Os Diários do Eu

09:54 P.H. Dalboni 0 Comentarios




Dia Sete do Onze.

Não sei se por metafísica ou pensamento bipartido tal coisa poderia me ocorrer. Mas ocorreu. Quem dará voz aos homens para que externem o que não podem dizer? E é por isso que escrevo, para que, não tendo voz, não possa ser ouvido nem tocado pelas leis que tangem o universo.  Mas fugindo às leis e indo aos fatos: vi meu próprio reflexo gritando para ir embora. Eram duas e quarenta e cinco da manhã e eu andava pela rua à noite. Sabe – quem sabe? Por que anoto isso? Se é um diário, escrevo para ninguém além de mim... oras, provável efeito do incidente -, mas depois que os progressistas resolveram pegar em armas para dar a direção ao mundo, jamais andar a pé me deixou relaxado como antes. Mas neste dia, as duas e quarenta e cinco, em meio a tiros da polícia sindicalizada e os progressistas, vi meu reflexo: o problema é que não estava in vitro, estava carnalizado, em pele de progressista, pousado à minha frente. O eu gritou para eu correr, e obedeci tão rápido como se fosse meu próprio cérebro que mandasse. Ainda estou atordoado. Duas bombas explodiram.

Aldair.

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Dia Treze do Onze.

Nove novas bombas foram plantadas. Não sei que instruções seguir, se por falta delas morro, e por segui-las demais também. Sei que devo apenas seguir. Quem matará não sei. Quem matarei, também não. Mas é necessário: as pessoas precisam aprender aonde ir. Sabe, se todos soubessem ver O Caminho, se todos conseguissem perceber os buracos que deixam no mundo e tentassem melhorar, o mundo seria melhor. Não que sejamos os donos da verdade, ninguém é; mas o mundo não pode se permitir mais a tais luxos mundanos, pessoais.
Agora que me falei do progresso, devo continuar com as importâncias pessoais. Se o chefe lesse além do primeiro parágrafo de seus textos, pelo menos saberia que também me preocupo comigo. Aliás, fato interessante o de semana passada. Juro ter visto alguém muito diferente e parecido comigo. Vestia um terno, cartola e tinha um grande bigode. Mas parecia-se comigo. Não tenho certeza. Mas acho que consegui trazê-lo para o progresso também. Vou perguntar depois ao chefe. Fato curioso, fato curioso.

Aldemir.

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Dia Onze do Onze.

Um dia normal, como outro qualquer. Ainda tenho pesadelos com o meu eu. Como poderia eu estar segurando uma arma.  Como eu poderia... Céus... Não posso falar isso para ninguém: se para o governo, morro por ser progressista, se para progressistas, morro por ser um duplo agente, se para amigos, vou para um internato, se para inimigos... Bem, não sei o que inimigos seriam capazes de fazer comigo numa situação dessas. Oras, que raiva! Que ira! Que impotência. Não sei a quem clamar. Oh, eu? O que farei contigo?

Dia Vinte e Sete do Onze.

Depois de mais de cinquenta atingidos, nove bombas progressistas explodiram. Eu tenho medo, já que passei muito tempo perto de um local de explosão. Dessa vez não me vi, e isso me acalmou. Curioso como pensar em si como alguém externo a ti nos faz ver maiores erros nossos, ou nos faz temer-nos. Eu que me considerava deus de mim, não sei mais o que fazer, se serei mitologia, ou se continuaria a verdade. Acho que, lá no fundo do meu ego, não sou nada nesse ponto azul chamado Terra. Seja por ficção, seja pelo real, não sei se sou.

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Dia Vinte e Sete do Onze.

Duas horas se passaram. Quase morri. Não sei com que mão escrevo já que a minha tremula mais que a bandeira do progresso. Salve o progresso! Em primeiro lugar, eu estava perto das bombas. Eu tinha de garantir que nenhum dos nossos entrassem. Usei meu celular para verificar a posição de cada um dos nossos companheiros que fazem postagens a favor. Faltando dois minutos um deles entrou em minha área. Por pouco e, não sei se por ação que a física não tange, consegui salvá-lo. A física indica o progresso, talvez o próprio progresso nos tenha salvo.

Salve o progresso!

Agora, de mim, os braços trêmulos e o coração pulsante, a boca trêmula e os lábios inconstantes, penso em chorar. Meu ouvido dói até agora. Meus olhos queimam. Eu precisava escrever isso para que tal sentimento não ficasse em mim; dizem-nos que sentir deveras é ruim. Mas sabe, eu não sei bem o que é sentir deveras. Nunca senti. Queria me explodir. Não, não queria! Vou fechar o diário, já está dolorido demais pensar.

Ps1: Ah, por sorte não encontrei o bigodudo. Criei simpatia por este homem, seria uma tristeza ele ser um regressista tradicional.
Ps2: Parar de anotar “sabe”, como se eu quisesse que alguém lesse meu diário.


Aldemir.

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Dia Vinte e Três de Dezembro.

