O garoto que veio antes da selva.

14:11 P.H. Dalboni 2 Comentarios


                O grão de poeira voava desordenadamente pelas ruas da cidade cinza. As ruas, vazias, não apresentavam nenhuma resistência ao voo. E o grão seguia, esculpido e cuspido das chaminés, não tinha intenção de atingir ninguém, apenas voar e espalhar-se por aí. Um rosto distraído, de um jovem, sentado a esperar o ônibus chegar, admirava as toneladas de pó jogadas ao ar. Desceu os olhos e puxou o ar.

                Não esperaria muito daquele dia, até por que, como um dia normal, não haveria ninguém nas ruas, nem mesmo sabia se o ônibus o salvaria dali. O sol subiu aos céus e a espera do garoto continuava. Não sairia dali; era mais saudável. Abriu os braços e se posicionou fora da sombra. Abriu os olhos em direção ao céu; a poeira o atingiu. Em movimentos bruscos e desengonçados ele tentava tirar a poeira, mas falhava. A cada tentativa sentia-se coçar mais e nada lhe restou a não ser a risada para acompanhar a tragédia.

                O vento que trouxe o grão foi o mesmo que trouxe as folhas: secas e verdes, entre sementes e outros grãos pesados. Mal percebia o que estava acontecendo a sua volta. Conseguiu retirar com os olhos avermelhados o incômodo. Quando voltou a olhar, a rua agora estava cheia. Cheia não de pessoas, mas de folhas, grãos e sementes voando. O toque e tinir que faziam ao deslizar sobre o ar e asfalto agradavam à audição. Era uma música que não ouvia há tempos; tempos em que o ônibus o deixava em bosques, selvas, e florestas tropicais e frias.

                Sentia saudades.

                Voltou a respirar o ar quente do sol, e tinha em mãos uma semente que chegara voando. Olhava o fim da rua, e nada de ônibus, nem mesmo a sombra ou reflexo da possibilidade dele estar ali. Via o vapor subir, mas não sentia sede. Lambeu os beiços e engoliu a semente. Deitou-se à sombra para descansar; e descansou. Ficou de olhos fechados até o rufar daquilo que pareciam tambores obrigaram-no a abri-los. Tocavam tantas notas separadas e trocavam o ritmo toda hora.

                Olhava agora, atento, para o outro final da rua, tentando distinguir o que se passava por entre os prédios amarelos e cinza. O que acontecia além do estacionamento vazio; além do boliche vazio; além do vazio, vazio. Observava e via o vapor sair do asfalto, e nada mais. Olhava para o outro lado e nada. A esperança crescia no seu peito, de tanto esperar. E refletia sobre o que seria esperar sem esperança, e esperança sem esperar. O calor, certamente, afetava o pensamento pobre do garoto. Sem respostas, tornou-se à calçada e deitou. Novamente dormira e, ao som das rufadas, acordou. Porém, agora, era diferentemente.

                Ao fundo, via pequenos prédios com braços finos e cheios de lanças que andavam à sua direção. Pegou uma semente; mordeu; soprou. O vento a levou. A cada passo ele distinguia mais os andarilhos errantes: não eram prédios, tampouco humanos. Eram troncudos, grandes, amarronzados, espetados e traziam folhas consigo. Eram a fonte de seu vento, eram a esperança maior que o ônibus.

                Eram árvores.

                Árvores, pequenas, grandes, com vários galhos e ramificações. Não eram entes, como os mitológicos, eram apenas árvores que caminhavam por sobre suas enormes raízes e rostos nada pálidos e muito enrugados. Entretanto, não andavam como homens, nem arrastavam-se como bichos tristes: vinham dançando ao som da música de homem algum. Sambavam, ornamentadas em raios de sol, trazendo a luz com o vai e vem das folhas farfalhantes, que chacoalhavam o ar, o céu, e as nuvens.


                O menino sentia-se feliz por ter a tristeza de não ter visto o ônibus chegar para levá-lo ao bosque, às florestas e selvas, pois agora, ele tinha a sorte: ele era o garoto que veio antes da selva chegar.

2 comentários:

  1. Queria que tivesse uma sessao em que fosse explicado os contos, ia ajudar muito gnt meio lenta como eu..uma especie de obra comentada

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    1. Olá, Marco, tudo bem?

      As ideias aqui é que você faça a interpretação do conto a sua maneira, sempre respeitando os limites que o próprio conto propõe. Falo isso pois considero que grande parte dos meus contos tem uma carga simbolista muito forte, e muitas vezes as interpretações dos símbolos podem não serem feitas em completude ou gerar uma nova interpretação quando trabalhadas em conjunto.

      Uma ideia bacana, no caso, seria você comentar aqui a sua interpretação - aliás, aproveito para pedir desculpa pela demora na resposta do seu comentário pois o blog passou por um período de inatividade e agora estou voltando ao normal, inclusive com uma página no facebook, caso queira dar uma curtida - e, eu e você e até mais leitores, irmos ampliando o diálogo entre nós e o texto, sempre acrescentando, e então, eu, a depender das interpretações daria os significados intencionais e isso tudo ajudaria na discussão.

      Mas sempre que não entender algo, pode perguntar que eu me esforçarei para responder, com muita alegria :D

      Peço desculpa, novamente, pela demora na resposta, e qualquer coisa, pode me chamar por aqui ou pelo perfil do facebook - tem um link no blog -, estarei a disposição!

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