aguardente para aquecer do frio rural. Gostava menos do frio da cidade: e alguns homens insistiam que ali deveria ter uma indústria. Bem, da última vez, tão recente, que vieram com uma ideia industrial, seu gado, suas plantações, e seu eu haviam se prejudicado de maneira irreparável, e continuava se repetindo isso para que se tornasse verdade.

Quando as agulhas ameaçaram aumentar de tamanho, foi então, que meio entre ao barulho das folhas atingidas por essas flechas d’água, que ele ouviu o som de cascos destruindo toda a água que já havia caído. Eles vinham mais rápidos que quaisquer cavalos que já pudera ter visto. Virou-se para trás e na mesma hora foi empurrado para o lado. Atingiu uma poça imediatamente, mas não se machucou, por sorte. Sua tocha se apagou. O homem que guiava o cavalo desceu. Ouvia apenas os passos. Virou-se e, abaixo do céu enrubescido o homem ergueu pegou-o pelo colarinho e o levantou.

                - Sou Lúcio Natas. Quem és tu que vagas na noite de sangue?
                - Podias aprender a cavalgar e a pedir desculpas por quase me matar.
                - Falta-lhe cordialidade e inteligência. João, venha comigo. – Entregou a tocha nas mãos de João, estalou os dedos e ela se acendeu.

Não conseguia acreditar na complexidade do que via: um homem com sobrancelhas e cabelo grossos e laranja como uma brasa ardente. Tudo isso abaixo da imensa cartola que o faziam caricato, mas poderiam tocar o firmamento caso se elevasse mais. Os olhos eram castanhos, mas a tocha fê-lo achar que eram vermelhos como a noite. Tocou a própria face, coçou os olhos, fez as mãos de concha, pegou água da chuva e lavou o rosto. Sentiu-se espetar por uns momentos. O homem parecia sorrir uma ironia de mais de mil anos.

                - Se sabes quem sou, me conheces, e não parou o cavalo de propósito. – Dizia João, tentando não se abalar mais pelo homem. – Por que não me dizes quem és?
                - Já disse. Tu que não escutaste. Anda, vem! Vou lhe pagar a bebida de hoje para que esqueças o ocorrido.

João tinha os olhos esbugalhados e voltara a olhar para o chão, desviando-se do tenebroso Lúcio. A sua sombra não mais dançava. Incrivelmente não havia mais sombra no chão. Levantou o rosto e tornou a encarar o curioso ser à sua frente. A chuva não o tocava. Parecia que tinha medo e se esquivava ou sumia antes mesmo de chegar próximo a sua cartola. Abaixou a cabeça e pôs-se a pensar, novamente.

              - João. Por favor. Deixe-me o levar em minha carruagem.
Ele não havia percebido nenhuma carroça no momento. Era apenas um cavalo negro e... Não, não podia ser como nos contos de fada, e não o era: era uma luxuosa carruagem negra com adornos em ouro e prata. Frisos brancos. A madeira polida. Também não se molhava.
             - Do que tens medo? De uma ótima noite de prazer e felicidade para esquecer a sua desgraça? – Voltava a mostrar sua ironia de dois mil anos.

João sorriu de volta. O céu ficava cada vez mais rubro, as árvores mais negras, e os animais tentavam se esconder. No céu ele via, atrás da carruagem, do cavalo, do caminho, corvos, abutres, urubus, ratos, sapos e tantos mais animais agourentos rondando-lhe. Pediu, antes de tudo, uma lamparina para se aquecer, e óleo para manter o fogo por um tempo. Não queria sujar ou molhar a carruagem. Lúcio insistiu que podia ir assim, não havia problema nenhum. Ele quem o havia atropelado. Retribuiu um sorriso, sem ironia. A Venda não estava longe. Não tinha problema, mas sentia que voltaria para casa. Natas disse que poderia levar ele para os dois lugares, mas só depois de passar na Venda. Para não mais delongar, entregou o lampião e o óleo, e fez sinal para que entrasse na carruagem.

