Os Diários do Eu
Dia Sete do Onze.
Não sei se por metafísica ou pensamento bipartido tal coisa
poderia me ocorrer. Mas ocorreu. Quem dará voz aos homens para que externem o
que não podem dizer? E é por isso que escrevo, para que, não tendo voz, não
possa ser ouvido nem tocado pelas leis que tangem o universo. Mas fugindo às leis e indo aos fatos: vi meu
próprio reflexo gritando para ir embora. Eram duas e quarenta e cinco da manhã e eu andava pela rua à noite. Sabe
– quem sabe? Por que anoto isso? Se é um diário, escrevo para ninguém além de
mim... oras, provável efeito do incidente -, mas depois que os progressistas
resolveram pegar em armas para dar a direção ao mundo, jamais andar a pé me deixou
relaxado como antes. Mas neste dia, as duas
e quarenta e cinco, em meio a tiros da polícia sindicalizada e os
progressistas, vi meu reflexo: o problema é que não estava in vitro, estava carnalizado, em pele de progressista, pousado à
minha frente. O eu gritou para eu correr, e obedeci tão rápido como se fosse
meu próprio cérebro que mandasse. Ainda estou atordoado. Duas bombas
explodiram.
Aldair.
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Dia Treze do Onze.
Nove novas bombas foram plantadas. Não sei que instruções
seguir, se por falta delas morro, e por segui-las demais também. Sei que devo
apenas seguir. Quem matará não sei. Quem matarei, também não. Mas é necessário:
as pessoas precisam aprender aonde ir. Sabe, se todos soubessem ver O Caminho,
se todos conseguissem perceber os buracos que deixam no mundo e tentassem
melhorar, o mundo seria melhor. Não que sejamos os donos da verdade, ninguém é;
mas o mundo não pode se permitir mais a tais luxos mundanos, pessoais.
Agora que me falei do progresso, devo continuar com as
importâncias pessoais. Se o chefe lesse além do primeiro parágrafo de seus
textos, pelo menos saberia que também me preocupo comigo. Aliás, fato
interessante o de semana passada. Juro ter visto alguém muito diferente e
parecido comigo. Vestia um terno, cartola e tinha um grande bigode. Mas
parecia-se comigo. Não tenho certeza. Mas acho que consegui trazê-lo para o
progresso também. Vou perguntar depois ao chefe. Fato curioso, fato curioso.
Aldemir.
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Dia Onze do Onze.
Um dia normal, como outro qualquer. Ainda tenho pesadelos com
o meu eu. Como poderia eu estar segurando uma arma. Como eu poderia... Céus... Não posso falar
isso para ninguém: se para o governo, morro por ser progressista, se para
progressistas, morro por ser um duplo agente, se para amigos, vou para um
internato, se para inimigos... Bem, não sei o que inimigos seriam capazes de
fazer comigo numa situação dessas. Oras, que raiva! Que ira! Que impotência.
Não sei a quem clamar. Oh, eu? O que farei contigo?
Dia Vinte e Sete do
Onze.
Depois de mais de cinquenta atingidos, nove bombas
progressistas explodiram. Eu tenho medo, já que passei muito tempo perto de um
local de explosão. Dessa vez não me vi, e isso me acalmou. Curioso como pensar
em si como alguém externo a ti nos faz ver maiores erros nossos, ou nos faz temer-nos.
Eu que me considerava deus de mim, não sei mais o que fazer, se serei
mitologia, ou se continuaria a verdade. Acho que, lá no fundo do meu ego, não
sou nada nesse ponto azul chamado Terra. Seja por ficção, seja pelo real, não
sei se sou.
--
Dia Vinte e Sete do
Onze.
Duas horas se passaram. Quase morri. Não sei com que mão
escrevo já que a minha tremula mais que a bandeira do progresso. Salve o
progresso! Em primeiro lugar, eu estava perto das bombas. Eu tinha de garantir
que nenhum dos nossos entrassem. Usei meu celular para verificar a posição de
cada um dos nossos companheiros que fazem postagens a favor. Faltando dois
minutos um deles entrou em minha área. Por pouco e, não sei se por ação que a
física não tange, consegui salvá-lo. A física indica o progresso, talvez o
próprio progresso nos tenha salvo.
Salve o progresso!
Agora, de mim, os braços trêmulos e o coração pulsante, a
boca trêmula e os lábios inconstantes, penso em chorar. Meu ouvido dói até
agora. Meus olhos queimam. Eu precisava escrever isso para que tal sentimento
não ficasse em mim; dizem-nos que sentir deveras é ruim. Mas sabe, eu não sei
bem o que é sentir deveras. Nunca senti. Queria me explodir. Não, não queria!
Vou fechar o diário, já está dolorido demais pensar.
Ps1: Ah, por sorte não encontrei o bigodudo. Criei simpatia
por este homem, seria uma tristeza ele ser um regressista tradicional.
Ps2: Parar de anotar “sabe”, como se eu quisesse que alguém
lesse meu diário.
Aldemir.
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Dia Vinte e Três de Dezembro.
Das terras desconhecidas que o
homem vê, encontrei-me novamente. Tentei fugir, mas de pouco adiantou. Fui
perseguido. Conto já: ia comprar os meus presentes de Natal, para mim e para as
crianças de minha prima que passaria na cidade. Poderia contar-lhe que eu me
perseguia, mas seria, novamente, motivo de internação. Não querendo correr esse
risco, e querendo de pronto alegrar aquelas crianças que há muito seriam minha
única companhia capaz de arrancar sorrisos meus, fugi de mim. Mas como fugi de mim? Ora, estava
numa calçada quando vi um dos progressistas fardados, de bandana na cabeça; ele
dizia para todos se acertarem e irem embora, esse tipo de futilidade que
retomava a uma religião há muito perdida não trazia nada de bom para ninguém.