Das terras desconhecidas que o homem vê, encontrei-me novamente. Tentei fugir, mas de pouco adiantou. Fui perseguido. Conto já: ia comprar os meus presentes de Natal, para mim e para as crianças de minha prima que passaria na cidade. Poderia contar-lhe que eu me perseguia, mas seria, novamente, motivo de internação. Não querendo correr esse risco, e querendo de pronto alegrar aquelas crianças que há muito seriam minha única companhia capaz de arrancar sorrisos meus,  fugi de mim. Mas como fugi de mim? Ora, estava numa calçada quando vi um dos progressistas fardados, de bandana na cabeça; ele dizia para todos se acertarem e irem embora, esse tipo de futilidade que retomava a uma religião há muito perdida não trazia nada de bom para ninguém. Antes que a polícia do sindicato chegasse – e então a situação realmente desandaria -, vi meu eu passeando por perto. Não sei se me reconheceu - dessa vez eu não estava tão bem vestido e tinha saído com cabelo e barbas novos -, mas seus olhos passaram por mim. Notei um desejo, uma micro-expressão facial se formando em sua boca, como se quisesse me chamar. Minha mente desandou. Dominei a situação, olhei para minha prima e disse: vamos logo antes que a situação desande; voltamos mais tarde. Largamos as compras e fomos embora. As crianças no carro, esperavam-nos felizes.

Não nos esperam mais. Ou esperam demais.

Plantaram uma bomba próxima ao carro de minha prima.

As crianças morreram.

E ela também.

Por dentro.

Aldair.

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Dia Vinte e Três de Dezembro.

Explodimos mais bombas e o dia no quartel nunca foi tão alegre. Não pelas mortes, mas o governo começa a nos reconhecer, começa a perceber o progresso que trazemos para a sociedade. A nossa palavra está sendo espalhada pela mídia sem que eles próprios percebam. O progresso irá reinar sobre todos.

Eu serei guiado pelo progresso.

Eu me vi. Me vi andando com uma moça. Era eu. Não tinha mais o bigode, o cabelo ainda estava diferente, mas era eu. Mas como eu poderia dizer isso? Eu quase levantei para falar-me, e gritar para sair dali, bombas explodiriam. E explodiram antes da hora, mas isso agora não importa, quando me vi chorando, pois, não me aguentei ver o fogo consumindo a vida. De mim lágrimas não saíram, do eu, talvez. Sinto-me terrível. Preciso encontrar-me. Sabe, não sei.

Aldemir.

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Dia Três do Um.

Já se passaram mais de sete dias. Como eu odeio a mim, não consigo parar de pensar na impotência que tornou aquele momento possível. As crianças morrendo com a pancada e depois queimando. Como eu odeio a mim! Jamais andarei sem meu caderno. Anotarei tudo. E me encontrarei em meio a essa perdição de vidas e vidas.

Dia Dez do Um.

Eu busco o meu eu. Quero conversa-lhe. Por que males me causa tanto? Por que? Ando sempre com meu diário, faço anotações, como se fosse detetive. Vou me encontrar, e vou me surrar, e vou me perguntar por que fiz isso. Mas também vou entender por que eu estou ali e fazendo isso, algo tão diferente de mim. Já me acostumei com a ideia de ficção científica, ou talvez de física quântica. Mas não acho que seja nenhuma das duas.

Dia Catorze do Um.

Me encontrei e consegui me atrair para um beco. É claro, ele – eu - estava armado, mas acho que tudo dará certo, afinal, não se pode se conhecer tão bem e se matar assim, pode? Em breve volto com as anotações.

Aldair.

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Dia Quinze do Um.

Não sei se por olhos tão fatigados ou por coração tão trêmulo minha alma empalidece. Eu suicidei aquele homem. Porque de assassino não posso ser chamado. Ele era eu, de todas as maneiras, mas menos inteligente. Fazia perguntas ambíguas cujas respostas prontas não me convenceram a princípio, mas lendo agora o seu, meu, diário, vejo minhas bases se romperem.

O nosso diálogo:

- Qual o seu nome, e por que és progressista?
- Aldemir. E você não se importa com o progresso da humanidade?
- Obrigado por perguntar, me chamo Aldair. Mas progresso em direção a que? Como se progride em direção a um penhasco senão com um passo para trás?
- Oi? Isso não é progredir. Não há penhascos que segurem o progresso!
- Não me importo. Quero saber quem és e por que mata pessoas em nome de algo que quebrou todos os fundamentos para construir a própria casa.
- Sou Aldemir. E não destruí nada. Apenas queremos que o mundo ande conosco.
- Para a direção em que crianças morrem carbonizadas?
- Para a direção em que crianças não precisem morrer carbonizadas.
- Qual sua memória mais antiga?
Cortarei do diário pois não quero que saibam.
- Você realmente tem uma vida então.
- Sim, e você também.


Cortarei do diário pois se encontra na página vinte e sete do diário de Aldair um resumo de sua vida.


Atirei. Cinco tiros. Na minha frente.

Aldair teve tempo de sussurrar no meu ouvido palavras que jamais esquecerei, sobre como estava errado sobre tudo, sobre como estava errado sobre ele, e sobre mim. Eu suicidei aquele homem. Mas morri junto a ele também. Até hoje não entenderei por que eu vivia além de mim, e por que aquele homem deveria existir, mas, de uma coisa eu sei: as páginas do diário de Aldair que não tratavam dos dias em que ele me via ou pensava em mim trouxeram a maior lição de sabedoria que um homem pode ter. Afinal, ele tinha percebido que não era deus de si; afinal, ele tinha percebido que tudo existia independente da sua cabeça, inclusive eu; afinal ele sabia que eu estava errado.

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