João sorriu, ergueu a bengala e jogou-a suavemente para cima. Pegou no meio do cabo e bateu-a em Lúcio. Em seguida jogou o óleo e ateou o fogo. Para sua desgraça o óleo nem o fogo atingiram-no: o que o protegia da chuva fez o óleo ricochetear e tudo se voltou para o pobre rapaz que há tão pouco tempo se tanto abominava. Gritou: - Lúcio, contigo não ireis! Não irias nunca, ser que vem de baixo das terras e do fogo! – em seguida foi derrubado, e a própria tocha começou a queimá-lo. Mas não sentia dor, ou morte. Do contrário, viu a lua escorrer como seu arrependimento pelos rubros céus, tornando tudo branco; mais branco que a mancha de leite no céu; mais branco que as estrelas juntas; mais branco que o sol. Tudo se tornou branco.

                O seu fogo se pegou no céu.

                Não mais viu o homem em seu caminho.

    Os olhos se fecharam lunares.

A Rosa






                De joelhos ele observava a rosa negra desabrochando. O caule opaco, as folhas que pareciam carbonizadas, e a força exterminadora de mundos que só uma flor é passível de fazer ao desabrochar. Aquela dor de nascer. Por sorte estava no deserto, e no fundo de si, o rapaz com barbas tão recém-nascidas quanto à flor, pensava ouvir o grito, o choro, o tapa que as parteiras dão em crianças para que chorem. Ele nunca chorou como a flor, ou como os bebês. Apoiou-se no chão árido e se respirou o pó subia com o vento.


                Olhou para os horizontes e a linha se mantinha contínua. Mas a rosa, a rosa que desabrochava, a rosa um pouco recostada na brisa suave lhe indicaria a direção, com certeza indicaria, pensava. Andou, embaixo do sol frio, do céu cinzento e da pouca luz esperançosa que guia os homens desesperados. Sempre na direção apontada pela flor de pétalas da noite. Abria os braços, se aquecia, e continuava a andar. Quanto mais andava, mais perto da linha do horizonte chegava, e quanto mais próximo da linha, mais se afastava. Quando a escuridão vinha e, sem lamparina caminhava, ele viu um grande salão, de teto triangular e paredes amarelas.


                Percebia o som pairando no ar ainda seco. Pandeiros, violões, baixolês, batuquins e outros estranhíssimos instrumentos eram tocados pelos homens. De longe, a fraca luz de velas dava conta da felicidade de todos. As moças traziam grandes copos com cerveja achocolatada, pães com mortadela e queijos de vacas desmamadas aos dez anos; por que os queijos recebiam esse nome não sabia, nunca se lembrou de uma vaca desmamada aos dez anos. Curioso, se aprochegou, sentou numa mesa e chamou a garçonete. Todos os que estavam em volta olharam, também curiosos, enquanto a música desafinava e abaixava lentamente. Observaram-no com atenção, olharam dos pés às mãos, e notaram até as cinzas na ponta dos dedos que foram deixadas lá, impercebidas por ele.


                Olhou ao redor, buscando uma salvação inútil. Quando viu um homem pequeno, esfarrapado, corcunda, com um sobretudo sujo e rasgado se perguntou o que era mais velho: se o velho, ou as roupas do velho. As bocas presas na lógica diriam que o velho era mais velho, já que as suas roupas vieram depois; os mais familiares diriam que as roupas foram uma herança; o rapaz, ah!, já o rapaz, diria que os dois nasceram juntos, ou que, se não, não importava. Disparou o nervosismo em suas pernas enquanto via o senhor-de-negro chegando, parecendo contar os passos. Observava, curioso, e agora nem mais se lembrava dos homens ao redor. A luz de velas fazia sombra embaixo do tão velho, também, chapéu e não conseguia identificar para onde olhava ou o que sussurrava. Só o via se aproximando. Se aproximando. Aproximando. O som voltando. E ele largou o corpo. Sentou-se à mesa do rapaz que não sabia o que falar pois agora percebia os olhos brancos do velho.