Antes que a polícia do sindicato chegasse – e então a situação realmente
desandaria -, vi meu eu passeando por perto. Não sei se me reconheceu - dessa
vez eu não estava tão bem vestido e tinha saído com cabelo e barbas novos -,
mas seus olhos passaram por mim. Notei um desejo, uma micro-expressão facial se
formando em sua boca, como se quisesse me chamar. Minha mente desandou. Dominei
a situação, olhei para minha prima e disse: vamos logo antes que a situação
desande; voltamos mais tarde. Largamos as compras e fomos embora. As crianças
no carro, esperavam-nos felizes.
Não nos esperam mais. Ou
esperam demais.
Plantaram uma bomba próxima ao
carro de minha prima.
As crianças morreram.
E ela também.
Por dentro.
Aldair.
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Dia Vinte e Três de Dezembro.
Explodimos mais bombas e o dia
no quartel nunca foi tão alegre. Não pelas mortes, mas o governo começa a nos
reconhecer, começa a perceber o progresso que trazemos para a sociedade. A
nossa palavra está sendo espalhada pela mídia sem que eles próprios percebam. O
progresso irá reinar sobre todos.
Eu serei guiado pelo progresso.
Eu me vi. Me vi andando com uma
moça. Era eu. Não tinha mais o bigode, o cabelo ainda estava diferente, mas era
eu. Mas como eu poderia dizer isso? Eu quase levantei para falar-me, e gritar
para sair dali, bombas explodiriam. E explodiram antes da hora, mas isso agora
não importa, quando me vi chorando, pois, não me aguentei ver o fogo consumindo
a vida. De mim lágrimas não saíram, do eu, talvez. Sinto-me terrível. Preciso
encontrar-me. Sabe, não sei.
Aldemir.
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Dia Três do Um.
Já se passaram mais de sete
dias. Como eu odeio a mim, não consigo parar de pensar na impotência que tornou
aquele momento possível. As crianças morrendo com a pancada e depois queimando.
Como eu odeio a mim! Jamais andarei sem meu caderno. Anotarei tudo. E me encontrarei
em meio a essa perdição de vidas e vidas.
Dia Dez do Um.
Eu busco o meu eu. Quero
conversa-lhe. Por que males me causa tanto? Por que? Ando sempre com meu
diário, faço anotações, como se fosse detetive. Vou me encontrar, e vou me
surrar, e vou me perguntar por que fiz isso. Mas também vou entender por que eu
estou ali e fazendo isso, algo tão diferente de mim. Já me acostumei com a
ideia de ficção científica, ou talvez de física quântica. Mas não acho que seja
nenhuma das duas.
Dia Catorze do Um.
Me encontrei e consegui me
atrair para um beco. É claro, ele – eu - estava armado, mas acho que tudo dará
certo, afinal, não se pode se conhecer tão bem e se matar assim, pode? Em breve volto com as anotações.
Aldair.
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Dia Quinze do Um.
Não sei se por olhos tão
fatigados ou por coração tão trêmulo minha alma empalidece. Eu suicidei aquele
homem. Porque de assassino não posso ser chamado. Ele era eu, de todas as
maneiras, mas menos inteligente. Fazia perguntas ambíguas cujas respostas
prontas não me convenceram a princípio, mas lendo agora o seu, meu, diário,
vejo minhas bases se romperem.
O nosso diálogo:
- Qual o seu nome, e por que és
progressista?
- Aldemir. E você não se importa com o progresso da humanidade?
- Obrigado por perguntar, me chamo Aldair. Mas progresso em direção a que? Como
se progride em direção a um penhasco senão com um passo para trás?
- Oi? Isso não é progredir. Não há penhascos que segurem o progresso!
- Não me importo. Quero saber quem és e por que mata pessoas em nome de algo
que quebrou todos os fundamentos para construir a própria casa.
- Sou Aldemir. E não destruí nada. Apenas queremos que o mundo ande conosco.
- Para a direção em que crianças morrem carbonizadas?
- Para a direção em que crianças não precisem morrer carbonizadas.
- Qual sua memória mais antiga?
Cortarei do diário pois não quero que saibam.
- Você realmente tem uma vida então.
- Sim, e você também.
Cortarei do diário pois se encontra na página vinte e sete do diário de Aldair um resumo de sua vida.
Atirei. Cinco tiros. Na minha
frente.
Aldair teve tempo de sussurrar
no meu ouvido palavras que jamais esquecerei, sobre como estava errado sobre
tudo, sobre como estava errado sobre ele, e sobre mim. Eu suicidei aquele
homem. Mas morri junto a ele também. Até hoje não entenderei por que eu vivia
além de mim, e por que aquele homem deveria existir, mas, de uma coisa eu sei:
as páginas do diário de Aldair que não tratavam dos dias em que ele me via ou
pensava em mim trouxeram a maior lição de sabedoria que um homem pode ter.
Afinal, ele tinha percebido que não era deus de si; afinal, ele tinha percebido
que tudo existia independente da sua cabeça, inclusive eu; afinal ele sabia que
eu estava errado.



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