O garoto que veio antes da selva.
O grão
de poeira voava desordenadamente pelas ruas da cidade cinza. As ruas, vazias,
não apresentavam nenhuma resistência ao voo. E o grão seguia, esculpido e
cuspido das chaminés, não tinha intenção de atingir ninguém, apenas voar e
espalhar-se por aí. Um rosto distraído, de um jovem, sentado a esperar o ônibus
chegar, admirava as toneladas de pó jogadas ao ar. Desceu os olhos e puxou o
ar.
Não
esperaria muito daquele dia, até por que, como um dia normal, não haveria
ninguém nas ruas, nem mesmo sabia se o ônibus o salvaria dali. O sol subiu aos
céus e a espera do garoto continuava. Não sairia dali; era mais saudável. Abriu
os braços e se posicionou fora da sombra. Abriu os olhos em direção ao céu; a
poeira o atingiu. Em movimentos bruscos e desengonçados ele tentava tirar a
poeira, mas falhava. A cada tentativa sentia-se coçar mais e nada lhe restou a
não ser a risada para acompanhar a tragédia.
O vento
que trouxe o grão foi o mesmo que trouxe as folhas: secas e verdes, entre
sementes e outros grãos pesados. Mal percebia o que estava acontecendo a sua
volta. Conseguiu retirar com os olhos avermelhados o incômodo. Quando voltou a
olhar, a rua agora estava cheia. Cheia não de pessoas, mas de folhas, grãos e
sementes voando. O toque e tinir que faziam ao deslizar sobre o ar e asfalto
agradavam à audição. Era uma música que não ouvia há tempos; tempos em que o
ônibus o deixava em bosques, selvas, e florestas tropicais e frias.
Sentia
saudades.
Voltou
a respirar o ar quente do sol, e tinha em mãos uma semente que chegara voando.
Olhava o fim da rua, e nada de ônibus, nem mesmo a sombra ou reflexo da
possibilidade dele estar ali. Via o vapor subir, mas não sentia sede. Lambeu os
beiços e engoliu a semente. Deitou-se à sombra para descansar; e descansou.
Ficou de olhos fechados até o rufar daquilo que pareciam tambores obrigaram-no
a abri-los. Tocavam tantas notas separadas e trocavam o ritmo toda hora.
Olhava
agora, atento, para o outro final da rua, tentando distinguir o que se passava
por entre os prédios amarelos e cinza. O que acontecia além do estacionamento
vazio; além do boliche vazio; além do vazio, vazio. Observava e via o vapor
sair do asfalto, e nada mais. Olhava para o outro lado e nada. A esperança
crescia no seu peito, de tanto esperar. E refletia sobre o que seria esperar
sem esperança, e esperança sem esperar. O calor, certamente, afetava o
pensamento pobre do garoto. Sem respostas, tornou-se à calçada e deitou.
Novamente dormira e, ao som das rufadas, acordou. Porém, agora, era
diferentemente.
Ao
fundo, via pequenos prédios com braços finos e cheios de lanças que andavam à
sua direção. Pegou uma semente; mordeu; soprou. O vento a levou. A cada passo
ele distinguia mais os andarilhos errantes: não eram prédios, tampouco humanos.
Eram troncudos, grandes, amarronzados, espetados e traziam folhas consigo. Eram
a fonte de seu vento, eram a esperança maior que o ônibus.
Eram
árvores.
Árvores,
pequenas, grandes, com vários galhos e ramificações. Não eram entes, como os
mitológicos, eram apenas árvores que caminhavam por sobre suas enormes raízes e
rostos nada pálidos e muito enrugados. Entretanto, não andavam como homens, nem
arrastavam-se como bichos tristes: vinham dançando ao som da música de homem
algum. Sambavam, ornamentadas em raios de sol, trazendo a luz com o vai e vem
das folhas farfalhantes, que chacoalhavam o ar, o céu, e as nuvens.
O
menino sentia-se feliz por ter a tristeza de não ter visto o ônibus chegar para
levá-lo ao bosque, às florestas e selvas, pois agora, ele tinha a sorte: ele
era o garoto que veio antes da selva chegar.


Queria que tivesse uma sessao em que fosse explicado os contos, ia ajudar muito gnt meio lenta como eu..uma especie de obra comentada
ResponderExcluirOlá, Marco, tudo bem?
ExcluirAs ideias aqui é que você faça a interpretação do conto a sua maneira, sempre respeitando os limites que o próprio conto propõe. Falo isso pois considero que grande parte dos meus contos tem uma carga simbolista muito forte, e muitas vezes as interpretações dos símbolos podem não serem feitas em completude ou gerar uma nova interpretação quando trabalhadas em conjunto.
Uma ideia bacana, no caso, seria você comentar aqui a sua interpretação - aliás, aproveito para pedir desculpa pela demora na resposta do seu comentário pois o blog passou por um período de inatividade e agora estou voltando ao normal, inclusive com uma página no facebook, caso queira dar uma curtida - e, eu e você e até mais leitores, irmos ampliando o diálogo entre nós e o texto, sempre acrescentando, e então, eu, a depender das interpretações daria os significados intencionais e isso tudo ajudaria na discussão.
Mas sempre que não entender algo, pode perguntar que eu me esforçarei para responder, com muita alegria :D
Peço desculpa, novamente, pela demora na resposta, e qualquer coisa, pode me chamar por aqui ou pelo perfil do facebook - tem um link no blog -, estarei a disposição!