                - Boa noite. – Disse o senhor, tirando o chapéu e deixando à mostra agora as suas rugas, o sorriso amarelo e o cabelo branco, ralo, e falhado. – Desculpe ocupar tua mesa, mas é a mesa a que me sento todos os dias.
                - Ora, pois, não se incomode. Sou um mero visitante neste... – No fundo do seu ser não conseguia encontrar palavras para descrever o lugar no meio do nada em que estava.
                - Neste nada, é o que dizem. – Completou o senhor-de-negro. – O que fazes por aqui, jovem rapaz?
                - Procuro por meu pai. Sou advogado, vou processá-lo por abandono. E tu, o que fazes por aqui?
               - Sou o coveiro da cidade. As pessoas aqui gostam e desgostam de mim, a minha sorte é que, apesar da cegueira, eu posso enxerga-las.
                - E como cavas as covas? – Fingindo entender o que foi dito pelo velho, mas aprendeu a respeitar os mais velhos e sábios e assim o faria.
                - Com as pás em mãos. Como pretendes encontrar o teu pai?
                - Estou procurando as minhas pás, se é que me entende.

                Riram, saudosamente, e tomaram várias cervejas. Ali, o tempo passava lento e escorregadio, e os homens bebiam dos copos suados e gelados, e suavam, e cantavam, e gritavam, enquanto o dia não vinha. Em menos dos três longos dias em formatos de horas, o rapaz vira alguns homens que já tinha visto, mas um chamou-lhe mais a atenção que todos os outros: vestido de blusa vermelha, colete marrom e um chapéu que pareciam formar asas apontadas para o céu, tentava não acreditar, podia ser, mas podia não ser. Levantou-se abruptamente, e deixando o velho que já quase caía de tanto beber, foi ter com o homem não tão misterioso.


                - Olá, poderia saber o nome teu?
                - Só se tu disseres o teu primeiro.
                - Ora, mas se a pergunta primeira foi solta por mim...
                - As perguntas são animais, solte-as e elas te devoram. Mantenha-as nas coleiras, como eu, que tudo sairá bem. Ou melhor, não sairá.
                - Mas, pois, o que fazes aqui?
                - Apenas me felicito com amigos, e tu?
                - Advogo.
                - Contra quem? A favor de quem?
                - Não sei ainda. A favor de mim. Poderia me ajudar?
                - Talvez.
                - Vou fingir que sim.
                - ...
                - Qual teu nome?
                - ...

                Depois de quase cinco minutos em silêncio em que seus olhos se encontraram, se prenderam a ponto de desafiar as leis da resistência do ar o homem disse o nome. O rapaz sentiu como a rosa negra, desabrochando, cheia de dor, de vida, esperança, mas sem chorar. Os seus olhos abriram tanto que se pudessem roubariam toda a luz que protegia aquele lugar. Decidiu falar por mais tempo com o homem e conhecê-lo. Acumularia a raiva do homem que nem lembrava de seu filho, mas se enganou, as velas refletiam nos olhos do homem e o brilho fazia perceber o amor que sentia por todos. Deu meia volta e sentou na cadeira que estava há momentos. Voltou a falar com o velho:


                - Em que cidade trabalhas?
                - Naquela mais próxima.
                - E a quanto tempo de viagem fica?
                - Alguns dias, semanas, não sei. Mas cansa-me caminhar tudo isso em minha mente agora.
                - Ora... Vou-me para meu refúgio, então. Amanhã voltarei.


                Levantou-se, então, e seguiu para a rosa enegrecida. Seu esconderijo, sua caverna, sua proteção. Caminhou rapidamente na direção e logo chegou. Não se mapeava o céu, pois o céu não tinha estrelas nem nuvens; em verdade, não pensava em se mapear o céu. Abaixou a cabeça e tentou compreender. Conhecera o seu próprio pai, e ele era simpático, mas enigmático. Sentia que havia amor quando lhe falava, mas a sensação de abandono doía-lhe por dentro como uma facada. Lembrava-se das histórias das más línguas da casa: o Pai dele era tido como Pai de todos, e, ao mesmo tempo, abandonara a todos. Como podia um homem ser tão bom e cruel a ponto de ser Pai e não ser encontrado. O garoto então se tornou advogado e foi bater-lhe a frente.


                Acordou no outro dia, com a boca seca e os lábios cheios de pó, os olhos ardidos e o sol frio arrepiando lhe as costas. Levantou-se, deu de ombros, e pôs-se a caminhar para a direção que a rosa indicou no dia passado. A propósito, a flor parecia mais forte, e menos negra, mas ainda assim podia ser chamada de porto seguro pelo rapaz. Deu uma última olhadela e seguiu viagem. Próximo à noite, ele chegou ao lugar-nenhum. Novamente, as mesmas pessoas, os mesmos instrumentos estranhos e aquela música de se fazer acordar. Por tanto quanto antes ficou ali a conversar com as mesmas pessoas e algumas novas. Descobriu mais do trabalho do coveiro cego, e se divertia com suas histórias, com o seu pai ouvia dos grandes feitos dos homens e como se felicitava por pessoas quererem se aproximar e felicitarem-se com ele. Não se dizia dono, mas havia uma aura de respeito em torno do homem.


                Foi para casa descansar. A casa, embaixo da rosa. Protegido. A flor que crescia e se reforçava, mas ainda continuava a apontar um lado, para não desapontar seu protegido. Ela também queria a luz. Os desejos do jovem se mudavam, mas ainda assim havia o rancor: ele compreendia coisas mais do pai, e motivações de seu afastamento. Sem nada tomar, e com mais força que no dia anterior, se levantou e andou. A caminhada demorou bastante tempo mais. Cansado e irritado começou a se lembrar das leis dos homens, e dentro de si, a rosa que existia se despedaçava e seus espinhos cresciam a ponto de ficarem-se em si mesmos, causando a própria sangria. Escorreu uma lágrima assim que viu lugar-nenhum e, na noite que chegava, ele estendeu a mão, apontou ao homem e evocou as leis dos homens: - Abandono de incapaz! - Enquanto a música desafinava e parava o rapaz gritava; o homem ouvia. Foram dez minutos de grito, reclamação, remorso, rancor, asco, rima e ira.


                Abaixou-se o tom da voz e o vermelho da pele, o Pai, com seu chapéu apontado pro céu, respirou fundo e disse:


                - Se fosses realmente um incapaz, como diz, jamais chegarias aqui e me encontrarias. Se tivesse realmente lhe abandonado não achas que eu mesmo teria te mandado para cá e te recebido de braços abertos? Se realmente tivesses te largado, não me lembraria de ti e, no momento em que nos vimos, ficaria com os olhos tão vidrados em ti, por felicidade? Se não soubesse quem és, desde o início até o fim da tua vida, não saberia que a parteira não lhe bateu quando nasceu?


                A resposta veio em tom tão alto que fez todos ao redor quererem se ajoelhar pelo irmão perdido e sofrido. Mas o rapaz não, não se ajoelhou, esticou os dedos e evocou as leis dos homens novamente. Agrediu o próprio Pai que, em reação foi na direção do filho. Este tentou fugir, agora, amedrontado, pois parecia que o homem duplicara de tamanho. Correu, correu o máximo que pôde, até não aguentar mais, correu em direção a casa, correu em direção ao que achava ser sua família, correu na direção contrária ao Pai. Quando viu a rosa, parou, e respirou. Com as mãos apoiadas nos joelhos, puxava o ar tão rapidamente que arranhava o corpo por dentro. Sentia-se tranquilo pois o Pai agora estava longe, e tinha descarregado toda sua negatividade nele. Olhava o chão, e o chão continuou olhando quando um chute acertou-o no tronco. Como uma árvore velha, tombou.


                O Pai subiu em cima e bateu-lhe. Mas não eram socos e pontapés de raiva. Não. Nem tampouco coerção. Eram de correção. Pela primeira vez o rapaz chorava. Não apanhou, coitado, quando nasceu. Agora apanhava, e chorava, chorava o que tinha que chorar, chorava para aprender a não mais chorar, nem se entristecer. Jogava o luto embora, o quanto podia. Jogava tudo de ruim embora. Os espinhos que ficaram em si sangravam mais, sangravam lágrimas também.


                - Me espanque até a morte, se é isso que queres então. Deu-me a vida, pode-me tirá-la. É seu direito de homem.
                - Dei-te a vida, e posso tirá-la, mas não como homem. Escute filho, posso bater-lhe a noite toda, mas só posso bater-lhe o que sei que aguentarás, tu és meu filho, não escravo algum. Tu és meu filho, não animal algum. Tu és meu filho, e és amado, só não soube reconhecer todo meu amor e caminho. Tu, cheio de rancor, cegou-se, e transformou a rosa que te ajuda, em rosa negra. – Agora o rapaz encarava-o com os olhos mais arregalados que o sol e a lua. – Sim, eu sei da rosa, eu sei de ti. 


                O Pai deu um soco e fez o filho desmaiar.



                Nunca havia levado uma surra dessas. Nunca havia apanhado tanto em palavras e murros, nunca. O mais curioso, entretanto, era que quando acordou, no dia, com um sol levemente quente, não sentia dor alguma. Tampouco tristeza pelas palavras que lhe acertaram. Foi isso, pensava, não fui agredido, fui acertado. Viu, de repente, as leis dos homens ruírem na sua frente: como poderia tal contradição haver e não ser explícita? Colocou a mão perto do rosto e se levantou. Viu a rosa – agora as pétalas negras se descascavam, caíam levemente como a poeira no chão, e, ao mesmo tempo, se reerguiam, brancas, iluminadas com o novo sol. Agora não apontava em direção alguma, apontava ao céu. O jovem levantou-se, encheu os pulmões de ar: a garganta ainda doía da respiração rápida de ontem, e pôs se a caminhar para lugar algum.



Que se viva para os outros




- Sobre as montanhas, meu filho... – Dizia o velho de cabelo branco e rosto tão enrugado quanto o chão que havia de comê-lo –... há os gigantescos homens de Minus.
            - E o que fazem os homens de Minus, pai?
            - Eles morrem, meu filho. – Disse, deixando escorregar sobre o rosto enrugado, uma lágrima. – Eles morrem para nos proteger.

O filho desejava ser como o pai. Um grande guerreiro, feitor de várias ações, protetor do povo, salvador da família e de toda a vila. Olhava para o chão. Na grama quente os pés descalços contrastavam com a bota de couro e aço do pai. No fundo, ele sabia que os pés de ambos estavam sujos. Foram até o leste, encontrar o riacho, beber água e lavarem-se.

Voltaram para a vila. O cheiro de comida se aprontando encheu os pulmões e dos pulmões foram para o estômago. Ficaram quase cheios com a inspiração. Terminariam com a comida. O garoto olhava, agora, para o sul. Observava a cachoeira sangrenta: um pequeno filete de água vermelha que escorria entre as águas cristalinas que caíam do rio. Os tios do garoto diziam que os Minúsculos de Mayór subjugavam todos que tentavam passar e, no rio, faziam escorrer o sangue dos perdedores como quem tira sujeira da roupa.

A noite caía, e em volta da fogueira, todos tiravam sopa da panela fumegante, contavam histórias de terror e observavam o filete de sangue tomar conta do resto das cachoeiras. Era mau presságio: logo viriam os Minúsculos. Não era o suficiente para atrapalhar a sopa deles. – Por que os Gigantes não vêm até aqui e nos salvam dos Minúsculos? – Indagava o garoto. – Filho – respondeu o pai - Eles estão sempre ao nosso lado. Sempre ao nosso lado, nós é que nos afastamos temerosos. Mas peça, e eles ajudarão.

O garoto queimou a língua.

O pai bebeu um gole de cerveja.

Todos foram para suas barracas e dormiram – menos o menino. Observava a lua, o cruzeiro do sul, e a noite azul tão escura quanto o mar, tudo pela sua janela. Fechou os olhos e sentiu o ar fresco entrar em seu corpo. Uma brisa suave balançou as folhas fincadas em galhos falhos e ralos. As árvores mordiscavam a grama durante a noite e acordavam mais vivas, tais como os habitantes dali. Recuperavam tudo que havia de vida, antes de perderem a consciência. Dormiram.

Com olhos ébrios e embaçados, o garoto não conseguia compreender por que haviam acendido a fogueira novamente. Novamente, e tão perto de casa. Ouvia a voz de seu pai gritando. Um eco distante, chamuscado. Forçou os olhos tontos, e chorou. Chorou por que viu sua mãe morta em seu lado, e seu pai a lutar contra os estúpidos minúsculos e chifrudos homenzinhos.

- Por que eles estão fazendo isso, pai?! Eles não atacam somente acima da cachoeira?!
            - Eles são a cachoeira que cai para destruir, filho! Corra daqui, pelo amor que tem ao seu pai. Corra para as montanhas! Viva com os Gigantes! Viva por nós!

O pai levantava o enorme machado, que parecia tão pequeno perto dele, e dava uma onda rasante jogando para longe os pequenos subjugadores. O garoto mal teve tempo para pensar e com os olhos cachoeirando, correu. Se pudesse choraria um filete de sangue. Mas correu para longe, sem pensar por que ou como chorava. Correu e ao amanhecer ele estava na metade do campo. Olhou para trás e viu a sua vila exalando a triste fumaça e com a cor alaranjada da derrota. Olhou para o chão e viu seus pés sujos no mesmo lugar do dia anterior. Entretanto, eram apenas os seus pés. Percebeu a ausência de seu pai, e como ele estava grandioso: um gigante lutando para defender os outros daqueles que se julgavam superiores.

Abaixou a cabeça e voltou a andar: pediria ajuda aos Gigantes, e de lá, voltaria para derrotar a todos aqueles que fizeram mal a qualquer um. Eles falharam com a palavra, urrava consigo mesmo. Correu, correu, correu. O vento cortava-lhe as entranhas, as lágrimas cicatrizavam.

Após dias de caminhada e corridas, uma chuva caiu e deu-lhe um pouco de força. Dias passados ele chegou ao topo da montanha, completamente sujo e machucado, com a única força que seu pai e os Gigantes lhe deram. Nunca, em toda sua fuga, se perguntara por que os tais protetores não vieram até ele para protegê-los, ele desejava mais encontrá-los que tudo primeiro.

Chegou ao topo da montanha.

Suavemente serenava em seu entorno. Via, em sua frente, o sol abrindo o caminho de ouro entre as nuvens. O garoto se alegrou. Olhou para baixo e lá percebia uma enorme encruzilhada; a maior que vira em toda a sua vida. Em volta, percebeu em cima de bases circulares grandes homens do triplo de seu tamanho, apoiados em suas imensas espadas na frente de seu corpo. Tinham a cabeça baixa, e pareciam soltar pequenas orações. Por um instante lembrou-se de como seu pai estava grande naquela noite: ele fora um deles. À direita de todos tinha uma base vazia. Ele pegou a espada tombada e com muita força a levantou, mal conseguia equilibrar-se com ela ali.

E ele resistiu.

E resistiu.

Apreciou o céu dourado daqueles que eram Minus, os Gigantes menores, e a encruzilhada agora cheia de vida. Percebeu que não falharam na proteção; o povo falhou ao se afastar dali. Abaixou a cabeça, uma última vez e sussurrou:


- Que eu viva para os outros.
Postagens mais recentes Página inicial Postagens mais antigas